os
apontamentos e considerações que se seguem, bem como as técnicas neles
descritas, são resultantes da minha própria experiência, vão beber a
tudo o que fui praticando e, por essa via, descobrindo em mim,
aprendendo com outros, lendo e pesquisando ao longo de anos, não se
baseiam em nenhuma obra em particular que vos possa sugerir como
consulta
espero que vos sejam úteis e que neles encontrem algumas
pistas que vos permitam “instalar”, se essa for a vossa intenção, uma
prática de meditação regular e minimamente consistente
mas eles
não pretendem constituir-se como referências para ninguém, não se filiam
em nenhuma tradição específica nem há aqui qualquer intuito de “fazer
escola ou apontar caminhos”
o meu conhecimento destas áreas
(como, de resto, do próprio yoga) é diminuto, por muito que a minha
postura ao transmiti-las possa sugerir segurança e convicção. na
verdade, por opção (e por incapacidade) não me arrisco a grandes voos,
pedagógicos ou de prática pessoal, o que me permite sentir-me tranquilo e
intuir um mínimo de solidez no que me proponho. espero não estar a
enganar-me ao afirmá-lo! - na verdade, não há dia em que não me extasie e
interrogue perante o mistério de tudo isto e o pouco que sabemos (ou,
pelo menos, o pouco que eu entendo) sobre estes meandros
nesse
sentido, e em coerência com o que tem vindo a ser o meu próprio trajecto
nestes meios, se alguma sugestão me permito deixar-vos é que passem o
que nos apontamentos abaixo é proposto pelo crivo da vossa própria
experiência, troquem informações, busquem outras referências e, se
sentirem esse impulso, se construam (ou desconstruam...) nesta "via” com
base na impressão soberana, mesmo que frágil e falível, da vossa
individualidade
boa jornada!
meditação - indicações gerais
“if I could tell you what it meant there would be no point in dancing it”
isadora duncan
fantasia, razão, hora, local, posição, frequência, disposição, duração, continuidade, transição, consagração, despojamento
fantasia
começando
do fim para o princípio, num sentido último, compenenetremo-nos, antes
de mais (e sem por isso termos que ficar desanimados) de que a ideia ou
intenção de “meditar”, como actividade, é pura ficção
na
verdadeira acepção da palavra, “meditação” não é algo que possamos
“fazer” ou, sequer, “atingir” de alguma forma, mas antes, algo que se
realiza em nós, como reflexo da nossa natureza essencial, evidência a
que acedemos, ou que se nos desvela, por abandono – inadvertidamente,
aliás, e com muito mais frequência do que geralmente nos apercebemos
daí
que, muitas escolas, mais do que o verbo “meditar”, prefiram e utilizem
o termo “sentar”, na justa explicitação daquilo que de facto depende da
nossa acção – num paralelo corriqueiro, é o mesmo que dizer que podemos
deitar-nos na cama, criando um cenário propício para que o sono
sobrevenha, mas não podemos “sonar”, tentando fabricá-lo
“esticando”
o paralelismo, já agora, e porque somos os tais, tão falados, “animais
de hábitos”: é provável que logremos dormir ao propiciarmos as condições
para tal, mas nada nos garante que, ocasionalmente, não possam ocorrer
insónias. da mesma forma, a rotina da meditação pode predispor-nos, por
repetição, até mesmo do ponto de vista orgânico/neurológico, a esse
estado, sem, contudo, garantir o seu surgimento, precisamente pelo facto
de ele não depender da nossa vontade
no ocultismo considera-se
que o máximo que o ser humano pode fazer, no plano tridimensional onde
habita é “realizar o cálice”, o estado de receptividade plena
no
mesmo sentido, falar de prática de meditação é falar, tão só, de
disponibilização e entrega a algo que não depende da nossa acção,
esforço ou capacidade, fenómeno absolutamente vertical e inclusivo mas
que, num primeiro momento, visto como processo horizontal no tempo e no
espaço, podemos então qualificar como subtractivo, não aditivo, do ponto
de vista da acção individual
numa analogia simplista, o “estado
meditativo” (expressão ela própria um tanto equívoca porque não se
trata, verdadeiramente, de um “estado”, no sentido espácio-temporal,
antes, sim, de um “não-estado”) pode ser comparado à tela em branco,
pura potencialidade, que acolhe e possibilita todos os traços ou
caracteres
o não-forma de onde brotam todas as formas, silêncio de fundo sobre o qual música e palavra adquirem sentido
prolongando
o mesmo raciocínio, o não-estado meditativo, omnipresente e, portanto,
integrante da própria presença do sujeito meditador e do hipotético
objecto meditado, “engole-os”, no sentido em que “ali” apenas existe o
espaço onde eles nascem e morrem, tal como o som se perde no silêncio, e
todas as formas, cumprido o seu tempo, regressam ao vazio de onde
brotaram – a forma é o vazio, o vazio é a forma, como se afirma no
budismo
meditar seria, então, simplesmente, aquilo a que
assistimos quando não está lá ninguém nem nada para ver, uma subtil e
misteriosa “presença à ausência de nós próprios”, nas palavras de eric
baret
razão
(mas então...) porquê meditar?
"everything we do is futile but we must do it anyway"
mahatma gandhi
dispor-se
a praticar meditação pode considerar-se um exercício de humildade:
aceitar o facto de se ser suficientemente instável e caótico por dentro
para necessitar de alguns momentos em que a quietude possa ser semeada e
consolidada
esse reconhecimento simples, quando autêntico e
sentido, poderá ser o grande passo para a instalação de uma prática
regular, quase, salvaguardadas as diferenças, como aquele que dá o
alcoólico quando aceita que o é e decide recuperar-se
na verdade,
se desde crianças recebemos, inadvertidamente, tantas achegas no
sentido da dispersão e da agitação, faz sentido, mesmo que pareça
artificial, num primeiro momento, que “treinemos” o oposto
tal não significa que o façamos de forma mecânica, utilitária e instrumental
como alguém dizia, “trata-se de servir uma arte, não de se servir de uma arte”
mesmo
tomando como princípio, por um lado, que “meditar” seja um estado
espontâneo, a nossa natureza de fundo, como tantas tradições afirmam, e
por outro, que fazê-lo nos permita aceder a efeitos benéficos vários,
essa disciplina pode ser vista como pura celebração do facto de estar
vivo, exercício de gratidão festiva pela plenitude do ser
se me
permitem a analogia, seguros do nosso amor por um filho, pai, amante,
amigo, não deixamos de nos disponibilizar para momentos especiais com
eles, que celebram, sem outra utilidade para lá do acto gratuito em si,
esse sentimento
sabemos que não amamos apenas das dezoito às
vinte, quando nos reservamos para brincar com o filho ou para estar com o
amigo. da mesma forma, não meditamos apenas quando nos sentamos para o
efeito. mas precisamos de momentos (e a sinceridade de reconhecê-lo pode
ser ela própria transbordante e luminosa) que nos permitam confirmar –
celebrando – que a escuta profunda e o amor estão lá, por muito que os
tomemos como adquiridos
joseph campbell, autoridade mundial no
âmbito do estudo das mitologias, afirmava precisamente que as narrativas
mitológicas proporcionam a cada membro de cada povo/cultura/civilização
a possibilidade da vivência de uma “autêntica experiência de estar
vivo”
porém, talvez mais que alguma vez antes na história humana,
pela autêntica “inflação” de estímulos que se oferecem à nossa atenção,
hoje em dia tendemos, de forma extrema, a colocar a tónica da
vitalidade das experiências no teor dos objectos das mesmas, sejam de
que natureza forem, perdendo de vista o processo vivencial/sensorial que
nos faz chegar a eles, numa espécie de “maquiavelismo perceptivo” em
que os fins nos fazem perder os meios (quando, na verdade, é nestes que
tudo se passa!)
a própria “obsessão colectiva” com a
produtividade e com o sucesso vai no mesmo sentido: “não fazer nada”
tornou-se, para muitas pessoas, o “pecado supremo”, ou uma virtual
impossibilidade, e “parar para ver”, “inutilmente”, em meditação, um
sério desafio a esta “cadência instalada” - até temos o velho ditado que
associa a ociosidade aos vícios para legitimar a ideia! entretanto, as
perdas de tempo sistemáticas em actividades estéreis e pouco
gratificantes, de facto ociosas, são o contraponto directo (saída de
emergência, em desespero de causa) desta propensão ao “engarrafamento”
dos dias
neste sentido, meditar é voltar à fonte primordial do
prazer e da plenitude, ao puro acto perceptivo, em que ele se basta a si
próprio antes de atingir o objecto, permitindo, aí sim, uma vivência
verdadeiramente livre e transbordante de todos os objectos e
experiências, pela constatação da sua inutilidade última
pura escuta, sensorialidade integral, em que o aforismo de wei wu wei ganha todo o sentido : “what you are looking for is what is looking”
hora
faça
a experiência de diferentes momentos do dia para se sentar uns minutos,
preferencialmente de manhã, antes de iniciar as suas actividades,
quaisquer que elas sejam, ou à noite, antes de dormir ; no entanto, se a
sua disponibilidade maior for, por exemplo, antes do almoço ou do
jantar, não hesite, aproveite!
local
procure
um espaço onde possa permanecer minimamente protegido de ruídos,
interrupções ou outros factores de perturbação, mas evite a exigência de
quietude e silêncio extremos como condições imprescindíveis. essa ideia
torna-se facilmente dificultadora da sua assiduidade àquilo que se
propôs (meditação com carácter regular) – experimente, de vez em quando,
a título excepcional, meditar no autocarro ou no comboio, por exemplo,
descondicione-se!
posição
escolha uma postura confortável para se sentar (pode até ser numa cadeira, por pouco “zen” que pareça)
a
posição sentada, desde que devidamente ajustada, permite-lhe manter um
estado físico e mental tranquilamente desperto: procure assegurar a
“neutralidade” da coluna vertebral pela preservação, sem esforço, das
suas curvaturas naturais, utilizando, sempre que necessário, alguma
altura debaixo das nádegas, e procurando, se se sentir cansado ou
instável, o suporte de uma parede para as costas
há múltiplas
formas de colocação das pernas, com diferentes objectivos e efeitos
energéticos que não importa aqui descrever exaustivamente, escolha uma
que o faça sentir-se confortável e que lhe permita “esquecer-se” delas (
e das costas) mesmo quando imóvel durante alguns minutos - é o melhor
sintoma de uma boa colocação do corpo
pode experimentar
deitar-se, se preferir, mas cuidado: a semelhança com a posição do sono
facilmente deixa instalar-se uma qualidade de inércia e entorpecimento
que prejudicam a concentração e a escuta
a colocação dos olhos
(abertos, fechados, semi-cerrados) varia bastante, incluindo detalhes
mais ou menos minuciosos, de acordo com as diferentes escolas e
tradições
independentemente da forma que escolha para os colocar
assuma como princípio, se ficar com os olhos fechados, a ideia de manter
a sua atenção tão presente e desperta (não dispersa) como se eles
estivessem abertos
inversamente, se optar por deixar os olhos
abertos ou semi-cerrados, procure conservar as qualidades de quietude e
interiorização que o recolhimento do olhar mais facilmente lhe
permitiria
faça a experiência das duas possibilidades e decida a
partir dela, podendo, também, ir alternando, conforme se sinta em cada
dia: se estiver mais cansado ou com sono pode ser bom experimentar
deixar os olhos semi-abertos para se manter acordado e presente, se
estiver mais agitado e disperso talvez os olhos fechados se tornem mais
funcionais
tanto quanto possível, nas técnicas de meditação em
posição estática, procure manter a imobilidade, resistindo ao impulso
neurológico do movimento como reacção instintiva de sobrevivência: o
nosso sistema nervoso está programado para se assegurar da integridade e
da própria existência simples do sistema psico-físico através do
movimento, que nos permite, de forma directa, “confirmar que estamos
vivos”
pela imobilidade intencional, cientes de nos termos
sentado duma forma que não nos acarreta danos ao mantê-la, atravessamos
uma “pequena morte” e ficamos menos reféns de impulsos biológicos
básicos, permitimo-nos um “air bag” de tempo de reacção que nos
proporciona maior liberdade de escolha, gradualmente extensível a outros
domínios (mentais, emocionais)
duração
seja
flexível com o tempo que dedica a esta actividade, sobretudo no início -
não se proponha grandes objectivos (“vou meditar meia hora de manhã,
meia hora à noite”) porque muito provavelmente vão-lhe sair furados
rapidamente. muitas vezes são mesmo estratégias inconscientes de
sabotagem da intenção inicial. será preferível começar com muito pouco
tempo e ir aumentando gradualmente a duração
deixe que a
meditação venha a si, como estado natural, plano de fundo que vai sendo
gradualmente reconhecido e relembrado, em vez de a forçar a entrar,
abruptamente, na sua vida
comece por experimentar períodos de
cinco minutos, eventualmente de manhã e à noite, até para poder
aperceber-se de qual dos horários será mais funcional ou harmonioso para
si, de acordo com as suas rotinas, temperamento, biorritmo, etc
depois,
pouco a pouco, vá aumentando, se lhe parecer viável, para dez minutos,
quinze... se ficar pelos cinco minutos durante semanas, meses, anos, não
os deprecie, valorize-os!
frequência
afirma-se,
consensualmente, que a prática da meditação deve ser diária, mas se se
sentir “sufocado” por essa ideia, mesmo tendo optado por períodos
curtos, estabeleça uma rotina bi ou tri semanal, por exemplo, o que lhe
pareça viável e aprazível, pelo menos numa fase inicial
evite uma
atitude austera com o que deve ser uma dádiva a si próprio,
gratificante e libertadora. imagine o que seria dedicar-se ao que quer
que tenha para si como a actividade que mais gosta (sem ser a meditação)
e, numa sensação de obrigação penosa, torná-la uma tarefa a promover à
força!...
a perspectiva do sofrimento e/ou do castigo como vias
supremas de aperfeiçoamento e purificação encontra-se profundamente
enraizada na nossa cultura, mesmo em quem, à partida, não se define como
religioso ou místico
acautelando essa propensão, observe se está
a transformar a meditação numa penitência! – não se tornará,
seguramente, uma melhor pessoa (seja lá isso o que for!) por se
mortificar diariamente submetendo-se sem amor nem convicção a uma
disciplina que lhe seja desagradável e sentida como absurda
daí a
importância de dosear esta actividade (como todas...) de forma realista
e permitir-se, sobretudo no início, ir ajustando ritmos e durações de
acordo com a ressonância interna que sinta a partir da prática que vai
desenvolvendo, até que a meditação se acomode na sua vida e encontre um
“nicho” natural no seu quotidiano
procure, porém, cumprir
rigorosamente o que se propuser e, ao mesmo tempo, seja tolerante (sem
ser complacente) consigo próprio, condescendendo, tranquilamente, no
tocante a falhas pontuais, sem se servir delas para desistir: alguma vez
lhe cruzou o espírito deixar de vez de tomar banho ou nunca mais lavar
os dentes só porque falhou um dia ou outro?!
disposição
evite
usar argumentos para consigo próprio para romper a rotina que se
propôs, como sejam: hoje estou muito cansado, hoje tenho a cabeça a mil,
hoje não estou inspirado, hoje preciso de outra coisa... a escolha é
sua mas não tenha dúvidas, quase sempre é tudo conversa, deixe-se de
tretas e sente-se cinco minutos!
permita-se disfrutar do desafogo
resultante de, por momentos, literalmente “esquecer-se de si e dos seus
humores”, que não vêm ao caso: deixe que o acto da escuta seja mais
importante do que quem procede a ele!
continuidade
“one does not become enlightened by imagining figures of light but by making darkness conscious”
"i'd rather be whole than good"
c. g. jung
fique
alerta, desde o início, para o facto de que a serenidade, limpidez
mental, quietude, que geralmente derivam da prática regular da meditação
ou do yoga podem funcionar como uma faca de dois gumes: o despertar da
sensibilidade, ao permitir uma ampliação do nosso espectro de
consciência psíquica (como nas cores - no vermelho, por exemplo) se por
um lado nos torna mais acessíveis “nuances” de prazer e bem estar que
antes, por embotamento perceptivo, tínhamos dificuldade em experimentar
(os ultra-violetas, simbolicamente) podem oferecer-nos simultaneamente,
porque a agudeza se estabelece para os dois lados, imprevistos e não
requeridos “tons” de dor e desconforto (infra-vermelhos simbólicos) como
condição polar do nosso amadurecimento
numa analogia simplista
(porque se trata de processos de natureza obviamente diferente) é um
pouco o que se passa, a certa altura, nas psicoterapias (já para não
dizer nas relações humanas em geral...) pelo confronto com “conteúdos”,
memórias, sentimentos não esperados, quando as coisas “começam a
aquecer”
estendendo o paralelismo, é nesses momentos criticos
(que muitas vezes vão e vêm, ressurgem mais tarde, desaparecem de
novo...) que é importante permanecer, assumir o compromisso, num
exercicio de fidelidade (a nós próprios, antes de mais) valendo-nos de
alguma firmeza e disciplina
transição
facilmente
se instala em nós, no desenvolvimento destas práticas, uma atitude de
fundo dissociativa em que o período da meditação tende a funcionar como
um “oásis” momentâneo, findo o qual voltamos, algo “recauchutados”, à
confusão e à postura de sobrevivência do dia a dia, fortalecendo
inconscientemente estas últimas quando o intuito era supostamente
inverso - um pouco naquela lógica folclórica do devoto que se presta à
confissão para mais plenamente poder voltar ao pecado logo de seguida!
numa
perspectiva mais integradora e unificante, permita-se uns instantes
breves de transição para o exterior no final do período em que se propôs
permanecer sentado. tanto quanto lhe for possível, desenvolva os
primeiros gestos e actividades ainda no comprimento de onda anterior,
como que impregnado de um perfume que tivesse permanecido em si. dessa
forma evita que ocorra um corte brusco entre a “frequência psíquica”
daquele pequeno período e o resto do dia (ou da noite) favorecendo, ao
invés, que as “horas mundanas” vão ficando saudavelmente contaminadas
pelas qualidades de alerta e quietude ali semeadas
consagração
se
lhe fizer sentido e o ajudar a promover um estado interior de maior
receptividade a este tipo de prática, pode consagrá-la, não
necessariamente num sentido religioso ou místico sequer, dedicando-a a
alguém em particular, ao mundo, ao que quer que lhe suscite esse impulso
misto de dádiva e gratidão
num sentido último, afirma-se comummente que não existe sujeito contemplativo nem objecto contemplado, apenas o acto perceptivo
na
"oferenda" simples da prática da meditação a algo que, de forma directa
e primária, percepcionamos como exterior a nós, abrimos portas à
dissolução do “sujeito meditador” permitindo que a arte suprema da
escuta se exprima por nós, mais que pretendermos exprimir-nos por ela,
“tornando-nos” no que quer que seja
despojamento
uma
última nota, sobretudo para quem, por temperamento, tenda a “levar-se
demasiado a sério” nestas ou noutras práticas, ou se aperceba de que
começa a derivar (por vezes até, a colmatar) um qualquer sentido de
identidade própria a partir do facto de se envolver nelas
não há
nada de particularmente excepcional ou diferente em dedicarmo-nos a uma
actividade deste tipo, não somos pessoas especiais, melhores nem piores
que as outras por fazê-lo, nem nos distinguimos, mesmo nos melhores
momentos da nossa prática desta “arte”, de quem, sem sequer ter algum
dia ouvido o termo “meditar”, em várias alturas do dia, se entrega
profundamente ao que faz - servir cafés, por exemplo - numa expressão
involuntária de atenção e presença a que poderíamos chamar amor
nesse
sentido, se se der conta de que começou a envergar a pomposa farda do
“meditador”,ou do praticante de yoga, ou outras, nem precisa de a despir
- aperceba-se só de que... o rei vai nu! ;-)
guião 1
papel de revelação fotográfica
numa
lógica de “inversão figura/fundo”, mais do que dirigir a sua atenção a
qualquer objecto, procure disponibilizar-se indiferenciadamente para
todos os estímulos, numa percepção sensorial global, sobretudo táctil e
auditiva, operando como antena parabólica, a trezentos e sessenta graus
qual
papel de revelação fotográfica que, indiscriminadamente, recebe o que
quer que nele incida, deixe-se captar tudo o que se ofereça à sua
atenção sensorial ou psíquica: sons, sensações tácteis internas ou
exteriores ao corpo, pensamentos, sentimentos
neste exercício
simples, de pura disponibilidade, observe como implicitamente traz a
tónica não ao que é percepcionado ou observado mas ao acto de observar
ou contemplar, à escuta, no sentido lato do termo
esteja presente
à sua atenção e ao que quer que a ela se ofereça, num primeiro esboço
simples da interrogação de fundo que, de momento, nem necessita de ser
formulada: “quem está presente a quê?”
simultaneamente, observe o
possível apaziguamento sensorial/neurológico resultante do facto de
permitir que a realidade (interna ou externa, não importa, são apenas
palavras) o “visite” mais do que dirigir-se, do ponto de vista da
atenção, onde quer que seja
guião 2
respiração
sentado de forma estável, faça inicialmente algumas respirações profundas e depois abandone a respiração ao seu fluxo natural
deixe
a sua sensibilidade táctil e auditiva pousar sobre o ar que é
respirado; se vir que o estratagema lhe facilita a concentração,
acompanhe mentalmente o trajecto de uma partícula ou pequena porção de
ar, desde as narinas até aos alvéolos profundos e daqueles novamente até
ao exterior, numa pulsação constante
simultaneamente, vá-se
apercebendo do ritmo respiratório que se foi instalando, tanto quanto
possível evitando “fazer” o que quer que seja com ele, apenas observando
estenda
a sua sensibilidade à percepção cutânea, muscular e articular do
movimento da respiração, quer no contacto da superfície da caixa
torácica com a roupa quer pelo reflexo táctil nas zonas adjacentes
(braços, abdómen, cabeça...)
se se distrair, relembre a sua
intenção inicial de permanecer presente, de se centrar na respiração,
voltando à observação, tranquila e firmemente, uma e outra vez; mais do
que encará-las como “ruído”, integre as distracções como pretextos e
oportunidades de regresso ao “eixo” da atenção
mantenha a
centragem da sua atenção na respiração como uma lente que focasse de
forma nítida um objecto próximo numa fotografia contendo uma paisagem de
fundo esbatida: dessa paisagem fazem parte todas as percepções
simultâneas acessórias que se insinuam em paralelo, como sejam
pensamentos, sentimentos, sensações, cheiros, ruídos, etc
deixe-os
coabitar, desfocadamente, em “grande angular”, com o “grande plano” em
que a sua lente perceptiva se situou, mantendo a prioridade na focagem
inicial
a título adicional, se sentir que é sugestivo para si:
enquanto
respira, relembre o processo de troca gasosa vital que se opera nos
seus pulmões. depois, progressivamente, vá-se apercebendo, numa
sensorialidade cada vez mais aguda, da dimensão prânica da respiração:
observe o processo constante de alquimia que acontece no seu organismo
em que este, qual “pedra filosofal”, vai transmutando a “matéria grossa”
do ar em energia subtil que se distribui, de forma revitalizante e
depurativa, por todo o corpo, à medida que inspira e expira
observe
como a respiração se constitui em cada ser humano, desde o nascimento
até à morte (desde a primeira inspiração até à última expiração) como
“cordão umbilical” com o mundo, um ponto de contacto e nutrição
permanentes
relembre que cada ser humano respira o mesmo ar, ele
entra e sai dos pulmões das outras pessoas e seres vivos, num processo
contínuo. observe essa conexão com a atmosfera e, através dela, com as
outras formas de vida, com o mundo
guião 3
sensações (1)
depois
de se ter instalado em posição sentada uns instantes, visualize o seu
corpo como imerso num líquido, dentro de um enorme recipiente
à
medida que esse recipiente se vai esvaziando, observe as sensações
puramente cutâneas que começam a manifestar-se a partir do topo da
cabeça, como se tivesse a sensibilidade da sua língua ou da polpa dos
dedos das suas mãos por todo o corpo, começando por ali
como se
procedesse a um “scanning”, apenas à superfície da pele, no contacto
desta com o ar circundante ou com a roupa, vá acompanhando tactilmente a
descida circular desse “nível” de líquido à medida que o recipiente
imaginário se vai esvaziando: pela testa até às sobrancelhas, têmporas,
nuca, zona superior das orelhas, depois toda a superfície da face, de
cima para baixo, ao longo das orelhas, occipital, até ao início do
pescoço, em todas as frentes deste, garganta, parte de cima dos ombros,
clavículas, caixa torácica, omoplatas, ao longo dos braços,
progressivamente por todo o resto do corpo até chegar aos pés
pode optar por terminar ali ou prosseguir, agora no sentido ascendente, com o mesmo processo
tendencialmente,
para situar a percepção táctil pelo corpo, recorremos à visualização
simples, como se estivéssemos fora dele. experimente, se lhe acontecer
espontaneamente visualizar as zonas do corpo, fazê-lo a partir de
dentro, como se não pudesse “ver” mentalmente cada uma mas apenas
“sentir” pelo tacto, a partir do interior do invólucro opaco do corpo -
como se, literalmente, “estivesse lá dentro”
observe as zonas
“brancas” ou “neutras” em que é difícil pressentir qualquer tipo de
sensação e repare, de dia para dia, como a percepção quer destas, quer
das que lhe são mais sensíveis, se vai modificando, apercebendo-se
sensorialmente da mutabilidade do corpo na sua aparente fixidez - como
as dunas no deserto, sempre iguais, nunca as mesmas
como “plano
de fundo” do enfoque mental desta técnica, se lhe for sugestivo, pense
no exercício como autêntico processo de “incarnação”, ainda que, por
agora, apenas à superfície do corpo – observe se é possível captar a
sensação, por vezes fugaz, de “existir mais” do que antes, do ponto de
vista estritamente corporal, mesmo que de forma vagamente etérea, menos
substancial, grossa
guião 4
sensações (2)
seguindo
as mesmas indicações do “guião 3” considere agora o seu corpo como um
recipiente cheio até ao topo (cabeça) com um líquido denso cujo nível
vai descendo - esvaziando - até à base (pés)
concentrado, desta
vez, nas sensações internas, de qualquer natureza, vá acompanhando
tactilmente, por dentro, essa linha de água invisível, à medida que ela
vai baixando
chegando ao nível do chão, conforme o tempo que
tenha disponível, poderá seguir o mesmo procedimento no sentido
ascendente, depois voltar a “descer” e assim sucessivamente, num
“scanning” contínuo, até terminar o período que se propôs permanecer
sentado
da mesma forma que no guião 3:
observe as zonas
“brancas” ou “neutras” em que é difícil pressentir qualquer tipo de
sensação e repare, de dia para dia, como a percepção quer destas, quer
das que lhe são mais sensíveis, se vai modificando, apercebendo-se
sensorialmente da mutabilidade do corpo na sua aparente fixidez - como
as dunas no deserto, sempre iguais, nunca as mesmas
como “plano
de fundo” do enfoque mental desta técnica, se lhe for sugestivo, pense
no exercício como autêntico processo de “incarnação”, agora nas zonas
profundas do corpo – observe se é possível captar a sensação, por vezes
fugaz, de “existir mais” do que antes, do ponto de vista estritamente
corporal, mesmo que de forma vagamente etérea, menos substancial, grossa
guião 5
sensações (3)
integrando
os procedimentos dos guiões 3 e 4, acompanhe, simultaneamente, as
sensações tácteis internas e externas ao corpo, agora captando cada uma
delas como simples luminescência (pense, por um instante, na
disponibilidade e encantamento da criança que contempla uma árvore de
natal)
observe que zonas do corpo se encontram mais “acesas”, mais presentes à sua percepção, e que zonas “brilham” menos
pode
experimentar, desta vez, manter a sua atenção distribuída globalmente
por todo o corpo ou, se sentir que se perde, seguir a lógica anterior de
acompanhamento da linha de água imaginária, descendo e subindo ao longo
do corpo
exercitando uma espécie de “comutabilidade sensorial”
ouça, agora, cada uma das sensações tácteis e visuais/luminosas como se
de sons se tratasse, escutando a melodia que emana do seu corpo
transitando
de “sentido em sentido”, observe como a própria visão e audição são
também tácteis, no sentido em que resultam do “con-tacto” de superfícies
- pense, por um momento, nos seus tímpanos e retinas como se eles
existissem em cada micro-ponto do seu corpo
por momentos observe também, ao invés, como sons e cores têm textura e podem ser captados pela sua pele
por
fim, permita-se estender este percepção física subtil aproximadamente
um metro além do ponto onde situa as suas fronteiras corporais
habituais, em todas as direcções (à frente, atrás, acima, abaixo,
esquerda, direita) observando a interpenetração do seu campo corporal
com o das outras pessoas eventualmente presentes, com objectos, com o
próprio chão, paredes, etc
guião 6
sensações (4)
regressando
ao primeiro “itinerário”, volte a percorrer agora o corpo seguindo a
linha de água imaginária, sintonizado mentalmente com a dimensão
atómica/molecular do corpo, essencialmente feita de vazio
numa
experiência de silêncio sensorial, observe se é possível sentir
continuidade entre o espaço circundante (ar, chão...) e o seu corpo,
como se as fronteiras deste último se dissolvessem num estado unitário
de participação no todo
por momentos observe, de novo numa
perspectiva sensorial mas mais subtil (não tão estritamente táctil ou
auditiva) o ritmo e vibração da sua respiração enquanto experimenta essa
continuidade entre espaço interno do corpo e espaço exterior como um
mesmo espaço
observe (sem fabricar efeitos!) se é possível
vivenciar a sensação de “ser respirado” – a pulsação da atmosfera a
acontecer em si, o seu ser como “micro-alvéolo do mundo”
guião 7
pensamentos (1)
utilize
esta técnica e a seguinte (guião 8) sempre que se sentir
particularmente agitado, mentalmente frenético ou com a impressão de que
outras formas de concentração (a das sensações, por exemplo) vão
funcionar apenas como tentativas vãs de parar uma locomotiva! – ao
permitir-se “dar algum assunto” à sua mente consegue, como um surfista
que, em movimento, apanha melhor a onda, navegar os seus pensamentos
fazendo surf com eles em vez de pretender parar o mar para se sentir
calmo – (por vezes) ele é demasiado grande!
então, da mesma forma
que nas técnicas anteriores concentrou a sua atenção nas sensações do
corpo, agora permaneça atento a quaisquer pensamentos que aflorem à sua
mente enquanto permanece sentado, imóvel, em silêncio
comece por se concentrar simplesmente na respiração, como ponto de referência e de regresso após cada divagação
sempre
que identificar um pensamento, procure classificá-lo atribuindo-lhe uma
categoria geral criada por si, como seja: remoer no passado, sonhar
acordado, ajustar contas, fantasiar, planear a agenda, inquietar-me com o
futuro, etc
feita a classificação, regresse à neutralidade observando novamente a respiração até que o pensamento seguinte se insinue
volte a classificar o novo pensamento e regresse à respiração, seguindo sempre esta alternância até ao final
depois
de terminar, se quiser, como diagnóstico simples do seu estado mental,
observe a “gama” dos pensamentos que observou e classificou, quais foram
os dominantes ou eventualmente recorrentes e o que lhe dizem deste seu
momento de vida
guião 8
pensamentos (2)
tendo
por base, ainda, a observação dos pensamentos, desta vez deixe-se
absorver inteiramente por cada um que for surgindo, como se quisesse
deixar-se devorar por eles, verdadeiramente “consumir-se na chama” da
intensidade com que eles se manifestarem
sem quaisquer
restrições, regressos a pontos de concentração, orientações de atenção,
deixe que a sua mente fique completamente refém de ideias, conjecturas,
fantasias, raciocínios, o que quer que se lhe ofereça observar como
espontaneamente surgido no ecrã da sua actividade cerebral
permaneça,
contudo, no que se poderia chamar a “retaguarda da mente”, presente e
atento ao “show”, como espectador passivo mas bem desperto
capte,
por momentos, a sua consciência observante como sendo esse espectador,
numa sala de cinema que seria o interior da sua caixa craniana,
observando o filme (pensamentos) projectado no ecrã (a parte interior da
sua testa) dessa sala imaginária
observe a possível sensação de
espaço que se vai criando entre si e toda a gama de pensamentos que
perpassam pela sua mente (por muito aliciante que seja a “intriga”)
se
sentir que, por instantes, “perdeu o pé” e foi arrastado na actividade
mental, confundindo-se com ela, volte a recuar, como se saísse do filme e
regressasse à plateia
procure aperceber-se da efectiva
substância ou insubstância, da realidade ou irrealidade objectiva dos
pensamentos enquanto tais (não daquilo a que eles se referem)
compare de forma simples e directa, tangível, o teor/solidez dos pensamentos com o da sua consciência observante
regressando à imagem da sala de cinema, por momentos visualize a interrupção da projecção e o ecrã apenas branco, vazio
se ainda tiver tempo, observe que novos filmes se insinuam nesse ecrã, novamente disponível, e siga o mesmo processo
como
forma de estender o estado contemplativo ao quotidiano, observe se ao
longo do dia se “cola ao filme” da sua vida e exercite a mesma
capacidade de recuo, como actor participante, genuíno, mas consciente e,
por isso, mais livre, do “enredo” em que está inserido
guião 9
sons (1) – música
utilize
esta variante quando sentir que, por agitação ou por simples
disposição, outras técnicas mais silenciosas, em que o foco da atenção é
mais ténue ou difuso, se tornam menos eficazes
escolha um
estímulo sonoro preferencialmente repetitivo, mesmo que não regular, por
forma a facilitar-lhe a concentração e a estabilização da atenção (ex:
taças ou pratos tibetanos, piano ou guitarra muito suaves, até mesmo
sons da natureza – se estiver no campo aproveite-os, não precisam de ser
gravados!)
procure simplesmente escutar o som, de novo como
“primeiro plano”, imagem nítida na fotografia, deixando todos os
restantes estímulos, físicos ou mentais, auditivos ou outros, ficar em
segundo plano, como paisagem de fundo
procure ouvir com todo o
corpo, percepcionando a vibração do som quer na superfície da pele quer
internamente, como se se tornasse um enorme “tímpano”, a ressonância
sonora ecoando em si como na caixa de um instrumento de cordas
ainda
nesta perspectiva de escuta global, dirija por momentos a sua atenção
ao próprio acto de ouvir: onde é que termina o som e começa a audição? –
observe a continuidade entre ambos, o carácter unitário da experiência
guião 10
sons (2) – audição de cinema
“if
you develop an ear for sounds that are musical it is like developing an
ego. you begin to refuse sounds that are not musical and that way cut
yourself off from a good deal of experience”
john cage
para
a prática desta técnica é conveniente – contrariamente ao habitual em
todas as outras – que se encontre num ambiente minimamente movimentado e
em que existam estímulos sonoros variados
opte por ela como
alternativa quando vir que não consegue instalar-se num local mais
tranquilo e que a prática de outras variantes fica muito dificultada
pode partir de dois enfoques básicos, alternativos ou simultâneos, para a aplicação desta modalidade:
adoptar,
durante o período em que permanecer sentado, a forma de percepção do
mundo de um cego, no sentido em que, longe de pretender situar-se
distanciadamente em relação aos estímulos auditivos, deve procurar
“lê-los” atentamente para que eles possam proporcionar-lhe a máxima
informação possível sobre o ambiente que o rodeia
de forma
semelhante, pensar que se encontra numa sala de cinema em que não pode
visualizar o ecrã ou em que simplesmente o realizador do filme tenha
optado por mantê-lo escuro enquanto a acção que se vai desenvolvendo
apenas pode ser escutada.
deixe-se, literalmente, “fazer o seu
filme” a partir de todos os estímulos auditivos que vai recebendo,
permitindo que a hierarquia que se estabeleça entre eles, a partir da
atenção prioritária ou secundária que a sua atenção espontaneamente lhes
dê, funcione como a câmara do realizador que, igualmente, “dirigiria o
seu olhar” a partir do dele
já agora, uma sugestão: se conhecer o
filme “shirin” do iraniano abbas kiarostami, pode ser inspirador para
esta técnica apenas lembrá-lo. se não tiver visto, aconselho-o
vivamente, como aliás todos os deste realizador – assistir às obras dele
é meditar! (“five” é outra obra de pura contemplação)
guião 11
“o que é isto?”
associando
inicialmente esta técnica com a da concentração na respiração, cada vez
que expirar pergunte, interiormente: “o que é isto?”
de forma
circular, deixe que a interrogação fique como que a pairar, ao longo da
expiração, prolongando-se à inspiração seguinte (como o som de um gongo
que se fosse esbatendo) e quando voltar a expirar pergunte novamente: “o
que é isto?”
evite colocar a pergunta de forma mecânica ou
automática, como se de um mantra ou oração se tratasse – observe, antes,
se se vai desenvolvendo em si uma impressão de perplexidade à medida
que vai perguntando, repetidamente: “o que é isto?”
não se trata
de uma investigação intelectual, o objectivo não é responder á pergunta,
muito menos pela especulação ou pela lógica, nesse sentido não coloque a
questão ao nível da caixa craniana, deixe que ela seja lançada a partir
de cada ponto do seu corpo (por muito teórica ou forçada que esta ideia
possa soar, num primeiro momento)
na verdade, a resposta não
pode ser encontrada, nem sequer no silêncio ou no espaço vazio que são,
ainda, conceitos - muito menos numa coisa, entidade ou designação
assim,
desafogadamente, liberto de qualquer intencionalidade, sem solução nem
salvação à vista, da cabeça aos pés, pergunte: “o que é isto?” –
simplesmente porque não sabe!
se se distrair, volte continuamente
à questão. deixe que ela se torne como o poste ao qual o barco fica
amarrado por uma corda: da mesma forma que o poste impede o barco de
partir à deriva, a questão mantém-no a si centrado, protegido de
pensamentos, sentimentos, sons ou sensações que vão aflorando
a
pergunta “o que é isto?” é um antídoto contra pensamentos distractivos,
afiada como uma espada, nada pode permanecer muito tempo no fio da sua
lâmina silenciante
ao colocar esta questão, profundamente, está a
abrir-se à experiência da totalidade do seu ser, num misto possível de
fascínio, estranheza e temor perante o contacto com o leito onde o
oceano da sua vida tem lugar
guião 12
“o que é eu?”, “quem é eu?”, “quem sou eu?”
associando
inicialmente esta técnica com a da concentração na respiração, cada vez
que expirar pergunte interiormente: “quem sou eu?”
de forma
circular, deixe que a interrogação fique como que a pairar, ao longo da
expiração, prolongando-se à inspiração seguinte (como o som de um gongo
que se fosse esbatendo) e quando voltar a expirar, pergunte novamente:
“quem sou eu?”
evite colocar a pergunta de forma mecânica ou
automática, como se de um mantra ou oração se tratasse – observe, antes,
se se vai desenvolvendo em si uma sensação de perplexidade à medida que
vai perguntando, repetidamente: “quem sou eu?”
não se trata de
uma investigação intelectual, o objectivo não é responder á pergunta,
muito menos pela especulação ou pela lógica, nesse sentido não coloque a
questão ao nível da caixa craniana, deixe que ela seja lançada a partir
de cada ponto do seu corpo (por muito teórica ou forçada que esta ideia
possa soar, num primeiro momento)
na verdade, a resposta não
pode ser encontrada, nem sequer no silêncio ou no espaço vazio que são,
ainda, conceitos - muito menos numa coisa, entidade ou designação
assim,
desafogadamente, liberto de qualquer intencionalidade, sem solução nem
salvação à vista, da cabeça aos pés, pergunte: “quem sou eu?” –
simplesmente porque não sabe!
se se distrair volte continuamente à
questão. deixe que ela se torne como o poste ao qual o barco fica
amarrado por uma corda. da mesma forma que o poste impede o barco de
partir à deriva, a questão mantém-no a si centrado, protegido de
pensamentos, sentimentos, sons ou sensações que vão aflorando
a
pergunta “quem sou eu?” é um antídoto contra pensamentos distractivos,
afiada como uma espada, nada pode permanecer muito tempo no fio da sua
lâmina silenciante
ao colocar esta questão, profundamente, está a
abrir-se à experiência da totalidade do seu ser, num misto possível de
fascínio, estranheza e temor perante o contacto com o leito onde o
oceano da sua vida tem lugar, num refluxo de consciência àquilo de que
verdadeiramente falamos quando dizemos “eu”
guião 13
morte
"the meaning of life is that it stops"
franz kafka
evite
esta forma de meditação se a experiência da morte de outrem lhe tiver
sido muito traumática recentemente ou mesmo se for apenas, por
temperamento e de forma constante, uma ideia cuja evocação se lhe torne
particularmente perturbadora ou intolerável (excepto se pressentir que o
facto de debruçar-se sobre ela poderá surtir sobre si um efeito
libertador e pacificante)
evite, também, utilizar esta técnica
numa perspectiva de “combater o fantasma da morte” ou com o intuito
estratégico de se “desembaraçar” dela – trata-se de lhe dar a mão como
parte integrante, indissociável, da vida, não de exorcizá-la ou bani-la
comece
por deixar a sua atenção incidir sobre a respiração e aperceba-se do
quanto a manutenção da sua condição vital, a sua sobrevivência, neste
exacto momento, repousa sobre uma simples golfada de ar
constate o potencial de mudança que cada respiração lhe proporciona (as tais dunas do deserto, sempre iguais, nunca as mesmas)
agora concentre-se sobre o fenómeno da morte: nasceu um dia e um dia vai morrer
reflicta
sobre o facto inelutável que é a sua morte, sem quaisquer considerações
marginais como sejam alma, espírito, karma, reencarnação ou outras
faça
uma resenha breve de todas as pessoas que se lembre de terem morrido –
sobretudo as que conheceu pessoalmente mas também aquelas de quem apenas
tenha ouvido falar
escolha uma delas, aleatoriamente, e
permaneça, uns momentos, atentamente presente à vacuidade, à ausência
física, táctil, dessa pessoa, à impossibilidade virtual de contacto com
esse ser que existiu fisicamente tanto quanto o seu próprio corpo existe
aqui e agora, neste preciso instante
situe-se na consciência aguda de que nenhum ser vive para sempre, de que algures no tempo todos morremos
pense
agora no facto de que o momento da morte é incerto, relembrando as
diferentes idades em que as pessoas que conheceu morreram – em bebés,
jovens, na meia idade, velhas, muito velhas...
as pessoas morrem
em todas as idades e circunstâncias, de formas variadas, pelo que, não
sabe (não sabe mesmo) como, quando ou onde vai morrer
uma vez que
a ocorrência da morte é um dado adquirido mas o seu momento não, o que é
que é prioritário para si viver neste instante?
reflicta sobre o
que é que lhe é mais importante e significativo, evitando dar respostas
instantâneas ou automáticas – o que é que é mesmo relevante para si,
que propósito(s) fundamental(is) serve a sua vida, o que é que o move?
(independentemente da forma prática que assuma)
de que maneira
pode, então, realizar “isso” que, neste instante, face à morte, nua e
crua, se revela como evidência de propósito na sua vida?
mais uma
vez, também aqui, procure evitar o “piloto automático” da resposta
pragmática, tendencialmente simplista e redutora, demasiado assente na
sugestão de acções externas concretas - essa realização pode passar
sobretudo pela sintonia com uma qualidade interna que vá impregnar tudo o
que fizer
(não importa tanto o que faz mas como faz, como vivencia o que faz)
observando
uma última vez a sua respiração (sonoridade, textura, aroma, ritmo,
amplitude) com todos os sentidos, por momentos habite profundamente o
seu corpo.
suavemente abra os olhos (se os tiver mantido
fechados) e vendo, ouvindo, sentindo, cheirando, pensando, aprecie a
vida em si neste instante, desperto e presente, face à morte
guião 14
conversação
“your words are not the message, you are!”
utilize
esta técnica “secretamente”, ou seja, consigo próprio, sem informar o
interlocutor de que está a utilizá-la, por forma a não “viciar os dados
do jogo”
procure fazê-lo em conversas cujo contexto e conteúdo
sejam leves e inconsequentes, no sentido de lhe permitirem uma maior
tranquilidade na aplicação da mesma
gradualmente, com a prática,
poderá começar a “arriscar” a utilização desta variante em
circunstâncias mais formais ou que envolvam um maior grau de
responsabilidade, como sejam, por exemplo, situações profissionais,
onde, aliás, este tipo de enfoque poderá, até, vir a ser-lhe muito útil
a
noção prévia de se encontrar num ambiente e disposição amistosos e
descontraídos facilita-lhe a disponibilidade para ficar atento aos
aspectos que se propuser observar
porém, quando iniciar a
experiência e começar a conversar com alguém, procure escutar com um
nível de cuidado e atenção igual ao que manteria perante conteúdos muito
mais significativos e graves do que na realidade constata que estes são
aplique
a si próprio as partes do guião que sinta que “encaixam” com a sua
atitude “típica” em conversação, esqueça aquelas com que não se
identifique, conforme os temperamentos pode haver grandes variações de
pessoa para pessoa
à medida que vai ouvindo observe (-se):
pressupõe que já sabe o que a pessoa vai dizer?
avalia
e classifica o que ouve a partir de categorias prévias suas, sobre o
assunto ou sobre a pessoa que está a falar? (inconscientemente evitando
que algo de verdadeiramente novo ou “ameaçador” seja escutado – mais uma
vez sobre o tema ou sobre o interlocutor – pondo-o a si em causa?)
como
é que vê a pessoa que está a falar e que filtros é que essa percepção –
subjectiva, como todas – coloca à sua recepção da mensagem?
-considera-a
credível e “respeitável” tendendo, por isso, a aderir de forma
instantânea, “mal escutada” e excessivamente benevolente ao que ela diz?
-acha-a confusa, limitada ou desinteressante ao ponto de, logo à partida, desvalorizar o que ela tenha para lhe dizer?
-tende
a encará-la como “puro receptáculo de mensagem”, indiferenciado, que há
que ouvir por momentos, por delicadeza, mas sobretudo utilizar como via
de escoamento da sua própria necessidade de falar?
acontece-lhe,
a certa altura, deixar de ouvir verdadeiramente para, numa quota-parte
considerável do seu espaço mental (estilo “memória ram”) começar já a
preparar o que vai dizer em seguida?
na mesma perspectiva,
“apanha-se” a si próprio impacientemente à espera de uma aberta para
dizer alguma coisa que considera mais importante ou interessante do que
aquilo que está a ouvir?
dá-se conta de, por momentos, no “calor
da conversa”, a sua necessidade de protagonismo tornar mais importante e
imperiosa para si a expressão de um “à-parte fulminante” ou duma “saída
magistral” do que o diálogo, o interlocutor ou o assunto em si mesmos?
detecta
em si a tendência para interromper o interlocutor? - mesmo que não
chegue a fazê-lo por uma atitude de “bom tom” para com ele ou, mesmo,
para com o “jogo invisível” em curso?
tende a mostrar-se muito
enfático na expressão facial ou corporal da sua concordância ou
discordância, sobrepondo-se, dessa forma, ao que está a ser dito?
tenta, repetidamente, encontrar formas alternativas de expressão que se lhe afigurem melhores para traduzir o que ouve?
completa,
sistematicamente, as frases do outro, ou sugere palavras, reformulando
excessivamente o que ouve (como se quisesse substituir-se ao
interlocutor) preenchendo, em demasia, momentos de silêncio, de dúvida,
de reflexão ou de simples pausa para respirar, da outra pessoa?
inversamente,
tende a assumir uma atitude (verbal ou não-verbal) exageradamente
passiva e inexpressiva, deixando o seu interlocutor “perdido”, com
poucas possibilidades de aferição da ressonância que aquilo que ele está
a dizer vai tendo sobre si?
escuta mais o conteúdo intelectual
da mensagem, o tom de voz e a postura do interlocutor ou ambos? – está
sobretudo atento a vertente humana do contacto, como numa conversa de
autocarro em que se comenta, por exemplo (e “desnecessariamente”) o
tempo que faz, ou à dimensão mais puramente cognitiva da mesma, como num
balcão de informações?
consegue escutar-se a si próprio – no
sentido lato da expressão – enquanto ouve o que lhe estão a dizer,
captando a ressonância integral que a mensagem está a ter em si? (como
se, em posição de espectador, assistisse à conversa e se observasse a si
próprio no papel de ouvinte?)
quando fala:
consegue, por instantes breves que seja, ouvir-se a si próprio como se estivesse no lugar do seu interlocutor?
ao
fim de uns momentos continua, de facto, a falar com ele, ou entrou em
solilóquio e dá consigo a falar como se apenas para si próprio?
exprime-se
assertivamente, a partir do que genuinamente pensa e sente em si, ou
apenas de forma reactiva, face ao que ouviu antes?
sente-se capaz
de convictamente ceder, perante argumentos do interlocutor que
reconheça como válidos, ou observa em si a tendência para se agarrar aos
seus pontos de vista de forma rígida e competitiva?
utiliza uma
linguagem e expressão facial/corporal abertas, que deixem espaço para a
continuidade e para a incerteza criativa no diálogo ou torna-se
avaliador e definitivo na sua maneira de se exprimir?
ao invés,
torna-se evasivo e vago na sua linguagem, ou simplesmente mente a si
próprio, contrariado, numa espécie de “falsa concordância” quando sente
que vai ter que divergir dos pontos de vista expressos pelo seu
interlocutor?
como respira e como olha, enquanto fala? que gestualidade, que volume, timbre e tom vocais dá por si a utilizar?
é honesto e frontal ou duro, cortante e impositivo?
é amável ou complacente?
tende
a fabricar posturas ou personagens, tornar-se teatral? – “olhar nos
olhos” ou manter uma voz doce e maviosa nem sempre são o ideal, por
vezes tornam-se deslocados, caricatos e até irritantes – consegue ser
genuíno e deixar caír, quer os automatismos pseudo-espontâneos, quer os
artifícios, ambos falsos?
sente-se capaz de ir aferindo, a cada
instante, aquilo que diz, não tanto por uma óptica racional restrita
daquilo que soa lógico e correcto mas através de uma consideração mais
ampla e subtil (também afectiva) do que se revela oportuno e harmónico
(sem por isso fugir à divergência caso ela ocorra)?
o que exprime
é útil e necessário? - numa acepção muito ampla destas palavras: “serve
para alguma coisa”? “acrescenta algo”? “que propósito visa”? – não
coloque a questão apenas, nem prioritariamente sequer, no plano
intelectual ou utilitário simples, procure, sobretudo, intuir se a
conversa, até ao ponto em que ela depende da sua atitude, está a
promover ou não a proximidade, o entendimento e a partilha entre si e o
seu interlocutor
quer ao escutar, quer ao falar:
está
disposto a assumir que, por vezes, “a falar a gente se desentende” e que
“da discussão nem sempre nasce a luz” como princípios moderadores de
interacções estéreis e sem sentido? – na constatação da impotência das
palavras está disposto a deixar que o silêncio – não cínico ou
manipulativo mas pacificador - fale por si, como suprema eloquência?
quando
está, está mesmo?! – presente, sem reservas, de forma plena, como se
“estreasse o espectáculo”, ou assume internamente uma atitude
displicente de “ensaio”, trivializando e empobrecendo o encontro?
esquecida
a informação, o teor cognitivo da conversa, que impressão lhe fica do
seu papel nela, que qualidade de ressonância subsiste em si deste
encontro?
guião 15
manipulação de objectos
utilize esta técnica durante a execução de tarefas simples e que, habitualmente, não lhe exijam particular atenção ou cuidado
evite
fazê-lo em alturas em que, por motivos objectivos, tenha que se
despachar e seja, por isso, mais facilmente levado a desenvolver um
ritmo de procedimento maquinal e acelerado
experimente, pelo
contrário, durante o “exercício”, seja ele de que natureza for, abrandar
o ritmo de execução por forma a conceder-se mais tempo e espaço de
sensibilização para o que estiver a fazer
mais tarde, e
progressivamente, o desafio será então praticar este enfoque mesmo nas
chamadas “situações de stress” em que sinta que a única saída é ligar o
“piloto automático” e instaurar momentaneamente (às vezes
prolongadamente, para não dizer permanentemente...) uma espécie de
“estado de emergência” – observe mesmo se, sem se dar conta, tem vindo a
tornar o clima da sua vida um “alerta laranja” contínuo!
tal
como na técnica da conversação, as indicações para a auto-observação
aqui apresentadas não são de aplicação universal, variam conforme os
temperamentos, o seu estilo pessoal pode até ser “relaxado” (o que não
significa forçosamente atento, ou presente) e se assim for deve atender
apenas às sugestões do guião que vão mais nesse sentido
se lhe
for sugestivo, parta para a aplicação desta variante de meditação
inspirando-se nos rituais japoneses da caligrafia, dos arranjos florais
ou do chá, que se constituem como verdadeiros “laboratórios
experimentais” para o apuramento da mesma: eles explicitam, subtilmente,
que a sacralidade não está na natureza exterior do gesto, simples e
banal na aparência, mas na qualidade da atitude interior que o acompanha
(e que pode, ela sim, reflectir-se nele, de dentro para fora, como se
diz da beleza)
mas atenção, não ritualize a coisa, dando-se ares
de quem segura a hóstia sagrada no altar, fica ridículo e artificial! -
neste trabalho, a "cerimonialidade", a existir, é interna, não se
confunde com solenidade exterior
observe:
que grau de sensorialidade (considerando mesmo os cinco sentidos) se permite ter na sua postura e na condução da tarefa?
está
globalmente presente ao seu corpo, do ponto de vista táctil,
respiratório, enquanto age, mesmo quando a sua atenção está focada no
objecto exterior?
no contacto (visual, táctil, eventualmente
auditivo ou olfactivo até) com o objecto, sente-se capaz de receber e
processar essas impressões para lá do estritamente necessário à pura
execução mecânica do trabalho?
com que ritmo, intensidade e
cuidado aborda o objecto: de forma brusca ou progressiva, agressiva ou
delicada, apreciativa ou indiferente, curiosa ou entediada?
por
momentos, imagine que o objecto é uma pessoa ou um animal - como é que
estes reagiriam à sua abordagem? tende a fazer uma aproximação ou um
abalroamento? é amável ou apenas utilitário com o objecto?
está
mental e sensorialmente presente à tarefa ou começou a divagar e só a
vertente funcional permaneceu, como numa conversa em que continua a
dizer que sim mas já nem ouve o que lhe estão a dizer?
irrita-se com o objecto se ele não “responde” como pretendido? (como se ele tivesse vontade ou autonomia?)
trivializa
o contacto com o objecto, assumindo uma atitude puramente prática e
utilitária como quem passeia o cão por frete porque ele tem que fazer
xixi, ou como quem urina, apenas porque é necessário fazê-lo, à pressa e
completamente alheio ao acto, desejando que ele termine?
quando
assim é, consegue constatar a sensação de vazio momentâneo, de “passivo
vital” de “cada minuto que passou sem mim” (como diz chico buarque)?
observe
que grau de satisfação obtém, quer durante o processo, quer no
resultado, à medida que a sua presença mental/sensorial se vai apurando
tende
a adiar a plenitude da sua entrega ao que está a fazer/viver em nome de
condições/actividades futuras, essas sim, supostamente relevantes e
prioritárias? (mesmo que esse “futuro” se situe uma hora depois?)
está a despachar-se/desembaraçar-se daquilo que está a fazer neste momento em nome de quê?
que
potencial de gratificação – no sentido de uma plena sensação de estar
vivo – objectivamente diferente ou maior é que a actividade seguinte lhe
traz?
se morresse dentro de alguns minutos, na impossibilidade
(e inutilidade...) de mudar de actividade, como se situaria na que tem
em mãos?
permanecendo ainda alguns momentos na intensidade vital
desse “sabor terminal”, o que é que o impede de a manter (sem aura de
tragédia) no seu dia a dia?
finalizado o trabalho e contemplando o
resultado, consegue “adivinhar-se energeticamente nele”, pela vibração
de presença efectiva (e afectiva) com que o impregnou, ou sente, mais
superficialmente, que “a tarefa está concluída mas a sua pessoa não
passou por lá”, que "poderia ter sido realizada por qualquer um"?
à
medida que for repetindo esta técnica de observação/meditação em
movimento deixe que ela se generalize ao seu dia a dia, como se o
impregnasse, mesmo que já não haja um intuito experimental explícito:
como é que lida com o computador ao escrever, como cozinha, como come,
como se veste, como trata da sua higiene pessoal, como limpa ou organiza
a sua casa ou o seu espaço de trabalho, como anda na rua, como conduz o
seu carro, etc...
nuno cabral
outubro / 2010