10/03/2011

vanda scaravelli





“AWAKENING THE SPINE”

forte e flexível ainda, aos 88 anos de idade, vanda scaravelli continua a praticar utilizando a força da gravidade e a respiração para libertar a onda própria do corpo

por esther myers e kim echlin


tenho observado vanda scaravelli a fazer posturas de extensão da coluna durante mais de dez anos e, de cada vez, sinto-me como se estivesse a observar este movimento pela primeira vez. tive a oportunidade de ver esta mulher de aparência frágil mas poderosa, de mais de oitenta anos de idade, a colocar os seus enormes pés sobre o chão e a falar da noção de ganhar raízes. depois, num movimento ondulatório, rítmico, a arquear-se para trás e para a frente, enquanto falava do crescimento de asas, do voo das aves e de amor. subindo e descendo. acima e abaixo, como se pudesse continuar sempre.

na época em que eu me encontrava a preparar um video acerca de vanda e do seu tipo de prática de yoga, único no género, passei alguns dias com ela na casa da filha, em toronto, onde pude ouvi-la e reflectir sobre a sua vida e o seu amor pelo yoga. em retrospectiva sobre aqueles dias, relembro ainda a descoberta extraordinária que ela constituiu na minha vida.

vanda scaravelli nasceu em florença, itália, em 1908. o seu pai, um bem sucedido homem de negócios e amante da música, foi o criador da “orquestra stabile”, que permitiu a florença ter uma orquestra própria. a mãe, clara corsi, professora, foi uma das primeiras mulheres a atingir um grau académico em itália. os dois criaram em conjunto um “salão” frequentado por alguns dos maiores artistas do século: arturo toscanini, artur schnabel, federico fellini, bronislaw huberman e herman serkin, para mencionar apenas alguns dos que visitavam frequentemente a família na “villa”, il laccio. a própria vanda estudou piano sob a orientação de ernesto consolo. ela descreve a sala de música da família como um dos seus locais favoritos, repleto de luz, com paredes amarelas, onde as pessoas se reuniam para ouvirem concertos privados dados por executantes notáveis, que eram também amigos da família, como o violoncelista pablo casals ou o guitarrista andres segovia. do outro lado de um oceano, quase um século mais tarde, a juventude desta mulher é luminosa, quase mágica. vanda fala desses tempos com um brilho de prazer nos olhos, sem afectação. a vida quotidiana de vanda era preenchida por música, conversação com intelectuais dinâmicos, de espírito aberto e investigativo. ainda criança, acompanhou a sua família à holanda, na busca de algo espiritual e “curativo” (“healing”).

foi lá, em ommen, que ela se encontrou pela primeira vez com krishnamurti. vanda relembra ter estado sentada junto de uma enorme fogueira a cantar canções indianas e a assistir à conversa de krishnamurti, tendo este passado a ficar na “villa”, todos os anos, aquando das suas viagens entre a índia e a américa. ofereciam-lhe, desta forma, um sítio para descansar, um local de paz e tranquilidade, onde não lhe era exigido ser um guru, onde podia escrever e pensar. vanda andava frequentemente com ele a pé e relembra os passeios de carro no seu flaminia ou no mercedes dele. “ele gostava de conduzir, mas desagradava-lhe que as pessoas conduzissem demasiado depressa”. dizia: “tenho este corpo e tenho que velar por ele”. ambos nos interessávamos bastante pelo que víamos – a natureza, os terrenos, as vacas, as montanhas cheias de neve.

vanda casou com luigi scaravelli, professor e erudito de filosofia; tiveram dois filhos. depois da segunda guerra mundial e da morte inesperada do marido, o violinista yehudi menuhin apresentou-a a b.k.s. iyengar, a quem tinha convidado para gstaad, na suíça, onde vanda costumava alugar, todos os anos, um chalé. iyengar, nessa altura, dava aulas diárias a krishnamurti, que se encontrava ali a passar todo o verão, para as suas conferências anuais. vanda salienta que iyengar “teve a amabilidade de me dar, igualmente, uma aula diária”. foi desta forma que, no meio da vida, vanda scaravelli descobriu o yoga. alguns anos mais tarde, por convite de krishnamurti, t.k.v. desikachar visitou o chalé de gstaad, onde pôde ensinar~lhe, e a vanda, a importância da respiração. vanda continuou a estudar, em privado, com iyengar e desikachar, durante vários anos.

após a interrupção das suas visitas regulares a gstaad, vanda passou a trabalhar sozinha, desenvolvendo um método de yoga único, que perdura até hoje, e que é exposto no seu livro “awakening the spine”, datado de 1991. apresentamos, em seguida, excertos das nossas conversas, ocorridas ao longo de dois dias passados em conjunto. sobressaiu sempre, nas suas palavras, a importância de tornar a prática do yoga e as nossas atitudes na vida simples e abertas.

yoga journal: como se iniciou na prática do yoga?

vanda scaravelli: conheci mr. iyengar e ele gentilmente aceitou ensinar-me. fazia-o todas as manhãs. não conseguia resistir, gostava. mr. iyengar é um homem poderoso mas delicado, que me permitiu entrar no meu corpo e compreendê-lo, num período triste da minha vida em que tinha acabado de perder o meu marido e me sentia exausta. através do yoga consegui sobreviver. com iyengar e krishnamurti configurava-se uma possibilidade, uma alternativa. é tal o choque quando alguém próximo morre! foi aí que o yoga me ajudou. não sabia que ele iria ter esse efeito, porque o praticava como o ténis ou outro jogo – era divertido, para mim. mas era também muito mais profundo do que podia entender naquele momento. apercebi-me disso mais tarde.

y.j.: como se sentia, no início?

v.s.: estava feliz! o meu corpo exultava, como uma planta, uma flor. comecei entre os quarenta e os quarenta e cinco anos anos e uma nova vida entrou pelo meu corpo. na natureza as flores desabrocham na primavera e, novamente, no outono. eu sentia-me assim.

y.j.: isso afectou outras áreas da sua vida?

v.s.: houve outras coisas que começaram a funcionar melhor. eu tocava piano na altura e apercebi-me de como a execução com o corpo relaxado e a mente concentrada permitia que a minha técnica surgisse como uma onda. primeiro memorizava as notas, depois ía para o piano. não era a melodia que orientava o cérebro, mas o cérebro que orientava as mãos. era uma colaboração do corpo e da mente.

y.j.: prosseguiu os seus estudos com mr. iyengar e mais tarde com o filho de krishnamacharya, desikachar, durante vários anos. suponho que terá sido então que começou a interessar-se mais pela respiração e em como ela se pode conjugar com as posturas…

v.s.: os efeitos fundamentais do yoga acontecem através da respiração. gostaria de falar sobre a respiração, porque sem atenção a ela não pode haver yoga. começamos a respirar, terminamos respirando e cada movimento que fazemos é acompanhado pela respiração. inspiramos e expiramos. ao inspirarmos, a energia, a força, surge como uma onda e é acompanhada pelo corpo. dá uma sensação relaxante. cada movimento é realizado com essa onda, tornando a pessoa mais maleável e elástica, sem dificuldades. é importante ter isto sempre em mente quando realizamos qualquer tipo de exercício, e também na vida: fluír com, não contra. é tão simples que se torna demasiado simples para ser compreendido. só temos que não agir. quanto mais não agimos, mais somos, e mais as coisas vêm ter connosco. não tente “tornar-se”. já é!

y.j.: será que corremos o risco de “tentarmos tornar-nos” ao realizar uma postura?

v.s.: se está com o seu corpo, não está a tentar tornar-se, está a ser. lentamente, o corpo ajusta-se e vem ao seu encontro, centrando-se através da respiração. “acompanhar” é uma atitude de atenção, de interesse. se estiver atento à respiração no corpo, pode descobrir muitas coisas. não há professor, ou aluno, torna-se o seu próprio professor, o seu próprio aluno.

y.j.: quando os seus professores partiram ficou só. que aconteceu então?

v.s.: quando iyengar e desikachar partiram, tentei tornar as coisas fáceis, encontrar uma via sem esforço.

y.j.: e qual foi essa via?

v.s.: a de fazer as coisas relaxando, sem esforço, com a onda, com movimento, com a respiração. tudo isto torna a prática do yoga muito agradável. permite atingir os mesmos pontos sem tensão, com "allegrezza", pelo que isso se tornou dominante na minha prática.

y.j.: poderia explicar melhor o conceito de "allegrezza"?

v.s.: o termo "allegrezza" traduz a ideia de coração inteligente. quando relaxados, não estamos escravos de ideias. tornamo-nos inteligentes e, ao mesmo tempo, felizes. as posturas saem melhor. no nosso sistema de educação, somos treinados para nos tornarmos em algo. tentamos tornar-nos alguma coisa. arranjamos exemplos e estes eliminam a possibilidade de ser, porque ao seguirmos um modelo tentamos copiá-lo. tudo isto é limitativo, afastando-nos da possibilidade de ser. quando somos, somos o que somos. não nos tornamos. somos. o tornar-se é como um escadaria, que procuramos subir, até chegarmos a um ideal criado pela sociedade. esta é a lógica dominante da educação.

y.j.: já a ouvi referir-se ao fenómeno de “encontrar a gravidade”. pode explicar melhor esta ideia?

v.s.: a gravidade faz parte da natureza. mantém o mundo agregado. estamos todos ligados através dela. estamos ligados à terra. a terra está ligada ao sol. quando estamos em pé, a força da gravidade exerce-se da cintura para baixo. sente-se. a terra puxa-nos para baixo. se estivermos relaxados e atentos ao corpo, podemos sentir esse fenómeno, deixando que ele seja sugado pela terra: é isso, a gravidade. ao mesmo tempo, a parte superior do corpo torna-se leve, aberta, consciente, relaxada.

y.j.: e como é que a gravidade se conjuga com a onda? pode falar-nos um pouco dessa "onda"?

v.s.: a onda está relacionada com a forma como a coluna se movimenta, desde os calcanhares até ao topo da cabeça, com a gravidade. deixamos o corpo afundar-se, afundar-se… e a parte superior torna-se leve. quanto mais nos afundamos mais a parte de cima do corpo ganha em leveza, criando-se uma onda bonita no corpo, que por sua vez se move com ela. a onda que se direcciona para o chão conduz a força da gravidade ao longo da coluna vertebral e a energia através do topo da cabeça. o corpo é atraído para baixo e da cintura para cima surge uma forma maravilhosa de sentir, agir e mexer. dá-nos uma sensação de autoridade, de liberdade, de beleza.

y.j.: o que sugeriria a uma pessoa com problemas na sua prática diária?

v.s.: evite ter uma atitude utilitária, seja no que for. ao fazê-lo, acaba com as coisas. se se entregar ao que estiver a fazer pelo simples prazer de estar ali, tudo resultará bem. eu pratico porque me é natural praticar. não há outra razão, o meu corpo pede-mo.

y.j.: ensinou durante muitos anos. pode falar-nos um pouco sobre o ensino?

v.s.: fui abençoada pelo facto de ter tido bons professores. ensinar é o trabalho mais elevado que alguém pode realizar na vida. ao ensinarmos, estamos a ajudar as outras pessoas. o professor deve ensinar-nos a entendermo-nos melhor e nós próprios devemos fazer o mesmo. todavia, se o corpo ou a mente não aceitarem, teremos que ver porquê, dar um espaço e regressar à questão de uma forma diferente. começamos e terminamos em liberdade. eu queria ensinar mas o objectivo não era meu. queria dá-lo aos outros. vi muitas pessoas a lutarem e a magoarem-se. é como ver uma criança a caír. podemos ajudar a criança a levantar-se do chão. queria dar isso aos outros, tal como quando temos uma coisa bonita e não queremos escondê-la, ou conservá-la apenas nas nossas mãos, mas partilhá-la. fui impelida no sentido de ajudar e, para tanto, desenvolvi a minha atenção. ela aumentou mais e mais, e ao ensinar descobri muitas coisas, apenas olhando para mim própria.

y.j.: o que é que descobriu?

v.s.: ah! saúde, compreensão, criatividade, sobretudo amor. quando estamos abertos, o amor surge. só quando estamos defensivos ou com medo é que as portas se fecham. quando estamos abertos conseguimos comunicar com a pessoa ao nosso lado, com a natureza, com o mundo, somos um com tudo o que nos rodeia. não precisamos de "fazer", as coisas surgem.

y.j.: como é que o yoga combina o corpo e a mente?

v.s.: essa é a beleza do yoga. é o encontro do cérebro com o corpo. quando estamos atentos, concentrados, quando sentimos o que estamos a fazer, há energia. a junção de ambos torna-se energia. é importante compreender isto. quando ambos se encontram juntos há muita energia, que liberta o corpo e torna a mente mais maleável.

y.j.: qualquer pessoa pode fazer yoga, em qualquer idade?

v.s. não há idade para o yoga. pode-se começar aos setenta, oitenta… porque ele é feito de acordo com a gravidade, com a respiração, recebemos sem contrariar, e aí nunca prejudicamos o corpo. o primeiro ponto é não lutar contra si próprio. estar pronto para receber energia. a energia ajuda, a respiração ajuda, não há idade.

y.j.: nas suas posturas há tanto movimento que elas parecem diferentes das posturas "standard".

v.s.: o sentimento é mais interior, porque o movimento é dentro, o sentimento está dentro. é um sentimento de bem-estar que ocorre quando as posturas são feitas sem o objectivo de atingir seja o que for. nunca devemos ter na mente o que desejamos mas sim aquilo que o corpo pode aceitar.

y.j.: ao vê-la a fazer extensões da coluna, para trás, nota-se em si aquela onda que faz com que a extensão pareça cheia de movimento, muito mais livre.

v.s.: sim, é possível ver isso. o que demonstra que mesmo um movimento difícil pode ser um movimento de felicidade, de inacção, de prazer (ri-se). é como dançar, uma dança interior, a dança do corpo dentro de si próprio, cheio de mistério e aventura.

y.j.: a prática do yoga altera a forma de envelhecer, de sentir a idade?

v.s.: o yoga não pode mudar a idade, ela está lá. praticar yoga mantém o corpo com uma saúde melhor. não há velhice. as pessoas idosas defendem-se, frequentemente, e os outros ao seu redor tentam protegê-las, fazendo com que estas fiquem enfiadas numa concha. retiram-se da vida. usam cada vez menos a memória, os braços, as pernas, as faculdades que possuem. mas se elas estão lá, porque não usá-las? porquê pô-las de lado para as usar amanhã? é importante que saibamos não bater em retirada, não perder o contacto com as pessoas e com a vida, que nos dá tanto. não perdermos o contacto com a beleza, não nos pormos de lado. se há coisas de que gostamos, vamos fazê-las, vivê-las! se estamos vivos, vamos viver, dar a nossa energia, a nossa sabedoria, dar o que temos, fisicamente, mentalmente, emocionalmente. sem excesso. saudavelmente. numa palavra, ser simples. é tão saudável!


APLICAÇÃO DAS IDEIAS DE VANDA NA PRÁTICA

uma das qualidades maravilhosas do trabalho de vanda scaravelli é a simplicidade. os três princípios básicos, respiração, gravidade e onda, permanecem os mesmos ao longo da prática, seja qual for o nível desta. uma vez claramente compreendidos estes princípios, uma miríade de pormenores de alinhamento e acção correcta acontecem naturalmente. perguntas como: “o que devo fazer nesta postura?” dissolvem-se, à medida que os princípios se vão tornando mais e mais claros. “o que preciso de fazer para entrar nesta postura?” muda para “o que tenho de não fazer?”.

para integrar esta abordagem na sua prática, comece por posturas nas quais se sinta à vontade. leve o tempo que for necessário para encontrar essas conexões interiores de forma a tornar a sua prática fácil e agradável. demoramos algum tempo até conseguirmos libertar-nos da tensão, do esforço e da necessidade de atingir resultados. esta abordagem abre-nos a porta para descobrirmos, desabrocharmos e florescermos, como aconteceu com vanda. em qualquer momento em que se sinta confuso ou em luta numa postura, regresse à sua respiração, ao contacto do seu corpo com o chão, à sensação de estar a ser suportado pela terra, até que o seu corpo relaxe e a respiração se estabilize.

este princípio é verdadeiro mesmo em posturas geralmente consideradas exigentes e extenuantes. em última instância, em cada respiração restabelecemos a nossa conexão com a terra e a gravidade. com cada expiração deixe-se afundar no chão e em cada inspiração deixe-se abrir, receber, expandir.

tranquilo e centrado, tente encontrar o eixo da coluna. as posturas vão-se rectificando na medida em que o corpo se alinha em torno deste eixo. a coluna vertebral é o centro mecânico, neurológico e energético do corpo. ao encontrarmos a ligação com este ponto central, a tensão e o esforço esvaem-se da musculatura exterior, permitindo a fluidez necessária para ter a experiência da “onda” descrita por vanda. a libertação da coluna acontece num movimento ondulatório, quando a onda da respiração vai ao encontro da onda da coluna. podemos sentir este movimento com uma relativa facilidade em qualquer flexão à frente em que se nos torne possível relaxar e soltar. o movimento essencial da coluna com a respiração é o mesmo em todas as posturas, e uma vez que este movimento se torne claro numa postura podemos transferi-lo gradualmente para outras. depois de familiarizado com as posições, deixe os pormenores e concentre-se simplesmente no chão e no movimento da coluna vertebral enquanto respira.

qualquer acção ou movimento nas posturas acontece na inspiração, enquanto que a expiração permanece completamente passiva. isto significa que as posturas têm um ritmo interior ou pulsação de relaxamento e extensão. a libertação que surge com a respiração pode ser reforçada através da extensão activa. não criamos a libertação, ou a onda, mas podemos aprender a navegá-la, como no surf.

as instruções que se seguem servem como ajuda na aplicação dos três princípios - respiração, gravidade e onda - em algumas das posturas-chaves do yoga. as instruções estão feitas com base no pressuposto de que o aluno se encontra familiarizado com as posições e já as pratica.


SAVASANA
(Relaxamento Profundo)

comece por relaxar-se e render-se, numa disponibilidade para seguir o corpo e permitir que a sua sabedoria o guie. para ter esta experiência, comece por savasana.

deite-se. ouça a sua respiração. deixe caír o seu peso sobre o chão. lentamente, tome consciência do seu corpo, dos seus músculos e do seu estado de relaxamento. deixe que a onda da respiração, inspiração e expiração, passe através de si.

a experiência de savasana é uma linha de base para todas as posturas. com o tempo, tornar-se-á cada vez mais atento a qualquer tensão ou esforço desnecessários nas posturas, concentrando-se no som, textura e ritmo da sua respiração, e em qualquer tensão nos seus músculos. uma pergunta que pode colocar a si próprio sempre na sua prática é: “como posso realizar esta postura com menos esforço?”. a resposta é sempre a mesma: através do soltar, do desenrolar, do abandono de savasana.

em savasana, encontra-mo-nos completamente apoiados, através das costas. quanto mais soltamos, maior o sentimento de ser suportado.


APROFUNDAR A EXPIRAÇÃO

deitado em savasana, flicta os joelhos de forma a ficar com as plantas dos pés no chão. observe o contacto da parte de trás do peito com o chão. concentre a atenção na subida e descida do seu ventre ao respirar. gradualmente, aprofunde a respiração fazendo reentrar suavemente o abdómen na expiração, acompanhando o movimento natural correspondente. pratique o aprofundamento da expiração durante o período de tempo em que se sinta relaxado e confortável com ele e, depois, regresse à respiração normal.

este movimento do abdómen deve ser suave, amplo e fluido. não deve originar sensações de tensão ou contracção. os músculos abdominais massajam delicadamente os órgãos internos e esta massagem penetra gradualmente até à parte anterior da coluna, permitindo-lhe soltar-se e alongar-se.

o aprofundamento intencional da expiração liberta e alonga a coluna e suporta-a também, quando estamos de pé. utilize esta acção aprofundante em qualquer postura, no sentido de proporcionar um maior suporte à coluna, para intensificar a descompressão na postura ou para estimular a “onda” de libertação e alongamento da coluna.


TADASANA
(postura da montanha)

a força da gravidade é de tal forma parte integrante da nossa experiência que tendemos a tomá-la como um dado, ou a ir contra ela. porém, quando nos alinhamos com a gravidade, ela na verdade serve-nos de suporte. a conexão com a gravidade é tanto uma experiência, ou sensação, como a base para o conceito de alinhamento, que é essencial nas posturas. aprendemos a alinhar-nos com a gravidade a partir de dentro e de fora.

vanda utiliza metáforas frequentemente, para nos ajudar a ter a experiência da gravidade. ela desabrochou através da sua prática e, por isso, uma das suas metáforas favoritas é a imagem de uma planta. se fôssemos plantas, o nível do chão situar-se-ía ao nível da cintura, as nossas pernas seriam as raízes e a coluna vertebral e o tronco e a cabeça a flor, crescendo em direcção ascendente. a essência da experiência está no facto de sermos puxados para a terra, sem esforço ou acção da nossa parte. “não peça à flor para se forçar”, diz vanda, “o sol trá-la para cima e as raízes puxam-na para baixo. quanto mais profundas as raízes, mais alto vai a flor. através desta ligação à gravidade podemos ter a experiência do alongamento da coluna, que acontece junto com a onda da respiração.

encontrar o chão - a força da gravidade debaixo de nós - e a consciência de que as nossas pernas, pélvis e coluna são o nosso suporte, permite que a região superior do nosso corpo relaxe e se solte. começamos então a saber, ao nível celular, que os nossos ombros e parte superior do corpo não nos sustentam na vertical. esta consciencialização é frequentemente acompanhada por uma expiração prolongada e um suspiro de alívio quando os nossos ombros relaxam e a tensão desaparece. ao soltarem-se, os nossos corpos alongam-se naturalmente, visto que um músculo é mais comprido quando relaxado que quando tenso. quando o pescoço, ombros e parte superior do corpo relaxam, a cabeça solta-se, para cima, como a de uma tartaruga a saír da casca.

coloque-se com os pés afastados pela largura das ancas. sinta os calcanhares em contacto com o chão. deixe que a gravidade puxe os seus calcanhares para baixo. deixe descer a parte de trás da bacia. relaxe os braços, ombros e omoplatas. concentre a sua atenção no movimento do abdómen, enquanto respira. na expiração, pressione suavemente os músculos abdominais para dentro, para libertar e apoiar a parte de trás da cintura. procure sentir o apoio que este movimento dá à parte superior da coluna, alongando o pescoço e permitindo que a cabeça fique livre e leve.

para tornar a postura mais dinâmica pressione o chão com os calcanhares, afaste os joelhos dos calcanhares, na inspiração, e erga os braços acima da cabeça, com as palmas das mãos e os dedos juntos. suba e incline-se, numa ligeira flexão para trás. Relaxe e descomprima os joelhos na expiração.


SIRSASANA
(postura sobre a cabeça)

nas posturas invertidas o princípio permanece o mesmo, mas geralmente leva mais tempo a sentir-se o início da sua acção. na postura sobre a cabeça, a imagem da planta a florescer é invertida: os cotovelos transformam-se nas raízes, os antebraços na base e as plantas dos pés na flor. é um erro comum pensar-se que necessitamos de força para realizar a postura sobre a cabeça. quando estamos enraizados, alinhados e alongados nesta postura, ela torna-se leve, livre e faz-se sem esforço. comece por ajoelhar-se, colocando os braços na posição correcta para a postura. ao respirar, devemos concentrar-nos na força da gravidade, que nos puxa os cotovelos para o chão. quando os antebraços estão relaxados e estáveis e os cotovelos enraizados, os ombros abrem e expandem-se, as omoplatas sobem e o pescoço alonga-se. comece a levantar as pernas. expire profundamente, para alongar a coluna e procure afastar os ossos da bacia dos ombros. deixe que a ascensão do pélvis transporte as suas pernas para a postura sobre a cabeça. assegure-se de que os seus braços permanecem firmes e bem enraizados ao subir para a postura. nesta, continue a concentrar a sua atenção nos cotovelos, pressionando-os para baixo ao expirar. expire profundamente, de forma a trazer as costelas flutuantes para dentro e a abrir as axilas. a mesma expiração profunda ajuda a alongar a coluna e a afastar a bacia das costas. estique as pernas, sentindo-as a serem impulsionadas para cima pela onda da respiração. relaxe na expiração.

permaneça na postura enquanto se sentir confortável, depois desça, lentamente, continuando a alongar a coluna através da acção da respiração.


PASCHIMOTTANASANA
(flexão do tronco à frente, em posição sentada)

neste tipo de postura, os ossos nos quais nos apoiamos ao sentar tornam-se as raízes, ou o ancoradouro. a coluna e as pernas alongam-se a partir desses pontos. pode tornar-se difícil manter a atenção atrás e em baixo, quando tentamos descer para a frente. se já tiver facilidade nas flexões à frente poderá sentir o benefício de simplesmente se concentrar na respiração e deixar que o corpo se solte na postura.

sente-se no chão com as duas pernas esticadas à frente. agarre os pés, ou coloque as mãos sobre as pernas, onde possa chegar de forma confortável. concentre a sua atenção nos ossos por trás das nádegas, sobre os quais assenta o tronco, deixando que a parte posterior da bacia desça, na expiração. ao sentir o movimento da respiração a penetrar na parte de trás da cintura e do pélvis e depois pela parte de trás do ossos, no chão, sentirá, em simultâneo, uma descompressão dos músculos adjacentes e dos tendões da parte posterior das pernas, que lhe permitirá descer com mais facilidade.

permaneça na postura enquanto puder, continuando a respirar e a libertar, subindo numa inspiração.


ESTHER MYERS


traduzido de “yoga journal” (1995) por nuno cabral


vanda scaravelli morreu em 1999

aos 83 anos publicou um único livro, “awakening the spine” (harper&collins publ.) onde explicita mais detalhadamente o tipo de abordagem do yoga que praticou e desenvolveu ao longo de décadas. trata-se de uma obra única no género pela combinação harmoniosa de princípios técnicos fundamentais a qualquer prática inteligente com reflexões e imagens que, pela sua beleza e profundidade, transmitem uma visão criativa do yoga, simultaneamente pessoal e universalista.

07/02/2011

yoga tântrico de cachemira






(inspirado em baret, eric – “le yoga tantrique du cachemire”; tradução, adaptação e acréscimos livres por nc)

yoga – harmonização do organismo com as correntes profundas da existência

no sentido clássico, o yoga é a arte de morrer para si mesmo

sacrifício: oferecer o que não somos àquilo que somos realmente

“yoga é a arte de parar”

miguel fraile

a arte do yoga, na tradição shivaíta de cachemira consiste na arte de escutar. escutar as diferentes modificações psico-sensoriais no corpo nas diversas situações da vida quotidiana

da leitura de um livro não deve ficar mais que um “perfume” que podemos encontrar a cada actualização no momento. o objectivo último do livro/informação espiritual é a sua total dissolução

as referências “objectivas” do estudante foram estimuladas durante toda a sua vida: ele vê-se a si próprio desta ou daquela forma, a partir desta ou daquela referência, situa-se num “devir”, utiliza artifícios mentais como compensação de uma ausência profunda

na prática do yoga ele vai dar consigo numa situação, ou, mais precisamente, numa “não-situação” onde nada é estimulado. para tudo o que ele pretenda agarrar, irá sentir o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. cada vez que ele tentar compreender, a relatividade e a limitação do entendimento mental ser-lhe-á sugerida. em cada um dos seus esforços ele irá sentir duma forma cada vez mais clara que jamais a actividade pode conduzir à não-actividade. toda esta rede de segurança que o envolvia tende a desestruturar-se até ao ponto em que a motivação, o ardor de querer dar um passo em frente vai dissolver-se, não por vontade ou esforço mas como resultado de uma visão clara

estar aberto sem objectivar nenhuma direcção. com a actividade mental apaziguada ficamos abertos ao desconhecido. tornamo-nos então receptivos para um passo atrás que não realizamos, antes permitimos que se dê em nós

a abordagem corporal separada duma tradição (a palavra tradição no sentido daquilo que aponta para a verdade, espelhando-a) quando visa apenas a expressão de um corpo mais competitivo ou de uma mente com esta ou aquela qualidade mais proeminente é uma forma de sacrilégio. a abordagem corporal ou o trabalho psicológico têm valor apenas enquanto veículos para a colocação da estrutura do ser em estado receptivo para que este possa acolher o pressentimento daquilo que está além do físico e do mental. caso contrário dá-se uma contracção, uma redução

procurar a todo o custo, através de uma disciplina, ultrapassar todos os antagonismos do corpo e da mente é violência. só uma tomada de consciência sem volição pode verdadeiramente libertar uma tensão, não uma intervenção arbitrária baseada na intenção. a vida é sensorial. ela pode exprimir-se livremente logo que a ideia de ser uma pessoa, uma entidade autónoma, deixa de vir restringi-la, bloqueá-la. o pensamento é defesa. a sua utilização abusiva atenua-se grandemente com a eclosão da sensibilidade. a sombra não pode encontrar a luz. é a luz que ilumina a vida. a vontade de se elevar, por via do pensamento, até à origem do corpo e do mental é uma afronta, como a de um pintor que quisesse reproduzir exactamente a natureza substituindo-se a ela. a nossa receptividade torna possíveis todas as expressões, como celebração da nossa natureza profunda

a arte de celebrar a nossa verdadeira natureza através de uma atitude corporal ritual, asana, é muito pouco conhecida. o mais frequente no ocidente e mesmo na índia dos nossos dias é encontrarmos a prática das posturas reduzida a uma ginástica mais ou menos inteligente. tentamos impôr ao corpo um esquema exterior, arbitrário, pensando assim purificá-lo. esta atitude “liberal” que consiste em imaginar poder ir do “menos” no sentido do “mais”, não passa de violência, busca de segurança, permanecendo sempre no domínio da memória e do que já é conhecido. a arte de cachemira, inversamente, reconhece a anterioridade do arquétipo sobre o corpo. não se trata, portanto, de manter esta ou aquela postura numa dimensão relativa mas sim de tomar consciência de todas as limitações e bloqueios, da falta de sensibilidade que nos habita e mascara a nossa real corporalidade. cada postura abre uma porta sobre níveis de percepção mais agudos onde se torna possível pressentir claramente certas expressões subtis da consciência

assim, antes de abordar a postura clássica, passamos primeiro por múltiplas posturas intermédias que decompõem aquela. a criatividade do momento, canalizada através de gestos tradicionais, acarretará um “esvaziamento” profundo de todas as articulações, de todas as defesas, até que a transparência natural do corpo possa ser reencontrada

“evoquemos o espaço vazio no nosso próprio corpo, simultaneamentee em todas as direcções”

vijnana bhairava tantra

do ponto de vista desta transparência, o corpo subtil, corpo de energia livre do esquema corporal, pode então ser pressentido na sua glória. este corpo subtil, vibração receptiva, totalmente unificado com o ambiente circundante, vai antecipadamente, sem a participação do corpo físico, assumir a postura pretendida. esta tomada da postura apenas pelo corpo vibratório é uma arte de grande subtileza e exige uma total abdicação de toda a intenção de “fazer”. muitas “idas e vindas” serão provavelmente necessárias para consumir a memória das diferentes defesas associadas a este movimento. logo que a postura subtil começa a poder ser mantida com clareza, sem referência à corporalidade, aí então, e apenas aí, o corpo físico, envolto nessa vibração desperta, poderá “deslizar” para a postura. a corporalidade, livre de reacção, poderá assim, imersa no arquétipo, abrir-se multidimensionalmente. o corpo, nas suas modalidades física e subtil, tornar-se-á então oferenda à nossa verdadeira natureza

“o corpo, nas suas formas subtil e grosseira, que todos os seres consagram como “sujeito”, é a oblação que o grande yogi realiza no fogo da consciência”

kshemaraja, shivasutravimarshini

a postura desenha-se, portanto, num corpo completamente vazio, vago, disponível. cada postura tem o seu tempo próprio, necessário à sua realização. importa sublinhar a importância de, quando o corpo se encontra preparado para tanto, permanecer o tempo suficiente nas posturas para que os aspectos tamásicos, rajásicos e mesmo sátvicos se reabsorvam na escuta profunda

o corpo não está no exterior. ele é consciência. importa que não nos limitemos ao corpo. a fisicalização é expressão do plano de fundo da consciência. daí deriva a importância da atenção à sensorialidade, como primeiro passo. como via para o pressentimento daquilo que ela mesma oculta.

há apenas uma verdadeira “crise” (de tomada de consciência espiritual): quando nos damos conta de que tudo o que fazemos, tudo o que pensamos provém da nossa memória, que tudo o que encontramos é passado, que não conseguimos ter o mínimo pensamento criativo. experimentamos então o pressentimento profundo de que aquilo que procuramos não está na situação, não está na percepção. constatamos que a única coisa que podemos fazer é olhar em frente. tudo o que pensamos está à nossa frente. tudo que podemos realizar está à nossa frente e no entanto apercebemo-nos de que conseguimos unicamente projectar o conhecido, a memória. o novo, a liberdade, não pode estar na projecção. a crise emerge da evidência de que não conseguimos pensar senão o velho apesar de ser o novo que procuramos. damo-nos conta de que toda a nossa vida, todas as nossas acções, são empreendidas constantemente na tentativa de encontrar esse novo, de encontrar o “não desejo”, mas na verdade apenas conseguimos repetir os esquemas que reproduzem os erros passados. o nosso questionamento não consegue ir mais além. o pensamento não possui, por definição, os elementos para atingir o não-pensamento. a experiência desse momento na vida é verdadeiramente uma crise, um choque. começamos a ver claramente aonde não queremos ir. não sabemos onde queremos ir mas vemos de uma forma cada vez mais clara onde não se encontra aquilo que procuramos. é um choque profundo.

quando encontramos uma arte tradicional, acontece uma transposição para outros domínios da vida. essa transposição não se ensina. ela é aparentável à inteligência que vai pouco a pouco imiscuir-se em todas as actividades. a arte do shivaísmo de cachemira é a arte de escutar, que se transpõe virtualmente sem limites. este processo pode levar algum tempo, visto que existem por vezes nós muito profundos no corpo e no psiquismo. os nós superficiais, periféricos, apagam-se rapidamente. os nós mais marcados poderão manter uma certa opacidade durante bastante tempo, até que se manifeste um verdadeiro pressentimento

no entanto, o despertar, a expansão, a reabsorção de elementos subtis, não são etapas duma qualquer progressão mas modalidades livres da consciência una e eterna

“na sua realidade, a consciência, samvit, é vibração, spanda. essa vibração contém em si movimento de alguma ordem. se se tratasse duma progressão da sua própria essência para outra coisa, essa vibração não seria mais que um simples movimento e não acrescentaríamos “de alguma ordem”. mas se, pelo contrário, essa vibração não fosse um movimento, ela não existiria. chamamos portanto vibração a essa dinâmica da própria essência, processo desprovido de qualquer noção de progressão, idêntico ao encantamento”

abhinavagupta, paratrimshikavivarana

(ideia de onda e partícula na física sub-atómica)

tudo é energia: actividades físicas e mentais. ou estas energias são dirigidas para o mundo exterior da temporalidade ou a sua maturação acarreta uma reorquestração profunda. esta orientação não se processa como nos yama e niyama (regras e abstinências) da índia mas como consequência de termos visto claramente que aquilo que procuramos não se encontra no mundo fenomenal

tomar notas durante uma sessão acentua a conceptualização, suprimindo a possibilidade de entrar em contacto com o que está por trás. não faremos então mais que repetir conceitos, elementos técnicos fixos. contrariamente, se nos deixarmos transportar pelo instante, toda a memória se dissipa e reencontramos, durante a prática, o perfume da nossa abertura. aquilo que é esquecido devia sê-lo e nessa não memorização da técnica a intuição faz-nos descobrir possibilidades bem além daquilo que foi ensinado. o objectivo, se assim se pode dizer, é a escuta e não o que vamos encontrar nessa escuta. a sessão de yoga impôe-se, inesperada, como celebração da nossa abertura

descoberta dos elementos sólidos, líquidos, gasosos no corpo. abrir-se, igualmente, aos antecedentes do corpo, permitir que se actualizem o passado mineral, vegetal, animal. numa atenção não implicada, as memórias não psicológicas vão emergir, de forma não conceptual mas sensorial. essas percepções vão-se revelar de uma riqueza insuspeitada, no respeitante à nossa vida esquemática quotidiana. pelo abandono e receptividade elas revelam o seu segredo, reabsorvendo-se no plano de fundo

o que nos importa finalmente não é a percepção mas aquilo para o que ela aponta: a consciência. a atenção corporal aos elementos grosseiros e subtis não é mais que um pretexto para o pressentimento da nossa verdadeira natureza

“o sistema ensina que atingimos o “sujeito último e verdadeiro” dirigindo a nossa investigação a uma impressão do azul, de prazer, etc. muito claramente manifesta |à consciência, até à fonte do conhecimento: o objectivo último de qualquer tomada de consciência específica é o repouso sobre a sua própria essência, o “eu” (“soi”, “self”). é a experiência do “eu” na sua liberdade.”

abhinavagupta, ishvarapratyabhijnavimarshini

o ponto de partida para um esvaziamento real é a aceitação sem restrições da sensação de não esvaziamento, das tensões. entregar-se totalmente à sensação que se apresenta, sem querer mudá-la. visualizar, memorizar ou projectar um corpo hipotético é um distanciamento. há que apenas sentir, constatar

(porém)

o corpo é defesa, encerramento: nunca pôr a tónica nas suas restrições. não procurar soltar o que quer que seja mas sublinhar a sensibilidade táctil á superfície da pele. mais cedo ou mais tarde essa sensibilidade irá tornar-se um formigueiro seguido de irradiação

uma postura abordada de forma correcta permite a dissolução de certos registos cerebrais. só uma grande disponibilidade e atenção conduz a essa libertação. inversamente, na prática com esforço, no sentido de tentar obter resultados, há o risco da repetição regular das mesmas tensões que acarreta a sensação do corpo denso e pesado pela manhã. é frequente projectarmos reacções que se gravam em nós durante o movimento. ainda antes de dar início ao gesto, certas regiões do corpo fixam-se por antecipação. é muito importante conseguirmos detectar este fenómeno em nós. captamos a sugestão de desenvolver esta ou aquela atitude e o próprio corpo tende a repetir as tensões memorizadas. a abordagem da postura por via de uma sensibilidade desperta, assegurando que a sensação e a substância mantêm a sua amplitude e vazio originais, permite que a postura seja nova a cada dia, sem repetição. a postura permanecerá o desconhecido que nós deixamos de impregnar com preconceito

ouvimos dizer que existe a possibilidade de um outro tipo de funcionamento psíquico para lá do que é estritamente baseado na memória. mas este não pode ser pensado, apenas podemos manter-nos disponíveis para ele

reconhecer a verdade torna possível uma escuta total. ter a convicção de que aquilo que fundamentalmente procuramos não se encontra na percepção em si, ou no objecto. a acalmia efectiva que daqui resulta permite uma utilização mais racional da corporalidade. uma abertura que não se projecta, deixa que o nosso organismo se torne verdadeiramente receptivo. sem nada a reivindicar ou defender, o corpo torna-se aquilo que sempre foi, abertura multidimensional. a prática das posturas e do pranayama destina-se, nada mais nada menos que a estimular essa receptividade

a verdadeira alegria/exaltação não deriva daquilo que é visto, ouvido ou percepcionado, mas da nossa receptividade ao ambiente

é fundamental encontrar em nós essa atitude de “ter as mãos vazias”

como na música, temos que aprender a escutar o corpo sem nada saber. ser completamente como uma criança que acabou de nascer. escutar o instante. não há nada a modificar. observamos apenas aquilo que se passa.

quando olhamos verdadeiramente, quando deixamos que uma percepção ocorra em total liberdade, ela própria conduz-nos à origem de todas as percepções, ao silêncio. a nota, o som, a palavra, são experiência directa do silêncio. o som não é exterior ao silêncio.

“utilizar palavras que irradiem silêncio. o silêncio que permite ouvir aquilo que não pode ser dito”

(nc)

qualquer arte tradicional aponta para o silêncio. para o verdadeiro músico, a música encontra-se entre as notas; a melodia do yogi está entre a expiração e a inspiração

"a pausa natural entre a expiração e a inspiração sintoniza-nos e remete-nos para o fundo de silêncio sobre o qual elas são acidentes. o dinamismo da acção inteligente combinado com o abandono, num corpo desperto e numa mente atenta, permitem-nos regressar à vastidão do espaço vazio, pura potência, em que estes acontecem"

(nc)

na leitura de um texto como o “vijnana bhairava” acontece por vezes após uma frase, ou uma estrofe particularmente bela, uma sensação de saciedade acompanhada de uma vibração, instante fecundo que lembra o espaço entre a expiração e a inspiração. este texto é inspirado pelo “plano de fundo”. apesar da sua antiguidade, não foi grandemente manipulado e transporta ainda um perfume das suas origens. não se trata de um texto a estudar com o objectivo de dele retirar informações ou conclusões. devemos procurar abordá-lo como a um poema, sem razões ou metas. uma estrofe habitada pela evidência é mágica. se não colocarmos a tónica no sentido ou na beleza formais, mas mais no seu sabor, ele evoca a nossa liberdade. na sua reassimilação consciente inscreve-se a reminiscência do silêncio que o engendrou, silêncio que podemos reviver por identificação. um texto “em segunda mão”, pensado, mesmo quando de grande qualidade, não consegue dissolver-se assim. deixa-nos sempre numa estimulação, numa actividade mental, mesmo que purificada. mas se acolhermos essa vibração que fica após a reassimilação do que foi lido, ela dissemina-se por si própria seguindo as suas vias. após ter purificado a nossa cerebralidade reabsorver-se-á ela própria, no vosso olhar. ela é a porta para o silêncio

durante a meditação é possível sentir este movimento. pelo facto de deixarmos a percepção livre e de o desejo de agarrar não encontrar mais eco, sentimos o brilho, a acentuação e a reabsorção, por exemplo, perante uma questão ou dúvida

a questão não formulada transforma-se em oferenda à nossa verdadeira natureza. uma questão conceptualizada e expressa é sempre, de alguma maneira, uma fuga à nossa intimidade. a verdadeira questão surge da resposta, que pré-existe em nós, e a sua resolução deriva da nossa abertura a que ela seja reassimilada. colocar uma questão indica que já possuímos a intuição da resposta

quando afirmamos: “o meu corpo está preso, condicionado!” tal significa que existe em nós já um perfume do incondicionado o qual, num “contraste figura-fundo” nos permite percepcionar o condicionamento. para a tradição de cachemira, condicionamento e incondicionamento são designados poeticamente como o “jogo de deus” (leela), que se perde e reencontra. a percepção aponta para o que está por trás da percepção. mais tarde ou mais cedo, tomamos consciência que a nossa vida aparentemente separada do todo é uma expressão da liberdade desse mesmo todo e dela indissociável

“a nossa natureza conhece-se a ela própria por ela própria. é ela que, na sua unidade essencial, através de perguntas e respostas, é contemplada como “eu”. essa natureza de ser cria o encantamento que se exprime sob a forma de perguntas e respostas”

abhinavagupta, paratrimshikavivarana

quando entendemos de onde provém a necessidade de compreender, dá-se uma clarificação. querer compreender é restringir o ilimitado às nossas próprias limitações. é um refúgio que nos faz permanecer sempre no quadro daquilo que é conhecido. não podemos compreender o desconhecido, o novo. a acumulação de um saber, de noções sobre uma tradição, provém do medo e mantém-nos sempre na insegurança. é fundamental darmo-nos conta de que o essencial nunca pode ser compreendido

quanto mais aprofundamos a prática do pranayama mais podemos sentir o imenso espaço do não conceptual. apercebemo-nos então que todo o impulso no sentido de querer apreender a nossa vivência dum ponto de vista conceptual não faz mais que entravá-la

importa ver claramente que aquilo que verdadeiramente procuramos não reside num estado. toda a actividade física ou mental é referenciada a um estado, a uma situação. esta expressão de energia acontece diante de nós. o que é que acontece quando nos apercebemos que qualquer actividade só pode orientar-se para o futuro?

queremos ver a verdade como quem quer ver um elefante côr de rosa. qualquer movimento, qualquer direcção só pode afastar-nos dele (como o animal que tenta alcançar a sua própria cauda). aquilo que procuramos está por trás de nós e não pode ser visto, encontrado, compreendido, pensado

“what you are looking for is what is looking"

wei wu wei

este pressentimento concretiza-se naturalmente em nós. se resisitirmos à mania de querer exprimir as nossas interrogações e vivermos a ausência de resposta, as questões não formuladas remetem-nos para a sua origem. a origem da questão é a resposta

a memória pessoal é um instrumento de defesa. recapitular o passado, projectar o futuro, derivam do medo, da recusa da entrega ao instante

todas as actividades conscientes ou inconscientes do nosso organismo tendem a criar uma pseudo-segurança. quando este facto é claramente discernido, a memória torna-se funcional, não psicológica

o passado e o futuro aparecem no instante presente, eles (só) existem aqui e agora. nessa abertura, a evidência de que qualquer situação é insegurança permite a actualização do pressentimento do “último”. a sua consciencialização, liberta de toda a pretensão de ser isto ou aquilo, provém directamente da interrogação profunda, do “quem sou eu?” não tanto enquanto questão formulada mas como intensidade multidimensional

é essa interrogação, sem questionador nem questão, livre de toda e qualquer formulação, que interpela o nosso ser, libertando-o do mundo fenomenal. os acontecimentos surgem segundo leis próprias e sentimo-nos cada vez mais no mundo mas não deste mundo. essa situação de autonomia clarifica as múltiplas situações de vida. como numa grande angular, o objecto é visto claramente mas ao mesmo tempo muito distante. quanto mais essa autonomia afectiva se vai aprofundando, mais é possível sentir uma adequada concretização do nosso potencial. as nossas particularidades, as nossas qualidades intrínsecas, bloqueadas pelas escolhas e opiniões pessoais, libertam-se progressivamente e encontram a sua perfeita e harmoniosa expressão nos ritmos do universo. o nosso corpo, o nosso psiquismo, fundem-se no ambiente sem que nada reste que possam chamar “eu”. aí, os nossos pés, mãos, fígado, cérebro, tal como o nosso capital afectivo e intelectual não têm nada de “pessoal”. as expressões do corpo e do psiquismo, apreendidas a partir desse espaço livre aparecem como celebração da nossa liberdade fundamental, a qual, não obscurecida pela agitação do eu, vai permitir aclarar-lhe as particularidades. a nossa real individualidade pode enfim revelar-se, única entre todas, livre de escolhas, servidora do “último”

o “prana” é um com a consciência. é o primeiro reflexo da consciência. o corpo não é mais que uma concretização do sopro. um grande mestre de cachemira disse um dia que “o corpo é um sopro do si mesmo (self)”. a ideia não podia ser melhor expressa

antes da criação do corpo há centros energéticos em actividade cujas ramificações se vão densificar e concretizar, tornando-se naquilo a que chamamos “corpo”. no regresso duma postura, habitada pela forma e vibração certas, permitimos que os elementos posteriores a esses centros sejam reabsorvidos

cada centro reabsorve as sonoridades e os ritmos que lhe correspondem até ao arquétipo, ao âmago da postura, que se refere directamente à consciência. a própria postura engendra esse processo de reintegração no qual todos os balbuciamentos da consciência no espaço-tempo têm a oportunidade de reencontrar a sua essência. a poesia indiana formula esta ideia afirmando que shiva criou o mundo adoptando posturas, arquétipos fundamentais subjacentes a todas as espécies. ao deixarmos que a postura se recolha à sua origem arquetípica, entramos em comunhão com o seu criador, shiva, a consciência

obviamente que sob um ponto de vista metafísico esta ideia não tem qualquer sentido. não podemos reintegrar aquilo que nunca abandonámos, mas se pressentimos a energia como expressão da consciência, dá-se uma aparente emissão e uma aparente reabsorção

ao nível subtil, um objecto não é mais que energia apontando para a sua reabsorção. a consciência está para lá da energia, que não é mais que um acidente.

“embora afirmemos que a consciência é necessariamente distinta do sopro, do corpo, da inteligência, na realidade não o é. a consciência permanece entretecida naqueles, sem a qual eles não existiriam. o divino substancializador nunca é atingido pela diferenciação dos estados”

abhinavagupta, tantraloka

quando um objecto, uma situação, uma pessoa, funcionam em relação com o seu ambiente com base numa clara consciência da sua fonte, eles são movimento, fluidez, alimentados, sustentados pela constante tomada de consciência do plano de fundo

quando uma situação é isolada do seu contexto e não se referencia fielmente à sua origem, torna-se densa, limitada, não mais alimentada pela energia cósmica. ela perde a sua vitalidade, razão de ser, torna-se uma caricatura. o conflito resulta apenas dessa separação. a ideia duma entidade separada cria esse isolamento. em vez de ser alimentada pelo universo inteiro, ela é sustentada por energias limitadas, por referências ou projecções. quando permitimos uma expressão plena e total deixamos o nosso ponto de vista fragmentado. aquilo que nos parecia um conflito é, visto na sua totalidade, não conflitual

a abordagem tântrica consiste na realização no mundo fenomenal do pressentimento daquilo que não é fenomenal. trata-se de um pressentimento profundo que pode traduzir-se em todas as expressões, sejam corporais ou mentais. na sua autenticidade ele influencia a maneira de respirar, de dormir, a maneira como entramos e saímos do estado de vigília e de sono profundo. ele clarifica o espaço entre dois pensamentos, entre duas percepções, a forma como nos alimentamos, a nossa maneira de viver. em suma, todas as expressões da vida se referem ao tantrismo

celebrar em nós a criação do mundo e a sua reabsorção onde estamos, numa atenção liberta de qualquer finalidade. o pranayama não visa nenhum resultado. ele é unicamente uma celebração

deixar a sensação nas narinas tornar-se vasta, imensa, como se aspirássemos o ar trinta centímetros à frente do nariz e o expulsássemos a partir da mesma distância por trás da nuca. sentir a abertura e acalmia dos orifícios. se não forçarmos o ritmo natural, constataremos que as narinas não se dilatam na inspiração nem na expiração. o aspecto “animal” da respiração vai-se atenuando e tornamo-nos conscientes das correntes de energia

importa darmo-nos conta do sentido sagrado do pranayama. entregar-nos à expiração sem a empurrar… ir com ela. sentir que esvaziamos o corpo das suas obstruções. é o conhecido, a memória, que eliminamos. permitir que o repouso subsequente consista numa verdadeiro abandono/entrega. sem nos precipitarmos para a inspiração, darmo-nos a essa pausa. a inspiração surge naturalmente, sem necessidade. os diferentes tempos aparecem, numa atenção receptiva, como os ritmos cósmicos que fazem e desfazem os mundos. o sopro sacraliza o corpo. sem pressa! a aprendizagem do pranayama é gratuita. não esperar nada! ser apenas escuta. descobrir a nossa própria sensibilidade, natural. esta arte, esta subtileza, tal como é ensinada em cachemira, é ilimitada. alguns elementos aqui sugeridos não são mais que um fragmento. iremos aprender muitos outros. um dia todos esses fragmentos se reunirão, sem esforço. a riqueza da criação é infinita e todos os seus aspectos são sustentados pela energia, pelo sopro, pelo prana. há que descobri-la!

“a inspiração abre acesso à pura consciência, a retenção mantém o estado de pura consciência, a expiração dissolve a diversidade”

abhinavagupta, tantraloka


num pranayama bem executado, o diafragma é mobilizado simultaneamente com grande doçura e rigor

num movimento consciente, procuramos ao máximo dissociar a actividade muscular organicamente necessária daquela que decorre de compensações que se colam à volta, por falta de sensibilidade

tornar o movimento do diafragma independente do dos músculos abdominais (atitude abdominal como a da mão que segura um pássaro bébé)

ficar sempre aquém do limite de capacidade da caixa toráxica e de retenção (sem esforço, fadiga, stress interno)

desta forma, quando a inspiração termina, acontece uma sensação de repouso. sentimo-nos como sentados num sofá confortável. devemos entregar-nos a esse repouso. na verdade, nada é retido (nem ar). deste repouso extravasará uma irradiação, um calor, que se distribuirá por todo o corpo, depois, eventualmente, por regiões específicas. quando a expiração sobrevém, partimos dessa disseminação prolongando-a além dos limites do próprio corpo, envolvendo todo o espaço circundante

na índia colocamos uma vela acesa à frente das narinas procurando manter a mesma inclinação da chama durante toda a expiração

visualizamos uma ânfora grande a três metros à frente, atrás, à esquerda e direita de nós e respiramos como se a cada vez a enchêssemos e esvaziássemos de ar

a própria verticalidade é resultado de uma entrega e desprendimento. há que não tentar fabricá-la, de uma forma “vitoriana”. por fim, esquecer a postura! não ser mais que escuta, olhar sem intenção

as mãos, os pés e a boca são, juntamente com os órgãos dos sentidos, as zonas onde a “preensividade”, o “querer agarrar”, se encontram mais infiltrados. o esvaziamento profundo das mãos pés e boca conduz a um grau profundo de vácuo, que se repercute na totalidade do corpo. pode ser a fonte de um descondicionamento no nosso organismo

é essencial que a tónica não seja posta na percepção mas no espaço onde a percepção ocorre. o esclarecimento das diferentes facetas da existência, nesse espaço que não é mais que pura escuta permitirá uma orientação correcta. o trabalho corporal é uma das múltiplas expressões possíveis desse olhar livre. através dele podemos aperceber-nos da constante reactividade em que vivemos. por via duma grande sensibilidade corporal. apercebemo-nos imediatamente da nossa reacção, da nossa defesa. dá-se uma deslocação de energia. em vez de nos situarmos na reacção, situamo-nos no espaço. a reacção, vista e aceite como tal, afunda-se por falta de combustível, numa escuta livre de expectativas

o condicionamento orgânico não é um problema. que o nosso corpo tenha dois braços e duas pernas em vez de cauda ou barbatanas é uma questão puramente funcional. tudo isto está gravado nos nossos cérebros antigos. o corpo e o psiquismo não são mais que limitações. as funções mentais dependem a cem por cento da nossa sensorialidade e são restringidas pela limitação das nossas percepções. é por isso que uma abordagem progressiva é vã: o que é limitado não pode apreender o ilimitado. a limitação é um objecto. sentimos o corpo, em pé, sentado, deitado, sobre a cabeça, etc. mas nós mesmos somos sempre presença.

esta “presença” recorrentemente referida ao longo deste texto como o “plano de fundo” (“arrière-plan”) não sendo nomeável (tal como a noção de “tao” não o é) pode ser “apontada” como aquilo que jamais esquecemos e que tão pouco podemos “pensar” (no sentido de captar conceptualmente). tudo o que podemos esquecer não é o “plano de fundo”. há algo em nós que nunca podemos esquecer nem agarrar. mais íntimo que o nosso bater do coração. no sufismo diz-se que nos é mais próximo que a nossa veia jugular

a compreensão intelectual, o sentimento de paz interior ou de plenitude derivam desse plano de fundo, não conduzem a ele

um diálogo fecundo permite percepção de que a vida em todas as suas manifestações se refere ao que está por trás da vida e que esse plano de fundo somos nós, numa noção de identidade, se assim lhe podemos chamar, ilimitada e não condicionada pela auto-conceptualização do “eu”

neste sentido a prática do yoga é um acto de celebração e gratidão: oferecemos o nosso corpo, respiração, sentimento e pensamento à sua origem, como forma de agradecimento pela consciência da possibilidade de nos exprimirmos fenomenalmente

a natureza do corpo é sensibilidade. todo o corpo, os órgãos, os músculos, os ossos, tecidos, são sensibilidade: eles podem ser habitados conscientemente. se não os sentimos é porque há restrição. então, interrogamos em nós a restrição. não há nada a fazer para sentir. é muito importante compreendermos que se nos sentamos para sentir o corpo não estamos na atitude adequada. é o corpo que nos visita. nós permanecemos sempre passivos. é a sensação que vem ao nosso encontro, nós nunca vamos na sua direcção. é a mão que nos visita na nossa escuta. é a escuta que escolhe apresentar-se à sua maneira. se quisermos impôr um esquema, dizemos “estou a sentir a mão e depois isto e aquilo…” mas entramos num processo muito superficial

o corpo habita a nossa abertura, não está no exterior

no sentido último da palavra, a energia (como consciência) é absolutamente não corporal. ela não é mensurável sequer pelos instrumentos da acupunctura ou outros

a visão do condicionamento é a liberdade. importa “virar a cabeça”, olhar para trás. quando deixamos de atender àquilo que não somos, fica apenas aquilo que somos. deixamos de pôr a tónica na percepção. permanece apenas o espaço onde a percepção se apresenta. quando olhamos em frente ficamos colados. é atrás, não à frente que há descoberta. olhamos sempre para a frente e assim apenas projectamos os nossos pensamentos, o passado

olhamos para trás porque o olhar genuíno é pura abertura. senão, olhar é violência. um verdadeiro olhar não olha. é o objecto que nos olha. quando vamos a um museu é o quadro que nos olha não o inverso. é igualmente possível olhar para um crocodilo mantendo, simultaneamente, o olhar na parte de trás da cabeça. não se trata sequer de uma vontade. no início, olhamos “por trás”. depois, deixa de ser necessária essa intencionalidade. um objecto pode exprimir-se. ele pode constituir-se como uma torrente, que entra em nós. para tanto, importa sentir uma enorme quietude nos olhos

o pranayama espiritual provém do silêncio e não comporta elaborações complexas sobre a inspiração, a retenção ou a expiração que no limite passam completamente a segundo plano. atendemos constantemente apenas ao silêncio após a expiração. quando este silêncio toma corpo dentro de nós, a própria inspiração o irradia e permanecemos nele

se houvesse um objectivo no yoga, seria o de aprender a pôr a tónica na não percepção. a percepção não é o que verdadeiramente interessa e o que captamos através dela tão pouco. essa não valorização permite que o espaço vazio entre as percepções se revele

não se trata, porém, de um estado. este pressentimento entre os estados é o que em sânscrito designamos como turya. quando ele se concretiza, o silêncio do não-pensamento permanece na própria actividade do pensamento. a não acção impregna a acção. chamamos-lhe "turyatitta".

11/11/2010

meditação

os apontamentos e considerações que se seguem, bem como as técnicas neles descritas, são resultantes da minha própria experiência, vão beber a tudo o que fui praticando e, por essa via, descobrindo em mim, aprendendo com outros, lendo e pesquisando ao longo de anos, não se baseiam em nenhuma obra em particular que vos possa sugerir como consulta

espero que vos sejam úteis e que neles encontrem algumas pistas que vos permitam “instalar”, se essa for a vossa intenção, uma prática de meditação regular e minimamente consistente

mas eles não pretendem constituir-se como referências para ninguém, não se filiam em nenhuma tradição específica nem há aqui qualquer intuito de “fazer escola ou apontar caminhos”

o meu conhecimento destas áreas (como, de resto, do próprio yoga) é diminuto, por muito que a minha postura ao transmiti-las possa sugerir segurança e convicção. na verdade, por opção (e por incapacidade) não me arrisco a grandes voos, pedagógicos ou de prática pessoal, o que me permite sentir-me tranquilo e intuir um mínimo de solidez no que me proponho. espero não estar a enganar-me ao afirmá-lo! - na verdade, não há dia em que não me extasie e interrogue perante o mistério de tudo isto e o pouco que sabemos (ou, pelo menos, o pouco que eu entendo) sobre estes meandros

nesse sentido, e em coerência com o que tem vindo a ser o meu próprio trajecto nestes meios, se alguma sugestão me permito deixar-vos é que passem o que nos apontamentos abaixo é proposto pelo crivo da vossa própria experiência, troquem informações, busquem outras referências e, se sentirem esse impulso, se construam (ou desconstruam...) nesta "via” com base na impressão soberana, mesmo que frágil e falível, da vossa individualidade


boa jornada!



meditação - indicações gerais


“if I could tell you what it meant there would be no point in dancing it”

isadora duncan


fantasia, razão, hora, local, posição, frequência, disposição, duração, continuidade, transição, consagração, despojamento



fantasia

começando do fim para o princípio, num sentido último, compenenetremo-nos, antes de mais (e sem por isso termos que ficar desanimados) de que a ideia ou intenção de “meditar”, como actividade, é pura ficção

na verdadeira acepção da palavra, “meditação” não é algo que possamos “fazer” ou, sequer, “atingir” de alguma forma, mas antes, algo que se realiza em nós, como reflexo da nossa natureza essencial, evidência a que acedemos, ou que se nos desvela, por abandono – inadvertidamente, aliás, e com muito mais frequência do que geralmente nos apercebemos

daí que, muitas escolas, mais do que o verbo “meditar”, prefiram e utilizem o termo “sentar”, na justa explicitação daquilo que de facto depende da nossa acção – num paralelo corriqueiro, é o mesmo que dizer que podemos deitar-nos na cama, criando um cenário propício para que o sono sobrevenha, mas não podemos “sonar”, tentando fabricá-lo

“esticando” o paralelismo, já agora, e porque somos os tais, tão falados, “animais de hábitos”: é provável que logremos dormir ao propiciarmos as condições para tal, mas nada nos garante que, ocasionalmente, não possam ocorrer insónias. da mesma forma, a rotina da meditação pode predispor-nos, por repetição, até mesmo do ponto de vista orgânico/neurológico, a esse estado, sem, contudo, garantir o seu surgimento, precisamente pelo facto de ele não depender da nossa vontade

no ocultismo considera-se que o máximo que o ser humano pode fazer, no plano tridimensional onde habita é “realizar o cálice”, o estado de receptividade plena

no mesmo sentido, falar de prática de meditação é falar, tão só, de disponibilização e entrega a algo que não depende da nossa acção, esforço ou capacidade, fenómeno absolutamente vertical e inclusivo mas que, num primeiro momento, visto como processo horizontal no tempo e no espaço, podemos então qualificar como subtractivo, não aditivo, do ponto de vista da acção individual

numa analogia simplista, o “estado meditativo” (expressão ela própria um tanto equívoca porque não se trata, verdadeiramente, de um “estado”, no sentido espácio-temporal, antes, sim, de um “não-estado”) pode ser comparado à tela em branco, pura potencialidade, que acolhe e possibilita todos os traços ou caracteres

o não-forma de onde brotam todas as formas, silêncio de fundo sobre o qual música e palavra adquirem sentido

prolongando o mesmo raciocínio, o não-estado meditativo, omnipresente e, portanto, integrante da própria presença do sujeito meditador e do hipotético objecto meditado, “engole-os”, no sentido em que “ali” apenas existe o espaço onde eles nascem e morrem, tal como o som se perde no silêncio, e todas as formas, cumprido o seu tempo, regressam ao vazio de onde brotaram – a forma é o vazio, o vazio é a forma, como se afirma no budismo

meditar seria, então, simplesmente, aquilo a que assistimos quando não está lá ninguém nem nada para ver, uma subtil e misteriosa “presença à ausência de nós próprios”, nas palavras de eric baret


razão

(mas então...) porquê meditar?

"everything we do is futile but we must do it anyway"

mahatma gandhi

dispor-se a praticar meditação pode considerar-se um exercício de humildade: aceitar o facto de se ser suficientemente instável e caótico por dentro para necessitar de alguns momentos em que a quietude possa ser semeada e consolidada

esse reconhecimento simples, quando autêntico e sentido, poderá ser o grande passo para a instalação de uma prática regular, quase, salvaguardadas as diferenças, como aquele que dá o alcoólico quando aceita que o é e decide recuperar-se

na verdade, se desde crianças recebemos, inadvertidamente, tantas achegas no sentido da dispersão e da agitação, faz sentido, mesmo que pareça artificial, num primeiro momento, que “treinemos” o oposto

tal não significa que o façamos de forma mecânica, utilitária e instrumental

como alguém dizia, “trata-se de servir uma arte, não de se servir de uma arte”

mesmo tomando como princípio, por um lado, que “meditar” seja um estado espontâneo, a nossa natureza de fundo, como tantas tradições afirmam, e por outro, que fazê-lo nos permita aceder a efeitos benéficos vários, essa disciplina pode ser vista como pura celebração do facto de estar vivo, exercício de gratidão festiva pela plenitude do ser

se me permitem a analogia, seguros do nosso amor por um filho, pai, amante, amigo, não deixamos de nos disponibilizar para momentos especiais com eles, que celebram, sem outra utilidade para lá do acto gratuito em si, esse sentimento

sabemos que não amamos apenas das dezoito às vinte, quando nos reservamos para brincar com o filho ou para estar com o amigo. da mesma forma, não meditamos apenas quando nos sentamos para o efeito. mas precisamos de momentos (e a sinceridade de reconhecê-lo pode ser ela própria transbordante e luminosa) que nos permitam confirmar – celebrando – que a escuta profunda e o amor estão lá, por muito que os tomemos como adquiridos

joseph campbell, autoridade mundial no âmbito do estudo das mitologias, afirmava precisamente que as narrativas mitológicas proporcionam a cada membro de cada povo/cultura/civilização a possibilidade da vivência de uma “autêntica experiência de estar vivo”

porém, talvez mais que alguma vez antes na história humana, pela autêntica “inflação” de estímulos que se oferecem à nossa atenção, hoje em dia tendemos, de forma extrema, a colocar a tónica da vitalidade das experiências no teor dos objectos das mesmas, sejam de que natureza forem, perdendo de vista o processo vivencial/sensorial que nos faz chegar a eles, numa espécie de “maquiavelismo perceptivo” em que os fins nos fazem perder os meios (quando, na verdade, é nestes que tudo se passa!)

a própria “obsessão colectiva” com a produtividade e com o sucesso vai no mesmo sentido: “não fazer nada” tornou-se, para muitas pessoas, o “pecado supremo”, ou uma virtual impossibilidade, e “parar para ver”, “inutilmente”, em meditação, um sério desafio a esta “cadência instalada” - até temos o velho ditado que associa a ociosidade aos vícios para legitimar a ideia! entretanto, as perdas de tempo sistemáticas em actividades estéreis e pouco gratificantes, de facto ociosas, são o contraponto directo (saída de emergência, em desespero de causa) desta propensão ao “engarrafamento” dos dias

neste sentido, meditar é voltar à fonte primordial do prazer e da plenitude, ao puro acto perceptivo, em que ele se basta a si próprio antes de atingir o objecto, permitindo, aí sim, uma vivência verdadeiramente livre e transbordante de todos os objectos e experiências, pela constatação da sua inutilidade última

pura escuta, sensorialidade integral, em que o aforismo de wei wu wei ganha todo o sentido : “what you are looking for is what is looking” 


hora

faça a experiência de diferentes momentos do dia para se sentar uns minutos, preferencialmente de manhã, antes de iniciar as suas actividades, quaisquer que elas sejam, ou à noite, antes de dormir ; no entanto, se a sua disponibilidade maior for, por exemplo, antes do almoço ou do jantar, não hesite, aproveite!


local

procure um espaço onde possa permanecer minimamente protegido de ruídos, interrupções ou outros factores de perturbação, mas evite a exigência de quietude e silêncio extremos como condições imprescindíveis. essa ideia torna-se facilmente dificultadora da sua assiduidade àquilo que se propôs (meditação com carácter regular) – experimente, de vez em quando, a título excepcional, meditar no autocarro ou no comboio, por exemplo, descondicione-se! 


posição

escolha uma postura confortável para se sentar (pode até ser numa cadeira, por pouco “zen” que pareça)

a posição sentada, desde que devidamente ajustada, permite-lhe manter um estado físico e mental tranquilamente desperto: procure assegurar a “neutralidade” da coluna vertebral pela preservação, sem esforço, das suas curvaturas naturais, utilizando, sempre que necessário, alguma altura debaixo das nádegas, e procurando, se se sentir cansado ou instável, o suporte de uma parede para as costas

há múltiplas formas de colocação das pernas, com diferentes objectivos e efeitos energéticos que não importa aqui descrever exaustivamente, escolha uma que o faça sentir-se confortável e que lhe permita “esquecer-se” delas ( e das costas) mesmo quando imóvel durante alguns minutos - é o melhor sintoma de uma boa colocação do corpo

pode experimentar deitar-se, se preferir, mas cuidado: a semelhança com a posição do sono facilmente deixa instalar-se uma qualidade de inércia e entorpecimento que prejudicam a concentração e a escuta

a colocação dos olhos (abertos, fechados, semi-cerrados) varia bastante, incluindo detalhes mais ou menos minuciosos, de acordo com as diferentes escolas e tradições

independentemente da forma que escolha para os colocar assuma como princípio, se ficar com os olhos fechados, a ideia de manter a sua atenção tão presente e desperta (não dispersa) como se eles estivessem abertos

inversamente, se optar por deixar os olhos abertos ou semi-cerrados, procure conservar as qualidades de quietude e interiorização que o recolhimento do olhar mais facilmente lhe permitiria

faça a experiência das duas possibilidades e decida a partir dela, podendo, também, ir alternando, conforme se sinta em cada dia: se estiver mais cansado ou com sono pode ser bom experimentar deixar os olhos semi-abertos para se manter acordado e presente, se estiver mais agitado e disperso talvez os olhos fechados se tornem mais funcionais

tanto quanto possível, nas técnicas de meditação em posição estática, procure manter a imobilidade, resistindo ao impulso neurológico do movimento como reacção instintiva de sobrevivência: o nosso sistema nervoso está programado para se assegurar da integridade e da própria existência simples do sistema psico-físico através do movimento, que nos permite, de forma directa, “confirmar que estamos vivos”

pela imobilidade intencional, cientes de nos termos sentado duma forma que não nos acarreta danos ao mantê-la, atravessamos uma “pequena morte” e ficamos menos reféns de impulsos biológicos básicos, permitimo-nos um “air bag” de tempo de reacção que nos proporciona maior liberdade de escolha, gradualmente extensível a outros domínios (mentais, emocionais)


duração

seja flexível com o tempo que dedica a esta actividade, sobretudo no início - não se proponha grandes objectivos (“vou meditar meia hora de manhã, meia hora à noite”) porque muito provavelmente vão-lhe sair furados rapidamente. muitas vezes são mesmo estratégias inconscientes de sabotagem da intenção inicial. será preferível começar com muito pouco tempo e ir aumentando gradualmente a duração

deixe que a meditação venha a si, como estado natural, plano de fundo que vai sendo gradualmente reconhecido e relembrado, em vez de a forçar a entrar, abruptamente, na sua vida

comece por experimentar períodos de cinco minutos, eventualmente de manhã e à noite, até para poder aperceber-se de qual dos horários será mais funcional ou harmonioso para si, de acordo com as suas rotinas, temperamento, biorritmo, etc

depois, pouco a pouco, vá aumentando, se lhe parecer viável, para dez minutos, quinze... se ficar pelos cinco minutos durante semanas, meses, anos, não os deprecie, valorize-os!


frequência

afirma-se, consensualmente, que a prática da meditação deve ser diária, mas se se sentir “sufocado” por essa ideia, mesmo tendo optado por períodos curtos, estabeleça uma rotina bi ou tri semanal, por exemplo, o que lhe pareça viável e aprazível, pelo menos numa fase inicial

evite uma atitude austera com o que deve ser uma dádiva a si próprio, gratificante e libertadora. imagine o que seria dedicar-se ao que quer que tenha para si como a actividade que mais gosta (sem ser a meditação) e, numa sensação de obrigação penosa, torná-la uma tarefa a promover à força!...

a perspectiva do sofrimento e/ou do castigo como vias supremas de aperfeiçoamento e purificação encontra-se profundamente enraizada na nossa cultura, mesmo em quem, à partida, não se define como religioso ou místico

acautelando essa propensão, observe se está a transformar a meditação numa penitência! – não se tornará, seguramente, uma melhor pessoa (seja lá isso o que for!) por se mortificar diariamente submetendo-se sem amor nem convicção a uma disciplina que lhe seja desagradável e sentida como absurda

daí a importância de dosear esta actividade (como todas...) de forma realista e permitir-se, sobretudo no início, ir ajustando ritmos e durações de acordo com a ressonância interna que sinta a partir da prática que vai desenvolvendo, até que a meditação se acomode na sua vida e encontre um “nicho” natural no seu quotidiano

procure, porém, cumprir rigorosamente o que se propuser e, ao mesmo tempo, seja tolerante (sem ser complacente) consigo próprio, condescendendo, tranquilamente, no tocante a falhas pontuais, sem se servir delas para desistir: alguma vez lhe cruzou o espírito deixar de vez de tomar banho ou nunca mais lavar os dentes só porque falhou um dia ou outro?!


disposição

evite usar argumentos para consigo próprio para romper a rotina que se propôs, como sejam: hoje estou muito cansado, hoje tenho a cabeça a mil, hoje não estou inspirado, hoje preciso de outra coisa... a escolha é sua mas não tenha dúvidas, quase sempre é tudo conversa, deixe-se de tretas e sente-se cinco minutos!

permita-se disfrutar do desafogo resultante de, por momentos, literalmente “esquecer-se de si e dos seus humores”, que não vêm ao caso: deixe que o acto da escuta seja mais importante do que quem procede a ele!


continuidade

“one does not become enlightened by imagining figures of light but by making darkness conscious”

"i'd rather be whole than good"


c. g. jung

fique alerta, desde o início, para o facto de que a serenidade, limpidez mental, quietude, que geralmente derivam da prática regular da meditação ou do yoga podem funcionar como uma faca de dois gumes: o despertar da sensibilidade, ao permitir uma ampliação do nosso espectro de consciência psíquica (como nas cores - no vermelho, por exemplo) se por um lado nos torna mais acessíveis “nuances” de prazer e bem estar que antes, por embotamento perceptivo, tínhamos dificuldade em experimentar (os ultra-violetas, simbolicamente) podem oferecer-nos simultaneamente, porque a agudeza se estabelece para os dois lados, imprevistos e não requeridos “tons” de dor e desconforto (infra-vermelhos simbólicos) como condição polar do nosso amadurecimento

numa analogia simplista (porque se trata de processos de natureza obviamente diferente) é um pouco o que se passa, a certa altura, nas psicoterapias (já para não dizer nas relações humanas em geral...) pelo confronto com “conteúdos”, memórias, sentimentos não esperados, quando as coisas “começam a aquecer”

estendendo o paralelismo, é nesses momentos criticos (que muitas vezes vão e vêm, ressurgem mais tarde, desaparecem de novo...) que é importante permanecer, assumir o compromisso, num exercicio de fidelidade (a nós próprios, antes de mais) valendo-nos de alguma firmeza e disciplina


transição

facilmente se instala em nós, no desenvolvimento destas práticas, uma atitude de fundo dissociativa em que o período da meditação tende a funcionar como um “oásis” momentâneo, findo o qual voltamos, algo “recauchutados”, à confusão e à postura de sobrevivência do dia a dia, fortalecendo inconscientemente estas últimas quando o intuito era supostamente inverso - um pouco naquela lógica folclórica do devoto que se presta à confissão para mais plenamente poder voltar ao pecado logo de seguida!

numa perspectiva mais integradora e unificante, permita-se uns instantes breves de transição para o exterior no final do período em que se propôs permanecer sentado. tanto quanto lhe for possível, desenvolva os primeiros gestos e actividades ainda no comprimento de onda anterior, como que impregnado de um perfume que tivesse permanecido em si. dessa forma evita que ocorra um corte brusco entre a “frequência psíquica” daquele pequeno período e o resto do dia (ou da noite) favorecendo, ao invés, que as “horas mundanas” vão ficando saudavelmente contaminadas pelas qualidades de alerta e quietude ali semeadas


consagração

se lhe fizer sentido e o ajudar a promover um estado interior de maior receptividade a este tipo de prática, pode consagrá-la, não necessariamente num sentido religioso ou místico sequer, dedicando-a a alguém em particular, ao mundo, ao que quer que lhe suscite esse impulso misto de dádiva e gratidão

num sentido último, afirma-se comummente que não existe sujeito contemplativo nem objecto contemplado, apenas o acto perceptivo

na "oferenda" simples da prática da meditação a algo que, de forma directa e primária, percepcionamos como exterior a nós, abrimos portas à dissolução do “sujeito meditador” permitindo que a arte suprema da escuta se exprima por nós, mais que pretendermos exprimir-nos por ela, “tornando-nos” no que quer que seja


despojamento

uma última nota, sobretudo para quem, por temperamento, tenda a “levar-se demasiado a sério” nestas ou noutras práticas, ou se aperceba de que começa a derivar (por vezes até, a colmatar) um qualquer sentido de identidade própria a partir do facto de se envolver nelas

não há nada de particularmente excepcional ou diferente em dedicarmo-nos a uma actividade deste tipo, não somos pessoas especiais, melhores nem piores que as outras por fazê-lo, nem nos distinguimos, mesmo nos melhores momentos da nossa prática desta “arte”, de quem, sem sequer ter algum dia ouvido o termo “meditar”, em várias alturas do dia, se entrega profundamente ao que faz - servir cafés, por exemplo - numa expressão involuntária de atenção e presença a que poderíamos chamar amor

nesse sentido, se se der conta de que começou a envergar a pomposa farda do “meditador”,ou do praticante de yoga, ou outras, nem precisa de a despir - aperceba-se só de que... o rei vai nu! ;-)



guião 1

papel de revelação fotográfica

numa lógica de “inversão figura/fundo”, mais do que dirigir a sua atenção a qualquer objecto, procure disponibilizar-se indiferenciadamente para todos os estímulos, numa percepção sensorial global, sobretudo táctil e auditiva, operando como antena parabólica, a trezentos e sessenta graus

qual papel de revelação fotográfica que, indiscriminadamente, recebe o que quer que nele incida, deixe-se captar tudo o que se ofereça à sua atenção sensorial ou psíquica: sons, sensações tácteis internas ou exteriores ao corpo, pensamentos, sentimentos

neste exercício simples, de pura disponibilidade, observe como implicitamente traz a tónica não ao que é percepcionado ou observado mas ao acto de observar ou contemplar, à escuta, no sentido lato do termo

esteja presente à sua atenção e ao que quer que a ela se ofereça, num primeiro esboço simples da interrogação de fundo que, de momento, nem necessita de ser formulada: “quem está presente a quê?”

simultaneamente, observe o possível apaziguamento sensorial/neurológico resultante do facto de permitir que a realidade (interna ou externa, não importa, são apenas palavras) o “visite” mais do que dirigir-se, do ponto de vista da atenção, onde quer que seja


guião 2

respiração

sentado de forma estável, faça inicialmente algumas respirações profundas e depois abandone a respiração ao seu fluxo natural

deixe a sua sensibilidade táctil e auditiva pousar sobre o ar que é respirado; se vir que o estratagema lhe facilita a concentração, acompanhe mentalmente o trajecto de uma partícula ou pequena porção de ar, desde as narinas até aos alvéolos profundos e daqueles novamente até ao exterior, numa pulsação constante

simultaneamente, vá-se apercebendo do ritmo respiratório que se foi instalando, tanto quanto possível evitando “fazer” o que quer que seja com ele, apenas observando

estenda a sua sensibilidade à percepção cutânea, muscular e articular do movimento da respiração, quer no contacto da superfície da caixa torácica com a roupa quer pelo reflexo táctil nas zonas adjacentes (braços, abdómen, cabeça...)

se se distrair, relembre a sua intenção inicial de permanecer presente, de se centrar na respiração, voltando à observação, tranquila e firmemente, uma e outra vez; mais do que encará-las como “ruído”, integre as distracções como pretextos e oportunidades de regresso ao “eixo” da atenção

mantenha a centragem da sua atenção na respiração como uma lente que focasse de forma nítida um objecto próximo numa fotografia contendo uma paisagem de fundo esbatida: dessa paisagem fazem parte todas as percepções simultâneas acessórias que se insinuam em paralelo, como sejam pensamentos, sentimentos, sensações, cheiros, ruídos, etc

deixe-os coabitar, desfocadamente, em “grande angular”, com o “grande plano” em que a sua lente perceptiva se situou, mantendo a prioridade na focagem inicial

a título adicional, se sentir que é sugestivo para si:

enquanto respira, relembre o processo de troca gasosa vital que se opera nos seus pulmões. depois, progressivamente, vá-se apercebendo, numa sensorialidade cada vez mais aguda, da dimensão prânica da respiração: observe o processo constante de alquimia que acontece no seu organismo em que este, qual “pedra filosofal”, vai transmutando a “matéria grossa” do ar em energia subtil que se distribui, de forma revitalizante e depurativa, por todo o corpo, à medida que inspira e expira

observe como a respiração se constitui em cada ser humano, desde o nascimento até à morte (desde a primeira inspiração até à última expiração) como “cordão umbilical” com o mundo, um ponto de contacto e nutrição permanentes

relembre que cada ser humano respira o mesmo ar, ele entra e sai dos pulmões das outras pessoas e seres vivos, num processo contínuo. observe essa conexão com a atmosfera e, através dela, com as outras formas de vida, com o mundo


guião 3

sensações (1)

depois de se ter instalado em posição sentada uns instantes, visualize o seu corpo como imerso num líquido, dentro de um enorme recipiente

à medida que esse recipiente se vai esvaziando, observe as sensações puramente cutâneas que começam a manifestar-se a partir do topo da cabeça, como se tivesse a sensibilidade da sua língua ou da polpa dos dedos das suas mãos por todo o corpo, começando por ali

como se procedesse a um “scanning”, apenas à superfície da pele, no contacto desta com o ar circundante ou com a roupa, vá acompanhando tactilmente a descida circular desse “nível” de líquido à medida que o recipiente imaginário se vai esvaziando: pela testa até às sobrancelhas, têmporas, nuca, zona superior das orelhas, depois toda a superfície da face, de cima para baixo, ao longo das orelhas, occipital, até ao início do pescoço, em todas as frentes deste, garganta, parte de cima dos ombros, clavículas, caixa torácica, omoplatas, ao longo dos braços, progressivamente por todo o resto do corpo até chegar aos pés

pode optar por terminar ali ou prosseguir, agora no sentido ascendente, com o mesmo processo

tendencialmente, para situar a percepção táctil pelo corpo, recorremos à visualização simples, como se estivéssemos fora dele. experimente, se lhe acontecer espontaneamente visualizar as zonas do corpo, fazê-lo a partir de dentro, como se não pudesse “ver” mentalmente cada uma mas apenas “sentir” pelo tacto, a partir do interior do invólucro opaco do corpo - como se, literalmente, “estivesse lá dentro”

observe as zonas “brancas” ou “neutras” em que é difícil pressentir qualquer tipo de sensação e repare, de dia para dia, como a percepção quer destas, quer das que lhe são mais sensíveis, se vai modificando, apercebendo-se sensorialmente da mutabilidade do corpo na sua aparente fixidez - como as dunas no deserto, sempre iguais, nunca as mesmas

como “plano de fundo” do enfoque mental desta técnica, se lhe for sugestivo, pense no exercício como autêntico processo de “incarnação”, ainda que, por agora, apenas à superfície do corpo – observe se é possível captar a sensação, por vezes fugaz, de “existir mais” do que antes, do ponto de vista estritamente corporal, mesmo que de forma vagamente etérea, menos substancial, grossa


guião 4

sensações (2)

seguindo as mesmas indicações do “guião 3” considere agora o seu corpo como um recipiente cheio até ao topo (cabeça) com um líquido denso cujo nível vai descendo - esvaziando - até à base (pés)

concentrado, desta vez, nas sensações internas, de qualquer natureza, vá acompanhando tactilmente, por dentro, essa linha de água invisível, à medida que ela vai baixando

chegando ao nível do chão, conforme o tempo que tenha disponível, poderá seguir o mesmo procedimento no sentido ascendente, depois voltar a “descer” e assim sucessivamente, num “scanning” contínuo, até terminar o período que se propôs permanecer sentado

da mesma forma que no guião 3:

observe as zonas “brancas” ou “neutras” em que é difícil pressentir qualquer tipo de sensação e repare, de dia para dia, como a percepção quer destas, quer das que lhe são mais sensíveis, se vai modificando, apercebendo-se sensorialmente da mutabilidade do corpo na sua aparente fixidez - como as dunas no deserto, sempre iguais, nunca as mesmas

como “plano de fundo” do enfoque mental desta técnica, se lhe for sugestivo, pense no exercício como autêntico processo de “incarnação”, agora nas zonas profundas do corpo – observe se é possível captar a sensação, por vezes fugaz, de “existir mais” do que antes, do ponto de vista estritamente corporal, mesmo que de forma vagamente etérea, menos substancial, grossa


guião 5

sensações (3)

integrando os procedimentos dos guiões 3 e 4, acompanhe, simultaneamente, as sensações tácteis internas e externas ao corpo, agora captando cada uma delas como simples luminescência (pense, por um instante, na disponibilidade e encantamento da criança que contempla uma árvore de natal)

observe que zonas do corpo se encontram mais “acesas”, mais presentes à sua percepção, e que zonas “brilham” menos

pode experimentar, desta vez, manter a sua atenção distribuída globalmente por todo o corpo ou, se sentir que se perde, seguir a lógica anterior de acompanhamento da linha de água imaginária, descendo e subindo ao longo do corpo

exercitando uma espécie de “comutabilidade sensorial” ouça, agora, cada uma das sensações tácteis e visuais/luminosas como se de sons se tratasse, escutando a melodia que emana do seu corpo

transitando de “sentido em sentido”, observe como a própria visão e audição são também tácteis, no sentido em que resultam do “con-tacto” de superfícies - pense, por um momento, nos seus tímpanos e retinas como se eles existissem em cada micro-ponto do seu corpo

por momentos observe também, ao invés, como sons e cores têm textura e podem ser captados pela sua pele

por fim, permita-se estender este percepção física subtil aproximadamente um metro além do ponto onde situa as suas fronteiras corporais habituais, em todas as direcções (à frente, atrás, acima, abaixo, esquerda, direita) observando a interpenetração do seu campo corporal com o das outras pessoas eventualmente presentes, com objectos, com o próprio chão, paredes, etc


guião 6

sensações (4)

regressando ao primeiro “itinerário”, volte a percorrer agora o corpo seguindo a linha de água imaginária, sintonizado mentalmente com a dimensão atómica/molecular do corpo, essencialmente feita de vazio

numa experiência de silêncio sensorial, observe se é possível sentir continuidade entre o espaço circundante (ar, chão...) e o seu corpo, como se as fronteiras deste último se dissolvessem num estado unitário de participação no todo

por momentos observe, de novo numa perspectiva sensorial mas mais subtil (não tão estritamente táctil ou auditiva) o ritmo e vibração da sua respiração enquanto experimenta essa continuidade entre espaço interno do corpo e espaço exterior como um mesmo espaço

observe (sem fabricar efeitos!) se é possível vivenciar a sensação de “ser respirado” – a pulsação da atmosfera a acontecer em si, o seu ser como “micro-alvéolo do mundo”


guião 7

pensamentos (1)

utilize esta técnica e a seguinte (guião 8) sempre que se sentir particularmente agitado, mentalmente frenético ou com a impressão de que outras formas de concentração (a das sensações, por exemplo) vão funcionar apenas como tentativas vãs de parar uma locomotiva! – ao permitir-se “dar algum assunto” à sua mente consegue, como um surfista que, em movimento, apanha melhor a onda, navegar os seus pensamentos fazendo surf com eles em vez de pretender parar o mar para se sentir calmo – (por vezes) ele é demasiado grande!

então, da mesma forma que nas técnicas anteriores concentrou a sua atenção nas sensações do corpo, agora permaneça atento a quaisquer pensamentos que aflorem à sua mente enquanto permanece sentado, imóvel, em silêncio

comece por se concentrar simplesmente na respiração, como ponto de referência e de regresso após cada divagação

sempre que identificar um pensamento, procure classificá-lo atribuindo-lhe uma categoria geral criada por si, como seja: remoer no passado, sonhar acordado, ajustar contas, fantasiar, planear a agenda, inquietar-me com o futuro, etc

feita a classificação, regresse à neutralidade observando novamente a respiração até que o pensamento seguinte se insinue

volte a classificar o novo pensamento e regresse à respiração, seguindo sempre esta alternância até ao final

depois de terminar, se quiser, como diagnóstico simples do seu estado mental, observe a “gama” dos pensamentos que observou e classificou, quais foram os dominantes ou eventualmente recorrentes e o que lhe dizem deste seu momento de vida


guião 8

pensamentos (2)

tendo por base, ainda, a observação dos pensamentos, desta vez deixe-se absorver inteiramente por cada um que for surgindo, como se quisesse deixar-se devorar por eles, verdadeiramente “consumir-se na chama” da intensidade com que eles se manifestarem

sem quaisquer restrições, regressos a pontos de concentração, orientações de atenção, deixe que a sua mente fique completamente refém de ideias, conjecturas, fantasias, raciocínios, o que quer que se lhe ofereça observar como espontaneamente surgido no ecrã da sua actividade cerebral

permaneça, contudo, no que se poderia chamar a “retaguarda da mente”, presente e atento ao “show”, como espectador passivo mas bem desperto

capte, por momentos, a sua consciência observante como sendo esse espectador, numa sala de cinema que seria o interior da sua caixa craniana, observando o filme (pensamentos) projectado no ecrã (a parte interior da sua testa) dessa sala imaginária

observe a possível sensação de espaço que se vai criando entre si e toda a gama de pensamentos que perpassam pela sua mente (por muito aliciante que seja a “intriga”)

se sentir que, por instantes, “perdeu o pé” e foi arrastado na actividade mental, confundindo-se com ela, volte a recuar, como se saísse do filme e regressasse à plateia

procure aperceber-se da efectiva substância ou insubstância, da realidade ou irrealidade objectiva dos pensamentos enquanto tais (não daquilo a que eles se referem)

compare de forma simples e directa, tangível, o teor/solidez dos pensamentos com o da sua consciência observante

regressando à imagem da sala de cinema, por momentos visualize a interrupção da projecção e o ecrã apenas branco, vazio

se ainda tiver tempo, observe que novos filmes se insinuam nesse ecrã, novamente disponível, e siga o mesmo processo

como forma de estender o estado contemplativo ao quotidiano, observe se ao longo do dia se “cola ao filme” da sua vida e exercite a mesma capacidade de recuo, como actor participante, genuíno, mas consciente e, por isso, mais livre, do “enredo” em que está inserido


guião 9

sons (1) – música

utilize esta variante quando sentir que, por agitação ou por simples disposição, outras técnicas mais silenciosas, em que o foco da atenção é mais ténue ou difuso, se tornam menos eficazes

escolha um estímulo sonoro preferencialmente repetitivo, mesmo que não regular, por forma a facilitar-lhe a concentração e a estabilização da atenção (ex: taças ou pratos tibetanos, piano ou guitarra muito suaves, até mesmo sons da natureza – se estiver no campo aproveite-os, não precisam de ser gravados!)

procure simplesmente escutar o som, de novo como “primeiro plano”, imagem nítida na fotografia, deixando todos os restantes estímulos, físicos ou mentais, auditivos ou outros, ficar em segundo plano, como paisagem de fundo

procure ouvir com todo o corpo, percepcionando a vibração do som quer na superfície da pele quer internamente, como se se tornasse um enorme “tímpano”, a ressonância sonora ecoando em si como na caixa de um instrumento de cordas

ainda nesta perspectiva de escuta global, dirija por momentos a sua atenção ao próprio acto de ouvir: onde é que termina o som e começa a audição? – observe a continuidade entre ambos, o carácter unitário da experiência


guião 10

sons (2) – audição de cinema

“if you develop an ear for sounds that are musical it is like developing an ego. you begin to refuse sounds that are not musical and that way cut yourself off from a good deal of experience”

john cage


para a prática desta técnica é conveniente – contrariamente ao habitual em todas as outras – que se encontre num ambiente minimamente movimentado e em que existam estímulos sonoros variados

opte por ela como alternativa quando vir que não consegue instalar-se num local mais tranquilo e que a prática de outras variantes fica muito dificultada

pode partir de dois enfoques básicos, alternativos ou simultâneos, para a aplicação desta modalidade:

adoptar, durante o período em que permanecer sentado, a forma de percepção do mundo de um cego, no sentido em que, longe de pretender situar-se distanciadamente em relação aos estímulos auditivos, deve procurar “lê-los” atentamente para que eles possam proporcionar-lhe a máxima informação possível sobre o ambiente que o rodeia

de forma semelhante, pensar que se encontra numa sala de cinema em que não pode visualizar o ecrã ou em que simplesmente o realizador do filme tenha optado por mantê-lo escuro enquanto a acção que se vai desenvolvendo apenas pode ser escutada.

deixe-se, literalmente, “fazer o seu filme” a partir de todos os estímulos auditivos que vai recebendo, permitindo que a hierarquia que se estabeleça entre eles, a partir da atenção prioritária ou secundária que a sua atenção espontaneamente lhes dê, funcione como a câmara do realizador que, igualmente, “dirigiria o seu olhar” a partir do dele

já agora, uma sugestão: se conhecer o filme “shirin” do iraniano abbas kiarostami, pode ser inspirador para esta técnica apenas lembrá-lo. se não tiver visto, aconselho-o vivamente, como aliás todos os deste realizador – assistir às obras dele é meditar! (“five” é outra obra de pura contemplação)


guião 11

“o que é isto?”

associando inicialmente esta técnica com a da concentração na respiração, cada vez que expirar pergunte, interiormente: “o que é isto?”

de forma circular, deixe que a interrogação fique como que a pairar, ao longo da expiração, prolongando-se à inspiração seguinte (como o som de um gongo que se fosse esbatendo) e quando voltar a expirar pergunte novamente: “o que é isto?”

evite colocar a pergunta de forma mecânica ou automática, como se de um mantra ou oração se tratasse – observe, antes, se se vai desenvolvendo em si uma impressão de perplexidade à medida que vai perguntando, repetidamente: “o que é isto?”

não se trata de uma investigação intelectual, o objectivo não é responder á pergunta, muito menos pela especulação ou pela lógica, nesse sentido não coloque a questão ao nível da caixa craniana, deixe que ela seja lançada a partir de cada ponto do seu corpo (por muito teórica ou forçada que esta ideia possa soar, num primeiro momento)

na verdade, a resposta não pode ser encontrada, nem sequer no silêncio ou no espaço vazio que são, ainda, conceitos - muito menos numa coisa, entidade ou designação

assim, desafogadamente, liberto de qualquer intencionalidade, sem solução nem salvação à vista, da cabeça aos pés, pergunte: “o que é isto?” – simplesmente porque não sabe!

se se distrair, volte continuamente à questão. deixe que ela se torne como o poste ao qual o barco fica amarrado por uma corda: da mesma forma que o poste impede o barco de partir à deriva, a questão mantém-no a si centrado, protegido de pensamentos, sentimentos, sons ou sensações que vão aflorando

a pergunta “o que é isto?” é um antídoto contra pensamentos distractivos, afiada como uma espada, nada pode permanecer muito tempo no fio da sua lâmina silenciante

ao colocar esta questão, profundamente, está a abrir-se à experiência da totalidade do seu ser, num misto possível de fascínio, estranheza e temor perante o contacto com o leito onde o oceano da sua vida tem lugar


guião 12

“o que é eu?”, “quem é eu?”, “quem sou eu?”

associando inicialmente esta técnica com a da concentração na respiração, cada vez que expirar pergunte interiormente: “quem sou eu?”

de forma circular, deixe que a interrogação fique como que a pairar, ao longo da expiração, prolongando-se à inspiração seguinte (como o som de um gongo que se fosse esbatendo) e quando voltar a expirar, pergunte novamente: “quem sou eu?”

evite colocar a pergunta de forma mecânica ou automática, como se de um mantra ou oração se tratasse – observe, antes, se se vai desenvolvendo em si uma sensação de perplexidade à medida que vai perguntando, repetidamente: “quem sou eu?”

não se trata de uma investigação intelectual, o objectivo não é responder á pergunta, muito menos pela especulação ou pela lógica, nesse sentido não coloque a questão ao nível da caixa craniana, deixe que ela seja lançada a partir de cada ponto do seu corpo (por muito teórica ou forçada que esta ideia possa soar, num primeiro momento)

na verdade, a resposta não pode ser encontrada, nem sequer no silêncio ou no espaço vazio que são, ainda, conceitos - muito menos numa coisa, entidade ou designação

assim, desafogadamente, liberto de qualquer intencionalidade, sem solução nem salvação à vista, da cabeça aos pés, pergunte: “quem sou eu?” – simplesmente porque não sabe!

se se distrair volte continuamente à questão. deixe que ela se torne como o poste ao qual o barco fica amarrado por uma corda. da mesma forma que o poste impede o barco de partir à deriva, a questão mantém-no a si centrado, protegido de pensamentos, sentimentos, sons ou sensações que vão aflorando

a pergunta “quem sou eu?” é um antídoto contra pensamentos distractivos, afiada como uma espada, nada pode permanecer muito tempo no fio da sua lâmina silenciante

ao colocar esta questão, profundamente, está a abrir-se à experiência da totalidade do seu ser, num misto possível de fascínio, estranheza e temor perante o contacto com o leito onde o oceano da sua vida tem lugar, num refluxo de consciência àquilo de que verdadeiramente falamos quando dizemos “eu”


guião 13

morte

"the meaning of life is that it stops"

franz kafka

evite esta forma de meditação se a experiência da morte de outrem lhe tiver sido muito traumática recentemente ou mesmo se for apenas, por temperamento e de forma constante, uma ideia cuja evocação se lhe torne particularmente perturbadora ou intolerável (excepto se pressentir que o facto de debruçar-se sobre ela poderá surtir sobre si um efeito libertador e pacificante)

evite, também, utilizar esta técnica numa perspectiva de “combater o fantasma da morte” ou com o intuito estratégico de se “desembaraçar” dela – trata-se de lhe dar a mão como parte integrante, indissociável, da vida, não de exorcizá-la ou bani-la

comece por deixar a sua atenção incidir sobre a respiração e aperceba-se do quanto a manutenção da sua condição vital, a sua sobrevivência, neste exacto momento, repousa sobre uma simples golfada de ar

constate o potencial de mudança que cada respiração lhe proporciona (as tais dunas do deserto, sempre iguais, nunca as mesmas)

agora concentre-se sobre o fenómeno da morte: nasceu um dia e um dia vai morrer

reflicta sobre o facto inelutável que é a sua morte, sem quaisquer considerações marginais como sejam alma, espírito, karma, reencarnação ou outras

faça uma resenha breve de todas as pessoas que se lembre de terem morrido – sobretudo as que conheceu pessoalmente mas também aquelas de quem apenas tenha ouvido falar

escolha uma delas, aleatoriamente, e permaneça, uns momentos, atentamente presente à vacuidade, à ausência física, táctil, dessa pessoa, à impossibilidade virtual de contacto com esse ser que existiu fisicamente tanto quanto o seu próprio corpo existe aqui e agora, neste preciso instante

situe-se na consciência aguda de que nenhum ser vive para sempre, de que algures no tempo todos morremos

pense agora no facto de que o momento da morte é incerto, relembrando as diferentes idades em que as pessoas que conheceu morreram – em bebés, jovens, na meia idade, velhas, muito velhas...

as pessoas morrem em todas as idades e circunstâncias, de formas variadas, pelo que, não sabe (não sabe mesmo) como, quando ou onde vai morrer

uma vez que a ocorrência da morte é um dado adquirido mas o seu momento não, o que é que é prioritário para si viver neste instante?

reflicta sobre o que é que lhe é mais importante e significativo, evitando dar respostas instantâneas ou automáticas – o que é que é mesmo relevante para si, que propósito(s) fundamental(is) serve a sua vida, o que é que o move? (independentemente da forma prática que assuma)

de que maneira pode, então, realizar “isso” que, neste instante, face à morte, nua e crua, se revela como evidência de propósito na sua vida?

mais uma vez, também aqui, procure evitar o “piloto automático” da resposta pragmática, tendencialmente simplista e redutora, demasiado assente na sugestão de acções externas concretas - essa realização pode passar sobretudo pela sintonia com uma qualidade interna que vá impregnar tudo o que fizer

(não importa tanto o que faz mas como faz, como vivencia o que faz)

observando uma última vez a sua respiração (sonoridade, textura, aroma, ritmo, amplitude) com todos os sentidos, por momentos habite profundamente o seu corpo.

suavemente abra os olhos (se os tiver mantido fechados) e vendo, ouvindo, sentindo, cheirando, pensando, aprecie a vida em si neste instante, desperto e presente, face à morte


guião 14

conversação

“your words are not the message, you are!”

utilize esta técnica “secretamente”, ou seja, consigo próprio, sem informar o interlocutor de que está a utilizá-la, por forma a não “viciar os dados do jogo”

procure fazê-lo em conversas cujo contexto e conteúdo sejam leves e inconsequentes, no sentido de lhe permitirem uma maior tranquilidade na aplicação da mesma

gradualmente, com a prática, poderá começar a “arriscar” a utilização desta variante em circunstâncias mais formais ou que envolvam um maior grau de responsabilidade, como sejam, por exemplo, situações profissionais, onde, aliás, este tipo de enfoque poderá, até, vir a ser-lhe muito útil

a noção prévia de se encontrar num ambiente e disposição amistosos e descontraídos facilita-lhe a disponibilidade para ficar atento aos aspectos que se propuser observar

porém, quando iniciar a experiência e começar a conversar com alguém, procure escutar com um nível de cuidado e atenção igual ao que manteria perante conteúdos muito mais significativos e graves do que na realidade constata que estes são

aplique a si próprio as partes do guião que sinta que “encaixam” com a sua atitude “típica” em conversação, esqueça aquelas com que não se identifique, conforme os temperamentos pode haver grandes variações de pessoa para pessoa

à medida que vai ouvindo observe (-se):

pressupõe que já sabe o que a pessoa vai dizer?

avalia e classifica o que ouve a partir de categorias prévias suas, sobre o assunto ou sobre a pessoa que está a falar? (inconscientemente evitando que algo de verdadeiramente novo ou “ameaçador” seja escutado – mais uma vez sobre o tema ou sobre o interlocutor – pondo-o a si em causa?)

como é que vê a pessoa que está a falar e que filtros é que essa percepção – subjectiva, como todas – coloca à sua recepção da mensagem?

-considera-a credível e “respeitável” tendendo, por isso, a aderir de forma instantânea, “mal escutada” e excessivamente benevolente ao que ela diz?

-acha-a confusa, limitada ou desinteressante ao ponto de, logo à partida, desvalorizar o que ela tenha para lhe dizer?

-tende a encará-la como “puro receptáculo de mensagem”, indiferenciado, que há que ouvir por momentos, por delicadeza, mas sobretudo utilizar como via de escoamento da sua própria necessidade de falar?

acontece-lhe, a certa altura, deixar de ouvir verdadeiramente para, numa quota-parte considerável do seu espaço mental (estilo “memória ram”) começar já a preparar o que vai dizer em seguida?

na mesma perspectiva, “apanha-se” a si próprio impacientemente à espera de uma aberta para dizer alguma coisa que considera mais importante ou interessante do que aquilo que está a ouvir?

dá-se conta de, por momentos, no “calor da conversa”, a sua necessidade de protagonismo tornar mais importante e imperiosa para si a expressão de um “à-parte fulminante” ou duma “saída magistral” do que o diálogo, o interlocutor ou o assunto em si mesmos?

detecta em si a tendência para interromper o interlocutor? - mesmo que não chegue a fazê-lo por uma atitude de “bom tom” para com ele ou, mesmo, para com o “jogo invisível” em curso?

tende a mostrar-se muito enfático na expressão facial ou corporal da sua concordância ou discordância, sobrepondo-se, dessa forma, ao que está a ser dito?

tenta, repetidamente, encontrar formas alternativas de expressão que se lhe afigurem melhores para traduzir o que ouve?

completa, sistematicamente, as frases do outro, ou sugere palavras, reformulando excessivamente o que ouve (como se quisesse substituir-se ao interlocutor) preenchendo, em demasia, momentos de silêncio, de dúvida, de reflexão ou de simples pausa para respirar, da outra pessoa?

inversamente, tende a assumir uma atitude (verbal ou não-verbal) exageradamente passiva e inexpressiva, deixando o seu interlocutor “perdido”, com poucas possibilidades de aferição da ressonância que aquilo que ele está a dizer vai tendo sobre si?

escuta mais o conteúdo intelectual da mensagem, o tom de voz e a postura do interlocutor ou ambos? – está sobretudo atento a vertente humana do contacto, como numa conversa de autocarro em que se comenta, por exemplo (e “desnecessariamente”) o tempo que faz, ou à dimensão mais puramente cognitiva da mesma, como num balcão de informações?

consegue escutar-se a si próprio – no sentido lato da expressão – enquanto ouve o que lhe estão a dizer, captando a ressonância integral que a mensagem está a ter em si? (como se, em posição de espectador, assistisse à conversa e se observasse a si próprio no papel de ouvinte?)

quando fala:

consegue, por instantes breves que seja, ouvir-se a si próprio como se estivesse no lugar do seu interlocutor?

ao fim de uns momentos continua, de facto, a falar com ele, ou entrou em solilóquio e dá consigo a falar como se apenas para si próprio?

exprime-se assertivamente, a partir do que genuinamente pensa e sente em si, ou apenas de forma reactiva, face ao que ouviu antes?

sente-se capaz de convictamente ceder, perante argumentos do interlocutor que reconheça como válidos, ou observa em si a tendência para se agarrar aos seus pontos de vista de forma rígida e competitiva?

utiliza uma linguagem e expressão facial/corporal abertas, que deixem espaço para a continuidade e para a incerteza criativa no diálogo ou torna-se avaliador e definitivo na sua maneira de se exprimir?

ao invés, torna-se evasivo e vago na sua linguagem, ou simplesmente mente a si próprio, contrariado, numa espécie de “falsa concordância” quando sente que vai ter que divergir dos pontos de vista expressos pelo seu interlocutor?

como respira e como olha, enquanto fala? que gestualidade, que volume, timbre e tom vocais dá por si a utilizar?

é honesto e frontal ou duro, cortante e impositivo?

é amável ou complacente?

tende a fabricar posturas ou personagens, tornar-se teatral? – “olhar nos olhos” ou manter uma voz doce e maviosa nem sempre são o ideal, por vezes tornam-se deslocados, caricatos e até irritantes – consegue ser genuíno e deixar caír, quer os automatismos pseudo-espontâneos, quer os artifícios, ambos falsos?

sente-se capaz de ir aferindo, a cada instante, aquilo que diz, não tanto por uma óptica racional restrita daquilo que soa lógico e correcto mas através de uma consideração mais ampla e subtil (também afectiva) do que se revela oportuno e harmónico (sem por isso fugir à divergência caso ela ocorra)?

o que exprime é útil e necessário? - numa acepção muito ampla destas palavras: “serve para alguma coisa”? “acrescenta algo”? “que propósito visa”? – não coloque a questão apenas, nem prioritariamente sequer, no plano intelectual ou utilitário simples, procure, sobretudo, intuir se a conversa, até ao ponto em que ela depende da sua atitude, está a promover ou não a proximidade, o entendimento e a partilha entre si e o seu interlocutor

quer ao escutar, quer ao falar:

está disposto a assumir que, por vezes, “a falar a gente se desentende” e que “da discussão nem sempre nasce a luz” como princípios moderadores de interacções estéreis e sem sentido? – na constatação da impotência das palavras está disposto a deixar que o silêncio – não cínico ou manipulativo mas pacificador - fale por si, como suprema eloquência?

quando está, está mesmo?! – presente, sem reservas, de forma plena, como se “estreasse o espectáculo”, ou assume internamente uma atitude displicente de “ensaio”, trivializando e empobrecendo o encontro?

esquecida a informação, o teor cognitivo da conversa, que impressão lhe fica do seu papel nela, que qualidade de ressonância subsiste em si deste encontro?


guião 15

manipulação de objectos

utilize esta técnica durante a execução de tarefas simples e que, habitualmente, não lhe exijam particular atenção ou cuidado

evite fazê-lo em alturas em que, por motivos objectivos, tenha que se despachar e seja, por isso, mais facilmente levado a desenvolver um ritmo de procedimento maquinal e acelerado

experimente, pelo contrário, durante o “exercício”, seja ele de que natureza for, abrandar o ritmo de execução por forma a conceder-se mais tempo e espaço de sensibilização para o que estiver a fazer

mais tarde, e progressivamente, o desafio será então praticar este enfoque mesmo nas chamadas “situações de stress” em que sinta que a única saída é ligar o “piloto automático” e instaurar momentaneamente (às vezes prolongadamente, para não dizer permanentemente...) uma espécie de “estado de emergência” – observe mesmo se, sem se dar conta, tem vindo a tornar o clima da sua vida um “alerta laranja” contínuo!

tal como na técnica da conversação, as indicações para a auto-observação aqui apresentadas não são de aplicação universal, variam conforme os temperamentos, o seu estilo pessoal pode até ser “relaxado” (o que não significa forçosamente atento, ou presente) e se assim for deve atender apenas às sugestões do guião que vão mais nesse sentido

se lhe for sugestivo, parta para a aplicação desta variante de meditação inspirando-se nos rituais japoneses da caligrafia, dos arranjos florais ou do chá, que se constituem como verdadeiros “laboratórios experimentais” para o apuramento da mesma: eles explicitam, subtilmente, que a sacralidade não está na natureza exterior do gesto, simples e banal na aparência, mas na qualidade da atitude interior que o acompanha (e que pode, ela sim, reflectir-se nele, de dentro para fora, como se diz da beleza)

mas atenção, não ritualize a coisa, dando-se ares de quem segura a hóstia sagrada no altar, fica ridículo e artificial! - neste trabalho, a "cerimonialidade", a existir, é interna, não se confunde com solenidade exterior

observe:

que grau de sensorialidade (considerando mesmo os cinco sentidos) se permite ter na sua postura e na condução da tarefa?

está globalmente presente ao seu corpo, do ponto de vista táctil, respiratório, enquanto age, mesmo quando a sua atenção está focada no objecto exterior?

no contacto (visual, táctil, eventualmente auditivo ou olfactivo até) com o objecto, sente-se capaz de receber e processar essas impressões para lá do estritamente necessário à pura execução mecânica do trabalho?

com que ritmo, intensidade e cuidado aborda o objecto: de forma brusca ou progressiva, agressiva ou delicada, apreciativa ou indiferente, curiosa ou entediada?

por momentos, imagine que o objecto é uma pessoa ou um animal - como é que estes reagiriam à sua abordagem? tende a fazer uma aproximação ou um abalroamento? é amável ou apenas utilitário com o objecto?

está mental e sensorialmente presente à tarefa ou começou a divagar e só a vertente funcional permaneceu, como numa conversa em que continua a dizer que sim mas já nem ouve o que lhe estão a dizer?

irrita-se com o objecto se ele não “responde” como pretendido? (como se ele tivesse vontade ou autonomia?)

trivializa o contacto com o objecto, assumindo uma atitude puramente prática e utilitária como quem passeia o cão por frete porque ele tem que fazer xixi, ou como quem urina, apenas porque é necessário fazê-lo, à pressa e completamente alheio ao acto, desejando que ele termine?

quando assim é, consegue constatar a sensação de vazio momentâneo, de “passivo vital” de “cada minuto que passou sem mim” (como diz chico buarque)?

observe que grau de satisfação obtém, quer durante o processo, quer no resultado, à medida que a sua presença mental/sensorial se vai apurando

tende a adiar a plenitude da sua entrega ao que está a fazer/viver em nome de condições/actividades futuras, essas sim, supostamente relevantes e prioritárias? (mesmo que esse “futuro” se situe uma hora depois?)

está a despachar-se/desembaraçar-se daquilo que está a fazer neste momento em nome de quê?

que potencial de gratificação – no sentido de uma plena sensação de estar vivo – objectivamente diferente ou maior é que a actividade seguinte lhe traz?

se morresse dentro de alguns minutos, na impossibilidade (e inutilidade...) de mudar de actividade, como se situaria na que tem em mãos?

permanecendo ainda alguns momentos na intensidade vital desse “sabor terminal”, o que é que o impede de a manter (sem aura de tragédia) no seu dia a dia?

finalizado o trabalho e contemplando o resultado, consegue “adivinhar-se energeticamente nele”, pela vibração de presença efectiva (e afectiva) com que o impregnou, ou sente, mais superficialmente, que “a tarefa está concluída mas a sua pessoa não passou por lá”, que "poderia ter sido realizada por qualquer um"?

à medida que for repetindo esta técnica de observação/meditação em movimento deixe que ela se generalize ao seu dia a dia, como se o impregnasse, mesmo que já não haja um intuito experimental explícito: como é que lida com o computador ao escrever, como cozinha, como come, como se veste, como trata da sua higiene pessoal, como limpa ou organiza a sua casa ou o seu espaço de trabalho, como anda na rua, como conduz o seu carro, etc...


nuno cabral

outubro / 2010