05/02/2014

oráculo perpétuo 2



amo as horas escuras do meu ser
em que se aprofundam os meus sentidos;
nelas, como em certas cartas antigas se pode ler,
encontrei meus dias já vividos
e como lenda longínqua a desaparecer

delas fico a saber que tenho espaço, afinal,
para uma segunda vida, vasta e intemporal.
e por vezes sou como a árvore ampla
que, madura e murmurante, por cima de uma campa,
realiza o sonho que o rapaz de outrora
(em redor do qual se apertam raízes calorosas agora)
em tristezas e cantares deitou fora

r. m. rilke  - o livro de horas

17/01/2014

no tempo dividido




como é estranha a minha liberdade
as coisas deixam-me passar
abrem alas de vazio pra que eu passe
como é estranho viver sem alimento
sem que nada em nós precise ou gaste
como é estranho não saber

não procures verdade no que sabes
nem destino procures nos teus gestos
tudo quanto acontece é solitário
fora de saber fora das leis
dentro de um ritmo cego inumerável
onde nunca foi dito nenhum nome

sophia de mello breyner 

(no tempo dividido)


19/12/2013

sin ruido


la manera que tienes
de irte despidiendo
de las cosas,
una a una,
es también la de irlas
recibiendo
para hacerlas más tuyas
y liberarte, al fin,
de ellas y de tí,
en un acto de amor

josé corredor-matheos (sin ruido, 2013)

21/11/2013

ceniza




TODO será ceniza.

ceniza.

pero ahora,
qué plenitud

todo, en vuelo

y tú,
sabiéndote ceniza,
pero ardiendo.


josé corredor-matheos

18/11/2013

chama, a palavra


a poesia deve trabalhar o desaparecimento não como o contrário do aparecimento das coisas mas como o seu avesso, como a sua ressonância interior

toda a manifestação de algo traz no seu interior o silêncio do seu desaparecimento, como uma voz que transporta o eco perdido de si mesma


nuno nabais
(prefácio de "chama, a palavra" de zlatka timenova)




pai,
vejo as tuas rugas
no meu rosto
será longo o inverno?

zlatka timenova

17/10/2013

aqui, de lá



clamor


ali, onde se ocultam os nossos segredos

poderíamos dizer que esta arte é a de expor, de desvelar, o mais belo, o mais terrível dos segredos

palavras, imagens, gestos, sons, surgem e evoluem no espaço, sem ruído

o espectador olha, ouve e embarca nesse voo como que pela fresta de uma porta ou de uma cortina de palco de onde saísse um raio de luz que lhe permite desvelar a personagem

esta encontra-se a sós consigo própria, não revela o seu segredo a ninguém, liberta, pela respiração, um segredo que já não pode guardar, inaudível porque proveniente do coração

cada espectador capta um instante do segredo, algo que inconscientemente lhe pertence

alcança, em voo, instantes íntimos dele próprio, sonho, expectativa, desejo, brecha, exaltação

trata-se de um movimento ininterrupto, nos dois sentidos, da cena à sala, um encontro, em diálogo

lentamente, cada espectador opera um regresso a si próprio, ao mais profundo do seu ser, lá, onde habita o seu próprio segredo - onde se encontra o significado do teatro e de todas as artes

o actor é um instrumento desse encontro, apenas isso, um movimento

de diferentes formas, cada espectáculo oferece ao espectador a oportunidade de um regresso a si próprio; o espectador entra no espectáculo e esquece-se de si, no final passa pelo movimento inverso

estes dois movimentos representam um abandono ao objecto (cena) e um regresso ao espectador permitindo a este último, enquanto sujeito, recuperar-se, sair da identificação, voltar a si próprio

há uma similitude flagrante entre este processo e a (arque)típica jornada mística de retorno ao sujeito, condição do conhecimento


jean klein, considerações sobre o teatro

(trad/adapt nc)

(foto: clamor de pedro ferreira, rita roberto e tomás maia)