17/01/2014

no tempo dividido




como é estranha a minha liberdade
as coisas deixam-me passar
abrem alas de vazio pra que eu passe
como é estranho viver sem alimento
sem que nada em nós precise ou gaste
como é estranho não saber

não procures verdade no que sabes
nem destino procures nos teus gestos
tudo quanto acontece é solitário
fora de saber fora das leis
dentro de um ritmo cego inumerável
onde nunca foi dito nenhum nome

sophia de mello breyner 

(no tempo dividido)


19/12/2013

sin ruido


la manera que tienes
de irte despidiendo
de las cosas,
una a una,
es también la de irlas
recibiendo
para hacerlas más tuyas
y liberarte, al fin,
de ellas y de tí,
en un acto de amor

josé corredor-matheos (sin ruido, 2013)

21/11/2013

ceniza




TODO será ceniza.

ceniza.

pero ahora,
qué plenitud

todo, en vuelo

y tú,
sabiéndote ceniza,
pero ardiendo.


josé corredor-matheos

18/11/2013

chama, a palavra


a poesia deve trabalhar o desaparecimento não como o contrário do aparecimento das coisas mas como o seu avesso, como a sua ressonância interior

toda a manifestação de algo traz no seu interior o silêncio do seu desaparecimento, como uma voz que transporta o eco perdido de si mesma


nuno nabais
(prefácio de "chama, a palavra" de zlatka timenova)




pai,
vejo as tuas rugas
no meu rosto
será longo o inverno?

zlatka timenova

17/10/2013

aqui, de lá



clamor


ali, onde se ocultam os nossos segredos

poderíamos dizer que esta arte é a de expor, de desvelar, o mais belo, o mais terrível dos segredos

palavras, imagens, gestos, sons, surgem e evoluem no espaço, sem ruído

o espectador olha, ouve e embarca nesse voo como que pela fresta de uma porta ou de uma cortina de palco de onde saísse um raio de luz que lhe permite desvelar a personagem

esta encontra-se a sós consigo própria, não revela o seu segredo a ninguém, liberta, pela respiração, um segredo que já não pode guardar, inaudível porque proveniente do coração

cada espectador capta um instante do segredo, algo que inconscientemente lhe pertence

alcança, em voo, instantes íntimos dele próprio, sonho, expectativa, desejo, brecha, exaltação

trata-se de um movimento ininterrupto, nos dois sentidos, da cena à sala, um encontro, em diálogo

lentamente, cada espectador opera um regresso a si próprio, ao mais profundo do seu ser, lá, onde habita o seu próprio segredo - onde se encontra o significado do teatro e de todas as artes

o actor é um instrumento desse encontro, apenas isso, um movimento

de diferentes formas, cada espectáculo oferece ao espectador a oportunidade de um regresso a si próprio; o espectador entra no espectáculo e esquece-se de si, no final passa pelo movimento inverso

estes dois movimentos representam um abandono ao objecto (cena) e um regresso ao espectador permitindo a este último, enquanto sujeito, recuperar-se, sair da identificação, voltar a si próprio

há uma similitude flagrante entre este processo e a (arque)típica jornada mística de retorno ao sujeito, condição do conhecimento


jean klein, considerações sobre o teatro

(trad/adapt nc)

(foto: clamor de pedro ferreira, rita roberto e tomás maia)

29/09/2013

os olhos de kiarostami



no nosso dia a dia apercebemo-nos dos estados pelos quais vamos passando, não do espaço onde estes ocorrem, trazemos a tónica às nossa personalidades pouco pressentindo do que é impensável, indiscernível, inapreendível

a atenção pura, sem representações, é o espaço, a totalidade, é o que somos: tudo o que aí aparece se referencia inevitavelmente a esse fundo sem forma

a observação não profanada pelo eu não tem direcção, é virgem, expande-se e converte-se em inteligência englobante de toda a nossa sensibilidade

essa totalidade é compreensão integral

a visão é acção

acção e atenção que não são interiores nem exteriores, nem centro nem periferia, conhecem-se a si próprias quando a investigação se faz sem investigador, apenas pela constatação do que surge, são transformação: acolher e escutar sem nomear, sem qualificar, acarreta uma reorquestração imediata das energias que constituem o ser


jean klein, uma lição

(trad/adapt nc)

(foto: abbas kiarostami: five)