26/09/2020

estas tonne



to light,

and then      return 


gaze

for which i cease     to live


emily dickinson

22/09/2020

mourad merzouki / teddy verardo


 

take all away from me, but leave me ecstasy

and i am richer than all my fellow men -

ill it becometh me to dwell so wealthily

when at my very door are those possessing more,

in abject poverty -


emily dickinson

15/06/2020

he knew it





a partir de um certo ponto já não há regresso

há que atingir este ponto


f. kafka

(trad. álvaro gonçalves)

maluco beleza







enquanto você se esforça pra ser
um sujeito normal
e fazer tudo igual

eu do meu lado, aprendendo a ser louco
um maluco total
na loucura real

controlando a minha "maluquez"
misturando com minha lucidez

vou ficar
ficar com certeza
maluco beleza

e este caminho que eu mesmo escolhi
é tão fácil seguir
por não ter onde ir


raul seixas (1977)

13/04/2020

l'instant


quittez toute voie spirituelle

restez chez vous

jetez vous tofus et votre prétention à la paix par l'alimentation, le yoga ou le tai-chi-chuan, regardez, ressentez - rendez-vous compte combien vous vous enfuyez de la réalité quotidienne

pas de recette, d'exercice, d'attitude à observer, être lucide: sentez la peine, la tristesse, la peur

c'est dieu en activité

c'est votre chance

quand vous ne prétendez plus que les choses devraient être autrement, mais que vous vous donnez à ce qui est dans l'instant, tout est possible

eric baret (2018)

(originellement un post de ce qui est à blog.com)

12/04/2020

eu remava num lago






eu remava num lago

era uma gruta abobadada sem luz do sol

mas estava claro, havia uma luz transparente e homogénea que irradiava da pedra azul-pálida

embora não se sentisse nem uma ponta de vento, as ondas subiam, mas não tanto que isso pudesse representar qualquer perigo para o meu barco, pequeno, mas sólido

eu continuava a remar calmamente entre as ondas, mas quase nem pensava nos remos, estava todo concentrado em absorver ao máximo o silêncio que dominava o lugar, um silêncio como nunca o tinha sentido em toda a minha vida

era como um fruto que eu nunca tivesse comido mas fosse o mais suculento de todos

agora, tinha os olhos fechados e sorvia-o

mas não sem alguma perturbação

o silêncio era ainda total, mas sentia-se uma perturbação contínua; qualquer coisa ainda sustinha o ruído, mas ele estava à porta, a rebentar de vontade de entrar subitamente

rodei os olhos na direcção daquele que não estava ali, soltei um dos remos da amarração, pus-me de pé no barco que baloiçava, ameaçando o vazio com o remo

mas o silêncio persistiu e eu continuei a remar

franz kafka