a primeira figura com que me deparo, à minha frente, é um velho. e não podem imaginar o quão feliz isso me torna.
não sei se haverá graça maior do que encontrar uma pessoa verdadeiramente velha, ou seja, feliz. é uma dádiva rara visto que, para muitos, a idade acaba por não ser mais que a adição vazia e degradante de anos físicos. mas quando uma pessoa idosa é feliz, ela torna-se tão poderosa que nem precisa de falar: onde ela chega... cura! aquele que neste momento surge na minha memória é assim. chama-se jeremy regard.
não fui eu que lhe atribui este nome. ele pertence-lhe. quantos romancistas gostariam de o ter inventado?
na verdade, gostaria de usar de bastante modéstia ao descrevê-lo - pelo grande que ele era, parecendo, no entanto, tão insignificante. a passagem dele pela minha vida foi tão breve - apenas umas semanas - que já nem consigo lembrar-me do seu corpo. recordo vagamente um homem vigoroso, direito, compacto. sim, um homem pequeno, do ponto de vista da estatura física. não consigo ver-lhe a cara. acho que nunca me interroguei sobre ela, mesmo na época. via sempre uma outra que me parecia muito mais real.
conheci-o em janeiro de 1944, em plena guerra, na alemanha, quando me encontrava num campo de concentração, tinha então dezanove anos. ele era um dos seis mil franceses que foram chegando a buchenwald entre 22 e 26 de janeiro. mas não se assemelhava a nenhum deles.
tenho que me deter aqui, por instantes, porque acabei de escrever a palavra "buchenwald". vou escrevê-la com frequência. mas não esperem uma descrição dos horrores da deportação. eles foram reais e não são agradáveis de enunciar. para termos o direito de falar deles seria necessário sermos "xamãs" - e não apenas do corpo. contentar-me-ei, portanto, com o indispensável, o cenário geral.
referir-me-ei mesmo, por vezes, à deportação, duma forma que poderá soar escandalosa a alguns, ou seja, paradoxal: direi em que é que ela foi positiva, que riquezas ocultas continha.
este tema é recorrente na minha vida pela relevância que assumiu nela, constituindo-se como um sótão transbordante de dor e alegria, de perguntas e respostas.
o jeremy tanbém não falava de campos de concentração, mesmo quando se encontrava lá. não ficava com o olhar agarrado ao fumo que saía dos fornos crematórios nem aos mil e duzentos prisioneiros aterrorizados do bloco 57. ele olhava através disso. no início, não sabia quem ele era. falavam-me do "sócrates".
os meus vizinhos, que eram numerosos, pronunciavam este nome, perfeitamente inesperado, no meio do frio e do medo daquele formigueiro em que todos deambulávamos. "o sócrates disse...", "o sócrates riu-se...". o sócrates estava por ali, um pouco mais adiante, do outro lado desta pequena multidão de homens rapados. eu não entendia porque é que toda aquela gente chamava alguém sócrates. mas tinha vontade de o conhecer.
um dia, por fim, vi-o - quer dizer, devo tê-lo visto, posto que, para dizer a verdade, não guardo memória do nosso primeiro encontro.
só sei que esperava um interlocutor eloquente, de raciocínio brilhante, um metafísico sagaz, um qualquer filósofo de moral triunfante. mas não foi nada disso que encontrei.
ele era simplesmente um soldador duma pequena vila situada aos pés das montanhas de jura. tinha vindo parar a buchenwald por razões que tinham tão pouco a ver com o que de essencial guardo dele que nunca as conheci nem o interroguei sobre elas. o nome dele não era "sócrates", como já sabem, era jeremy, e nunca entendi porque é que este nome não bastava aos seus companheiros.
a história de jeremy era a de um soldador proveniente de uma zona específica do mundo, uma vila em frança. ele adorava referi-lo, entre sorrisos francos. relatava-o de forma simples, tal como qualquer comerciante falaria do seu negócio. e, aqui ou ali, podia discernir-se a prresença de uma segunda forja, uma forja do espírito.
sim, disse "espiritual". sei que esta palavra se foi deteriorando, por excesso de uso, mas tomem-na aqui como verdadeira e plena.
ouvi o jeremy contar que havia homens que vinham à sua loja não apenas pelos seus cavalos ou carruagens mas por eles próprios. vinham para regressarem "ferrados" e renovados, para levarem para casa um pouco da vida de que careciam e que encontravam, transbordante, irradiante e delicada na forja do "pai" jeremy.
naquela altura eu era estudante. praticamente nunca tinha tido contacto com homens assim, eles não são do estilo com que nos cruzamos nas universidades. eu pensava que quando um homem era sábio o explicitava, especificando como e porquê, em articulação com que escola de pensamento. eu pensava, acima de tudo, que para ser sábio havia que pensar, e pensar de forma bem rigorosa.
fiquei de boca aberta perante o jeremy, porque ele não pensava. ele contava histórias, quase sempre as mesmas, abanava os ombros, parecia fazer-nos sentir trespassados por seres invisíveis. tinha sempre o nariz em cima do óbvio, do imediato, do que estava à mão. se se referia à felicidade de um vizinho quando este saía da sua loja, era como se falasse de uma verruga ou de um caroço que tivesse sido removido. observava, com os seus olhos, as coisas do espírito, tal como os médicos observam os micróbios nos seus microscópios. não fazia distinções. e quanto mais eu o observava a fazer isto, menos sentia o peso do ar à minha volta.
fui encontrando pela vida seres surpreendentes, seres cujos gestos e palavras eram tão impactantes que, na sua presença, sentia necessidade de baixar os olhos. o jeremy não era assim, de todo! não estava ali para nos estimular.
não foi sequer a curiosidade que me impeliu para ele. eu precisava dele tal como um homem que está a morrer de sede necessita de água. como todas as coisas importantes, esta era básica, elementar.
ainda consigo ver o jeremy a circular pelas nossas casernas. formava-se um espaço entre nós. ele parava em qualquer lado e, imediatamente, os homens apertavam o círculo, deixando, no entanto, um pouco de espaço à sua volta. tratava-se de um movimento completamente instintivo que não pode ser justificado apenas pela noção de respeito. nós recuávamos mais como alguém que dá uns passos atrás para deixar espaço livre para quem trabalha.
notem que nós éramos mais de mil homens nestes barracões, dos quais pelo menos uns quatrocentos se encontravam muito desconfortáveis. lembrem-se de que estávamos todos profundamente e permanentemente amedrontados. não pensem em nós, naquela situação, como indivíduos, mas como uma massa protoplásmica. na verdade, estávamos colados uns aos outros. os únicos movimentos que fazíamos eram empurrar, agarrar, separar, torcer. donde, podem entender melhor o encanto (para não dizer o "milagre") desta pequena distância, do círculo de espaço que se mantinha em torno do jeremy.
ele não era ameaçador, não era austero, não era, sequer, eloquente. mas estava ali, e isso era tangível. sentia-se como uma mão no ombro, uma mão que inspira respeito, que nos traz a nós próprios quando sentimos que estamos prestes a desaparecer.
sempre que ele aparecia, o ar tornava-se respirável: eu levava com uma lufada de vida na cara. talvez isto não fosse um milagre mas era, pelo menos, um grande evento, do qual apenas ele era capaz. a passagem do jeremy pelo átrio das casernas era isso: uma respiração. na minha memória, consigo acompanhar, com nitidez, o trilho de luz e claridade que ele deixava por entre a multidão.
eu não entendia, na altura, quem ele era, mas conseguia, seguramente, vê-lo. e esta imagem começou a trabalhar, dentro de mim, até que se acendeu como um archote. eu não sabia quem ele era porque ele não dizia.
havia uma história a que ele voltava frequentemente, sobre a seita dos cientologistas cristãos a que ele tinha pertencido. ele tinha mesmo estado na américa uma vez, para conhecer os seus pares. esta aventura, bastante invulgar para um soldador de jura, intrigou-me mas não me esclareceu. trazia mais um véu de mistério à sua pessoa. e era tudo. o jeremy por si, sem histórias, era o que verdadeiramente me importava.
terei que me desculpar por usar tantas imagens associadas a actos simples como comer, respirar... quando me sentia tentado a fazê-lo o jeremy proibia-mo. ele sabia muito bem o quanto as ideias podiam impossibilitar a vida
ele era um verdadeiro trabalhador manual e sabia que em buchenwald não conseguiríamos sobreviver com base nas ideias que tínhamos de buchenwald. ele dizia isto; dizia, mesmo, que muitos de nós morreriam por causa delas. e não estava enganado.
eu sabia de muitos homens que tinham morrido porque tinham sido assassinados por outros. por esses, nada mais havia a fazer senão orar. mas conheci também muitos outros que morreram muito depressa, como moscas, por pensarem que se encontravam no inferno. era desses assuntos que o jeremy falava.
era necessário haver ali um homem com as qualidades de simplicidade e clareza de visão susceptíveis de o levarem às profundezas da realidade, por forma a permitir-lhe ver o fogo e para lá do fogo. era necessário mais que a simples esperança.
era necessário ver.
o jeremy via. havia um espectáculo perante os seus olhos, mas não era aquele a que nós assistíamos. não era o nosso buchenwald, o buchenwald das vítimas. não era uma prisão, ou seja, um lugar de fome, agressões, morte, revolta, em que outros homens, os maus, tinham cometido o crime de nos colocarem. para ele não havia nós, os inocentes, e o outro, o grande e anónimo Outro, com chicote e voz atormentadora - "o carrasco".
como é que eu sabia disto? - é legítimo que perguntem - visto o jeremy quase não se pronunciar sobre estas questões. sem sombra de dúvida, dir-vos-ei que existe em certos seres - como existia nele - uma qualidade de inteireza e rectidão tão apurada que a sua forma de olharem para as coisas se comunica por si, é-nos dada, ao menos por instantes. e nesse espaço, o silêncio é então mais verdadeiro, mas exacto que as palavras.
quando o jeremy vinha ter connosco ao bloco 57, no meio daquele pequeno halo de espaço, o que nos dava era claridade. era uma transbordância de visão, uma nova visão. e era por isso que todos nos aproximávamos dele.
mas sobretudo não fiquem com a ideia de que o jeremy nos consolava. no ponto a que já tínhamos chegado, qualquer consolação teria sido mera fantasia, uma escarnecedora e perversa história para adormecer crianças. não nos encontrávamos no país das maravilhas e se fôssemos suficientemente loucos ou incautos para acreditar nisso um segundo que fosse, o despertar subsequente teria sido deveras amargo.
o discurso do jeremy era duro. mas a sua expressão era delicada, sem volubilidade. tinha uma voz suave, gestos claros e incisivos, decorrentes da prática da sua arte, uma tranquilidade natural. era um "tipo porreiro", garanto-vos, não um profeta.
ele era tão pouco um profeta, gerava tão pouco alarido à sua volta que não sei quantos, da dúzia de homens que sobreviveram àqueles dias do inverno de 1944 na caserna 57, se lembrarão dele hoje em dia. gostaria de não ser o único a conservar esta memória.
não se notava nada de especial no jeremy, nenhum traço invulgar. não empunhava a bandeira de nenhum credo particular, excepto a referência ocasional à cientologia cristã. mas na época, para mim e para outros homens franceses que ali estavam, esta expressão assumia apenas um ressonância bizarra.
nós dirigíamo-nos ao jeremy como a uma nascente, nem nos perguntávamos porquê. não pensávamos nisso. naquele oceano de raiva e sofrimento existia aquela ilha: um homem que não gritava, que não pedia ajuda a ninguém, que se bastava a si próprio.
um homem que não sonhava: isso era, talvez, o mais importante de tudo. todos nós ali éramos sonhadores: sonhávamos com mulheres, filhos, casas, até mesmo com as misérias de outros tempos que tínhamos a fraqueza de classificar como "liberdade". não estávamos em buchenwald. não queríamos ter nada a ver com buchenwald. e cada vez que voltávamos, buchenwald estava ali, intacto, e doía.
o jeremy não se desiludia. para que havia de sonhar? quando o víamos chegar, com a sua imensa serenidade, tínhamos vontade de gritar, "fecha os olhos! - ver isto queima!" - mas o grito ficava nas nossas gargantas porque, comprovadamente, os seus olhos estavam solidamente fixados na nossa desgraça e não pestanejavam. ele não aparentava sequer a atitude de quem transporta consigo um grande fardo, um ar de herói. ele simplesmente não tinha medo, tão naturalmente quanto nós estávamos aterrorizados.
"para quem sabe ver, as coisas são sempre apenas como são", dizia ele. no início eu não entendia. chegava a sentir uma espécie de indignação. "o quê?! - buchenwald como a vida normal? - impossível!" aquele bando de homens dementes e hediondos, a sombra da ameaça da morte, inimigos por todo o lado, entre os ss, até mesmo entre os próprios prisioneiros, aquele pico de colina contra o céu, denso de fumo, com os seus sete círculos, mais adiante na floresta as vedações eléctricas, tudo isto "o habitual"!? lembro-me da minha incapacidade para aceitar a ideia. as coisas tinham que ser piores ou, senão, ao menos mais belas! até que o jeremy me permitiu ver.
não foi uma iluminação, uma encandeante revelação da verdade, não me parece que tenha havido sequer uma troca de palavras. mas um dia tornou-se-me óbvio, palpável na carne, que o soldador jeremy me tinha emprestado os seus olhos.
com esses olhos eu vi que buchenwald não era único, nem sequer privilegiado, por ser um dos lugares de maior sofrimento humano. vi também que o nosso campo não ficava na alemanha, como pensávamos, no coração de thuringe, dominando o planalto de iena, neste sítio específico e não outro. jeremy ensinou-me, com os seus olhos, que buchenwald estava em cada um de nós, cozido e recozido, acalentado incessantemente, alimentado duma forma horrenda. e que, portanto, podíamos vencê-lo, se o desejássemos com suficiente força e determinação.
"como sempre", explicava-se o jeremy por vezes. ele tinha visto constantemente pessoas a viverem amedrontadas e reféns do mais invencível de todos os medos: aquele que não tem objecto. tinha visto muitas delas a desejarem secretamente e acima de tudo uma coisa: fazerem mal a si próprias. era constante, estava sempre ali, o mesmo espectáculo. acontecia apenas que as condições se tinham, por fim, reunido de forma completa. a guerra, o nazismo, as loucuras da política e dos nacionalismos tinham criado uma obra-prima, uma patologia e uma tragédia perfeitas: o campo de concentração.
para nós, claro, esta era a primeira vez. o jeremy não sustentava a nossa surpresa. dizia que ela não era honesta e que nos fazia mal.
dizia que na vida comum, com olhos de ver, teríamos observado os mesmo horrores. e, mesmo assim, tínhamos logrado ser felizes antes. pois bem! - os nazis tinham-nos dado um terrível microscópio: o campo de concentração. mas isso não era razão para parar de viver.
o jeremy era um exemplo: ele encontrou alegria no seio do bloco 57. ele encontrou-a em momentos ao longo do dia em que nós só encontrávamos medo. e encontrou-a em tal abundância que, quando estava presente, ela acendia-se em nós. sensação inexplicável, incrível mesmo, no sítio onde nos encontrávamos: a alegria a preencher-nos. conseguem imaginar a dádiva que o jeremy nos fez?! não percebíamos mas agradeciamos-lhe, uma e outra vez, constantemente.
que tipo de alegria? aqui vão algumas toscas tentativas de explicação: a alegria de estar vivo neste momento, no seguinte, cada vez que nos tornávamos conscientes do facto. a alegria de sentir a vida dos outros, de alguns dos outros pelo menos, junto a nós, na escuridão da noite. o que é que eu sei, o que é que eu posso dizer mais? não vos chega?
era mais do que suficiente para nós. era uma absolvição, um bálsamo, uma moratória, assim, sem mais nem menos, a uns passos do inferno. eu fiquei a conhecer este estado de espírito através do jeremy. tal como aconteceu com outros, seguramente. a alegria de descobrir que a alegria existe, que está em nós, tal como a vida, sem condições, e que nenhuma condição, mesmo a pior, a pode matar.
tudo isto, dirão, proveio do jeremy porque ele era um homem lúcido. mas eu não disse que ele era lúcido - esta qualidade pertence à inteligência e o jeremy não se sentia em casa no mundo da inteligência. eu disse que ele via. falo-vos dele como uma oração viva.
pessoas mais exigentes poderão argumentar que a fé do jeremy era cega, inquebrantável, sem matizes. que importa! para ele, e para nós através dele, o mundo era salvo a cada segundo. esta benção não tinha fim. e, quando findava, era porque nós tínhamos parado de a ver, porque nós - e não ela - a tínhamos abandonado.
não se trata de grandes palavras. e se, ainda assim, ficarem com essa impressão, é pela minha inépcia para expressá-lo duma forma mais fiel
o jeremy era um homem comum, comum e sobrenatural, apenas isso.
era perfeitamente possível viver ao lado dele durante semanas a fio e nem dar por ele, vendo-o apenas como "um velhote um pouco diferente dos outros". ele não era espectacular como um herói nem chamava por ninguém como os vendedores ambulantes.
o que era sobrenatural nele claramente não lhe pertencia; existia para ser partilhado. o espectáculo, a existir, era para ser encontrado por nós e em nós próprios. tenho uma recordação muito clara de o ter encontrado. apercebi-me um dia, tal como outros, de um pequeno lugar em mim onde eu não tremia, onde não sentia vergonha, onde os agentes da morte eram apenas fantasmas, onde a vida não dependia da presença ou ausência do campo. e devo isso ao jeremy.
transporto este homem nas minhas memórias como se carrega uma imagem abençoada.
e então, como é que ele desapareceu? não faço ideia. seja como for, sem um som, tal como apareceu.
um dia, alguém me disse que ele tinha morrido. isto aconteceu várias semanas após a nossa chegada ao campo. era o que acontecia com os homens naquele sítio. quase nunca sabíamos como. desapareciam em grande número duma assentada: ninguém tinha tempo ou sentia vontade de se debruçar sobre os pormenores do "como" da sua morte. deixávamo-los fundirem-se com a massa dos desaparecidos. havia um fundo consistente de morte em que todos participávamos mais ou menos, nós, os que estávamos vivos. a morte dos outros era de tal forma um assunto nosso que não tínhamos coragem de a olhar de frente.
não me lembro do "como" da partida do jeremy. lembro-me apenas de ele ter vindo ver-me, alguns dias antes, e dizer-me que seria a última vez. sem, de todo, assumir o tom de quem anuncia uma triste ocorrência, sem solenidade. simplesmente - esta era a última vez e por assim ser, ele tinha vindo comunicar-mo.
não creio que me tenha provocado dor, não deve ter sido doloroso. de facto não foi, porque era real e conhecido. ele tinha sido útil. tinha o direito de deixar este mundo, que tinha vivido em pleno.
tenho a plena noção de que me perguntarão: "o que é que vês de tão sobrenatural no teu soldador?!" ele deu-te um exemplo de serenidade numa altura em que essa qualidade era muito difícil de manter. é bom, mas é tudo. a paz interior do jeremy era o resultado de coragem e de uma constituição sólida!".
pois... não concordo! - não faríamos justiça ao valor do jeremy por esta apreciação.
o que chamo "sobrenatural" nele é a capacidade para romper com hábitos de que se foi claramente apercebendo em si. esses hábitos de julgamento que nos fazem classificar qualquer adversidade como "má", ou "infeliz", ou os hábitos de ganância que nos fazem odiar, querer vingar-nos ou, simplesmente, reclamar - outra forma incontornável, mesmo que menor, do ódio. os hábitos do nosso anestesiante egocentrismo que nos faz supor inocentes cada vez que sofremos. ele tinha escapado dessa rede de reacções compulsivas em que todos nos debatemos e era este movimento tão essencial que a resistência ou a boa saúde por si sós não podiam explicar.
ele tinha tocado o mais fundo de si próprio e libertado o sobrenatural ou, se a palavra vos incomodar, o essencial, aquilo que não depende de circunstância alguma, que pode existir em qualquer tempo ou lugar, na dor e no prazer. tinha encontrado a própria fonte da vida. se usei o termo "sobrenatural" foi porque a atitude do jeremy consubstancia a natureza do próprio acto religioso: ali residia a descoberta de deus, em cada pessoa, no mesmo grau, a cada momento, comprovando que o regresso a Ele pode tornar-se uma realidade.
esta era a "boa nova" que o jeremy, à sua maneira, humilde, relatava.
todos ganharíamos imenso se pudéssemos pôr a nossa memória em quarantena, pelo menos a memória banal, mesquinha e atrofiante, que nos leva a acreditar nesta ficção, neste mito: o passado
é essa memória que, de forma súbita e irracional, nos traz uma pessoa ou uma cadeia de acontecimentos que depois se instalam em nós. a imagem inscreve-se no ecran da nossa consciência, espalha-se e, pouco depois, apodera-se de tudo, começa a não existir mais nada senão ela. o movimento mental pára. o presente dispersa-se. os momentos seguintes já não têm poder de nos motivar, deixam de ter qualquer sabor. resumidamente, esta memória segrega melancolia, remorso, todas as formas de tensão e contradição internas.
felizmente, existe a outra memória, aquela a que, para mim, pertence o jeremy.
confesso que este homem me persegue. mas não sob a forma de lembrança. ele entrou na minha carne, nutre-me, continua a operar dentro de mim, mantendo-me vivo. na verdade, passo muito pouco tempo a pensar nele, dir-se-ía que é ele que me pensa.
para vos falar dele tive que vos falar de buchenwald. mas não se confundam: o jeremy nunca esteve "em buchenwald". eu encontrei-o lá em carne e osso. ele tinha um número de identificação. havia mais pessoas, além de mim que o conheciam. mas ele não se encontrava lá daquela maneira particular, exclusiva, individual que a expressão "ter estado em buchenwald" sugere.
a aventura de estar naquele campo foi apenas isso para ele: uma aventura. não lhe dizia respeito, num sentido mais fundamental.
há pessoas de que me lembro deixando simplesmente a "pequena memória" funcionar em mim. e essas pessoas ficam aí, nesse canto do cérebro onde as encontro. mas quando o jeremy fala comigo, fá-lo não tanto a partir do meu passado mas das profundezas do meu presente - ali mesmo: do centro. não o posso deslocar.
no fundo, as pessoas que nos ensinaram alguma coisa são todas assim, porque esta "coisa", este "conhecimento", esta ampliação de presença na vida é-nos facilitada pela noção intrínseca que essas pessoas têm de que nada disso lhes pertence. imaginem o jeremy feliz tal como acontece a qualquer outro ser humano ser feliz: por razões pessoais, devido a uma história de vida diferente das outras, preciosa e especial. pensam que se assim fosse ele teria permanecido na minha vida até hoje?
ele ter-se-ía juntado a esse rol de personagens pitorescas de que todos guardamos memória, figurantes que vão passando no teatro da vida. mas o jeremy não era feliz: ele transbordava plenitude e alegria essenciais. o bem estar de que disfrutava não era dele, ou antes, era dele mas por participação, era tanto dele quanto nosso.
este é o mistério e o poder desses seres que servem algo mais que as suas efémeras e limitadas personalidades: não conseguimos escapar-lhes.
nota: jacques lusseyran ficou cego aos 8 anos fruto de um incidente com um colega de carteira na escola. todo o relato anterior - nomeadamente a referência constante à "visão" - é feito a partir dessa condição. dirigia um dos núcleos da resistência francesa em paris quando foi preso e deportado para buchenwald
26/08/2011
03/07/2011
bliss

jung dizia que o homem criou a religião para se proteger de deus
no discurso de eric baret, a distinção entre prazer e alegria sugere que o psiquismo humano se serve do primeiro para se defender da segunda: o prazer como forma subtil de contracção (vizinha polar da dor) impede e vela a alegria
o prazer localiza, a alegria irradia em todas as direcções, sem centro
o prazer é periférico, projecta-se num objecto e só nele encontra sentido, a alegria é íntima e impessoal, recebe todos os objectos
no mesmo sentido, muitas escolas sistematizaram o yoga para se defenderem da sensibilidade. codificaram o corpo como estratégia de fuga à evidência - mentalmente aterradora - de que ele não existe, para lá do plano conceptual que constantemente o recria segundo o mesmo esquema
num sentido último, as escrituras são uma defesa que ruidosamente nos distancia do silêncio da tradição eterna, inscrita no éter
mas todos - religião, prazer, sistema de yoga ou de pensamento - só o são, enquanto tais, no instante em que os actualizamos mentalmente, pretendendo conferir-lhes uma forma que obscurece a sensibilidade profunda
sentir o perfume de silêncio que permeia a palavra sagrada, a alegria que o prazer mascara, a vacuidade onde corpo e asana ocorrem
form is emptiness /emptiness is form
the kena upanishad
that which cannot be
expressed in words
but by which the tongue speaks
"that" is brahman,
not the god people
worship in ignorance
"that" which does not
think by the brain
but by which the brain thinks,
"that" is brahman.
brahman is not the god
worshipped by men and women,
i assure you
that which does not see by the eye
but the power by which the eye sees
"that" is brahman,
not the god worshipped by the people
i assure you
that which does not
hear by the ear
but the power by which
the ear hears,
"that" alone is brahman,
not the god that men
and women adore,
i assure you
"that" which does not
breathe by the breath,
but the power by which
the breath is drawn,
"that" alone is brahman,
not the god that people praise,
i assure you
expressed in words
but by which the tongue speaks
"that" is brahman,
not the god people
worship in ignorance
"that" which does not
think by the brain
but by which the brain thinks,
"that" is brahman.
brahman is not the god
worshipped by men and women,
i assure you
that which does not see by the eye
but the power by which the eye sees
"that" is brahman,
not the god worshipped by the people
i assure you
that which does not
hear by the ear
but the power by which
the ear hears,
"that" alone is brahman,
not the god that men
and women adore,
i assure you
"that" which does not
breathe by the breath,
but the power by which
the breath is drawn,
"that" alone is brahman,
not the god that people praise,
i assure you
ça marche!
eric baret - de l'abandon (3)
sobre a ira
do ponto de vista último, nunca ninguém nos atacou e nunca alguém nos atacará. o vizinho que se nos dirige, irado, fala para si próprio
nunca ninguém nos falou, é impossível. cada um dirige-se à imagem que tem dos outros e que muda constantemente - darmo-nos conta de que cada um de nós apenas "soliloca"
quando nos apercebemos verdadeiramente de que nunca alguém nos falou, realizamos igualmente que nunca alguém nos amou, nem, portanto, agrediu. as pessoas projectam sobre nós o amor, ou o ódio, mas não fazendo mais que comunicar consigo próprias. neste estádio de consciência, deixamos de nos sentir afectados pelos monólogos que vão tendo lugar à nossa volta
profundamente, a agressão não existe. o outro não ataca. quando alguém está apaixonado por nós, não dizemos que essa pessoa nos ataca. quando alguém nos odeia, é como se estivesse, igualmente, apaixonado: essa pessoa olha-nos, sente-nos, escuta-nos, o que lhe dinamiza a vontade de nos acariciar ou de nos bater. os dois impulsos provêm do mesmo estado afectivo. a uns estimulamos o amor, a outros o ódio. passa-se o mesmo face aos animais...
ser afectado por um insulto é uma forma de infantilidade, torna-se impossível, com a maturidade. quando nos sentimos atacados há que agradecermos ao (suposto) atacante porque ele nos revela os nossos limites - se ainda nos é possível sentirmo-nos agredidos, fiquemos gratos à situação: ela demonstra-nos que persiste em nós uma fracção de não liberdade
geralmente não podemos, no entanto, passar de um hábito de reacção a uma disponibilidade não reactiva - falando aqui, naturalmente, de uma não reactividade psicológica: esta pode incluir um golpe de cotovelo, um soco, um insulto ou outro gesto qualquer, mas agimos por razões práticas, não porque fomos agredidos. a acção não provém, forçosamente, de uma reacção, ela pode ser um acto funcional
não somos postos em causa por um aluno que tenta perturbar a nossa aula, enquanto professores: podemos compreendê-lo perfeitamente nas suas razões, sem que isso nos obrigue a uma passividade. sentirmo-nos postos em causa por um aluno ou por uma chamada de atenção é uma fantasia que a certa altura se dissolve
inversamente, quando permanecemos formalmente neutros não há que pensar que nos tornamos passivos: trata-se do contrário! - a passividade está na reactividade, em que repetimos constantemente o mesmo esquema
esta visão não impede o movimento, a acção, mas eles deixam de ocorrer com base em resíduos psicológicos. passo a compreender, num simples instante, que o cão que me quer morder não é um cão mau. ele não tem escolha e eu também não. mas eu posso ver. em seguida, vou oferecer essa visão ao cão
cabe a mim libertar-me, o outro não tem nada com isso. se eu viver de facto essa libertação, até certo ponto vou ajudar o outro, não porque queira fazê-lo ou mo proponha como objectivo mas porque há uma ressonância que se faz, é o dinamismo da própria vida em curso. pensar que o outro deve mudar, que o cão não me deve morder, que o vizinho deve compreender que eu tenho razão, é entrar no imaginário
passo a minha vida a saber e a divulgar como é que os outros me devem ver e como é que eles devem ser. o outro vê-me e é consigo próprio segundo o seu ponto de vista e tem razão!
quando paramos de arrumar o mundo, deixamos os vizinhos tranquilos, ocupamo-nos de nós próprios porque constatamos que "nós próprios" não existe. os vizinhos e o mundo desaparecem enquanto problemas - eis os trabalhos de casa!
sobre os medos:
aquilo que eu passei anos a julgar como sendo o pior que me poderia acontecer é exactamente aquilo de que eu necessitava para me aperceber de que, afinal, vai tudo bem
doença, velhice, pobreza, abandono, solidão: aquilo que eu suponho ser o mais difícil, aquilo com que penso jamais poder confrontar-me, é justamente aquilo a que há que fazer face: é a minha saúde
enquanto não o vivo, transporto-o em mim. e esse medo impede-me de viver. enquanto reprimo a velhice, a doença, a pobreza, o abandono, eles perseguem-me constantemente. essa angústia fica presente, em filigrana, em todas as minhas actividades. assim que ela desperta um pouco mais, atiro-me de imediato numa nova actividade, para esquecer que ela me persegue. chega uma altura em que nos cansamos de fugir daquilo que nos parece terrível e aí abrimo-nos a todas as possibilidades
cada situação que se me apresenta é uma oportunidade de maturação, é a minha plenitude em direcção a si própria
tudo o que tentamos evitar, havemos de encontrar. para algumas pessoas isto é difícil de conceber, mas é garantido: tudo aquilo que tememos, na sua essência, vai acontecer... pelo que, chega um momento em que deixamos de ficar à espera, enfrentamos agora
(as crianças sabem-no bem, pela própria ressonância que nelas fazem as lendas, contos de fadas, dragões e monstros: são inevitáveis, não há escolha, vamos desviar-nos do caminho pelo nosso próprio pé e encontrar o lobo mau, mais cedo ou mais tarde. elas sabem também que o sapo afinal é príncipe, quando há coragem de beijá-lo - n. de t.)
trata-se de um pressentimento. temer alguma coisa significa que o pressentimos. é importante tomarmos consciência daquilo que nos amedronta visto tratar-se do melhor tratamento para nos apercebermos, igualmente, de que o medo não existe e de que somos livres. o nosso imaginário poderá representá-lo de maneira extremamente poética ou dramática mas, em todos os casos, aquilo que nos apavora é aquilo que temos necessidade de encontrar
tal não significa que o pensamento provoque as situações, não entremos nesses delírios e quimeras! - a única fantasia é o medo de qualquer coisa. quando estamos disponíveis tornamo-nos mais concretos: não nos projectamos num futuro, ficamos presentes à nossa ficção... e o imaginário não sobrevive, nunca sobrevive ao presente
claro que quando falamos de fazer face aos acontecimentos isto não quer dizer que se um bulldozer nos atingir não sejamos, de facto, atropelados. há situações que, sem dúvida, põem em causa a nossa integridade física, psíquica, financeira. aqui abordamos apenas o plano psicológico. qualquer que seja o nosso estado corporal ou mental, temos sempre a possibilidade de pressentir o silêncio, podemos estar presentes
a integridade física não é garantida pela tranquilidade nem esta existe para servir aquela
certos acontecimentos ultrapassam a nossa capacidade de integração. se um bulldozer nos atropelar, acabou-se! expostos a um ruído superior às nossa capacidades auditivas, os nossos tímpanos rebentam, uma explosão luminosa situada acima do nosso limiar de tolerância provoca-nos a cegueira. mesmo o assistir a um tipo de drama afectivo com o qual nos identifiquemos demasiado pode igualmente causar sequelas definitivas nesse plano. podemos ficar deprimidos uma vida inteira se, em certas circunstâncias, nos tomarmos por cidadãos de uma nacionalidade: depois de waterloo, alguns viveram décadas entristecidos sem conseguirem contornar esse sentimento. todas as identificações arrastam o seu rol de dramas
mas é agora que transportamos o conselho do tio ou da avó que sentimos ainda influir sobre a nossa forma de reagir a uma situação e é também agora que podemos deixá-lo caír. o passado não é passado
quando olhamos para um amigo, ele transporta na face a sua infância terna, difícil ou violenta, é perceptível nos seus olhos, na sua testa, nas maçãs do rosto. tudo o que habitualmente chamamos passado, vemo-lo no instante / agora. o médico experiente e competente quando olha para um corpo vê instantaneamente todo o seu passado, porém, será que ele vê "no passado"? - não, ele vê o presente. o passado é presente. a intensidade do presente contém todo o passado e todo o futuro
não há que temer a emoção. a tristeza, o ciúme, o desejo, fazem parte da vida. a partir do momento em que não somos destruídos pelas nossas emoções, também não nos sentimos obrigados a satisfazer os nossos desejos. eles podem surgir mas tornam-se uma forma de beleza, de ressonância, de conivência. quer a vida lhes responda ou não, sentimo-nos livres. não nos colocam qualquer problema. dormimos bem na mesma! deixamos de fabricar o que quer que seja para realizarmos os nossos desejos, pelo contrário, experimentamos um grande prazer no nada fazer
nada esperar torna o nosso desejo verdadeiramente poderoso, mágico. é difícil de formular mentalmente: é um desejo não pessoal, um desejo "cósmico". não é um desejo, é uma evidência. qualquer coisa está presente, deixamos que prossiga, "saímos da frente" (n. de t.) a vida vai concretizar as coisas
"aquele que conhece deus sabe que aquele que conhece é outro que não ele próprio"
abd el kader: le livre des haltes
as palavras "deus", "vida", etc, distanciam-nos da disponibilidade, remetam-nos para o exterior
daí que a tradição islâmica tenha recusado a formulação de tudo o que pudesse ser associado a deus. no sentido islâmico, deus é não associado, essa é a sua primeira (não) qualidade. o que quer que lhe associemos, nome, forma, não é ele, ele é a não associação. para os muçulmanos, todos os que tenham criado uma forma de deus são idólatras
mal compreendida, como na estupidez das religiões monoteístas, esta visão vai tender a impôr-se de forma exterior formal. na índia, essa atitude foi responsável pela destruição de inúmeras e maravilhosas formas de expressão, por parte do islão conquistador, desde as primeiras invasões muçulmanas até à decadência do período moghol: exemplo da religião em acção
a linguagem é pobre. como descrever o prazer que sentimos ao acariciar um cão, uma árvore ou um joelho? como contar a alguém a subtileza de um vinho, quando ele vibra no nosso palato, sobre a língua? um fogo de artifício, a vida, a beleza, estão para lá de toda a verbalização. a linguagem é demasiado vulgar para poder expressar o infinitamente rico, ela não é mais que uma imagem que indica uma direcção. a certa altura ela elimina-se - o pressentimento torna-se de tal forma poderoso que deixamos de poder nomear o que quer que seja
quando nos sentamos com um amigo, o que dizemos não é mais que pretexto, o que se passa é como uma dança. por vezes falamos, tocamos, mas não se trata mais que do aspecto mundano da situação, a verdadeira relação situa-se noutro plano, onde a palavra tem pouco lugar. se, a um nível intuitivo, algumas expressões surgem, porque não? - mas são como frases poéticas que transbordam do cérebro... nenhum livro nos pode dizer o que é o amor, a dança, a música, a pintura, o vinho...
excepcionalmente, alguns poetas souberam formular aquilo que ultrapassa a expressão. só é possível aceder a esse "lugar" em momentos de verdadeira tranquilidade. essa disponibilidade abre regiões do cérebro habitualmente inacessíveis - de onde brota a inspiração poética
quando ficámos sem comer durante dias a fio e alguém nos oferece comida esse momento não é de todo o ideal para distinguir a subtileza dos sabores: temos demasiada fome para tanto. para degustar um vinho, para apreciar alimentos, há que não ter sede nem fome
para apreciar plenamente uma situação ou saborear o aroma de o que quer que seja, há que estar livre face a eles
enquanto estivermos expectantes ou em cobrança, não podemos verdadeiramente tocar um corpo: pensamos tocar o outro mas não tocamos senão em nós próprios, encontramos a nossa própria problemática. quando deixamos de ter necessidade de tocar ou de ser tocados, acariciamos de outra forma, passa-se outra coisa
isto verifica-se a todos os níveis. enquanto continuamos a ter necessidade de qualquer coisa, essa coisa limita-nos. há que agir livremente, sem necessidade
sobre a dúvida:
a dúvida é a porta. tudo o que não é dúvida é história. não há mais nada senão dúvida. ao princípio, essa dúvida vai projectar-se sobre o mundo objectivo, "duvidamos de qualquer coisa". depois, a dúvida vai engolir o próprio objecto ao qual se referenciava. vai ficar apenas uma dúvida sem direcção, que é uma escuta
é importante ir deixando caír a objectivação da dúvida. a dúvida é a porta, é o não-saber. não é uma dúvida que projecta no futuro a obtenção de uma não-dúvida mas uma dúvida que se aniquila em mais dúvida. a dúvida deve ser uma verdadeira dúvida, que deixando de incidir sobre objectos duvida de si própria. quando perde a sua qualidade de dúvida resta uma disponibilidade
a dúvida é, já, energia que está a deixar de se dirigir excentricamente, que perde dinamismo para ir para fora. embora ela se oriente ainda para qualquer coisa, duvidamos mas vamos negligenciando aquilo de que duvidamos; vamos ficando apenas com a dúvida; qualquer coisa vai explodir... há que continuar a questionar tudo aquilo de que podemos duvidar, é legítimo. duvidamos do mundo objectivo: há que fazê-lo! a certa altura, surge-nos aquilo de que já não podemos duvidar. viver isso!
o que vai acontecendo não nos merece atenção. só o que não acontece, o que não depende de nenhuma causa, nos interessa. aquilo que não acontece não pode ser nomeado, não tem passado e não pode fazer parte da memória. tudo o que começa e termina, o que se refere a uma data, à história, não nos diz respeito: é decorativo. saber se uma experiência ocorreu ou não no tempo pertence à história. o que me ocorre tem lugar no "não-acontecimento"
é, por isso, fundamental, não atribuir o pressentimento à situação. seja ela qual for, devemos voltar sempre ao pressentimento original, a situação é sempre um pretexto: para uns é uma folha que cai, para outros uma paulada, ou um movimento vazio, uma palavra, um texto... não há nada na palavra, no texto, na paulada: tudo isso é anedota poética que aponta para aquilo que, em nós, é essencial
regressar, constantemente, a esta ressonância profunda. é o que há de mais elevado em nós. não depende de nada. se dependesse de o que quer que fosse, não nos interessaria. se nos fosse transmitida por quem quer que fosse, não a quereríamos. aquilo que nos pode ser dado não nos diz respeito. apenas nos interessa aquilo que não nos pode ser dado nem retirado, o resto é imaginário. daí que não haja ensinamento nem transmissão possíveis. apenas podemos transmitir conceitos
na nossa ressonância íntima, já não há deus, nem religião nem espiritualidade. não há conflito possível. fico disponível ao que recebo. disponível, mesmo, a certos momentos em que me sinto separado: há que aceitá-los também. a separação é uma expressão da não separação. esse sentimento de separação é-me dado como ressonância, devo encontrar aí o essencial. o silêncio encontra-se tanto na presença quanto na ausência, tanto na agitação como no silêncio. não preciso de estar em silêncio para estar em silêncio. corto pela raíz todo o dinamismo, toda a possibilidade de apropriação, de religiosidade
é uma religião sem codificação em que o instante é essencial - eis o âmago do yoga tântrico cachemiriano
sobre a responsabilidade:
na justa medida em que nos assumimos como uma entidade pessoal, há uma forma de responsabilidade. inversamente, quando realizamos a nossa total inexistência, não há responsabilidade possível
a responsabilidade não acontece no plano moral. mas o pensamento é energia: pensar que a nossa felicidade depende duma próxima mulher que nos vai aparecer, a um certo nível engendra um dinamismo. este dinamismo não fica encerrado no nosso corpo. somos co-criadores das diferentes vertentes da sociedade em que vivemos
o pensamento é criativo. então, a partir do momento em que pensamos, tornamo-nos responsáveis porque esse facto acarreta consequências. não se trata de uma responsabilidade moral mas energética. quando pisamos uma formiga, somos responsáveis, não significando isto que devêssemos não a pisar. se empurrarmos alguém na rua e, pelo facto, essa pessoa morrer, somos responsáveis
quando assumimos a nossa vida, gera-se uma forma de responsabilidade - não moral, mas funcional. daí que possa ser perfeitamente plausível que a sociedade nos ponha na prisão ou num pedestal
quando somos felizes, somos responsáveis pela felicidade que se propaga à nossa volta. quando somos infelizes, o mesmo. não significando que pudéssemos deixar de ser uma coisa ou a outra quando as vivemos ou que alguma qualidade moral caracterize a expressão de qualquer delas. mas de facto, quando, por exemplo, a tristeza nos invade, somos responsáveis pela difusão desse veneno à nossa volta
enquanto existe um ego a sentir-se responsável nós não somos, de todo, responsáveis, a responsabilidade que nos atribuimos é imaginária. é justamente quando nos apercebemos de que somos totalmente irresponsáveis que a responsabilidade emerge verdadeiramente. aí, assumimos a nossa responsabilidade, submetendo-nos às condições legais e civis da sociedade. e, aí, não há injustiça
não há injustiça possível, mesmo se deparamos com uma injustiça. o sentimento de injustiça resulta de uma visão fragmentária: o meu vizinho degola a vizinha e acusam-me de o ter feito; eu digo que a situação é injusta porque foi ele, não eu, quem cometeu esse acto. mas, a certa altura, dou-me conta de que não se trata de uma injustiça, os laços da vida são muito mais complexos que esse raciocínio simples
enquanto me imagino responsável, continuo irresponsável. é uma forma de pretensão. só quando consigo discernir a minha total irresponsabilidade é que me torno responsável, sem crítica, sem amargura, face à sociedade. é na completa ausência de qualquer forma de ética que a ética se torna possível. enquanto quero desenvolver um funcionamento ético, mantenho-me no imaginário: será sempre a minha ética e ela estará sempre em conflito com outras éticas
a verdadeira ética é sem conflito. sem nada a defender
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há que não procurar, nestes encontros, receitas de vida, esquemas de interpretação do mundo, estratégias de atingimento de estados imaginários de segurança, pela captação daquilo que é falado por uma via intelectual
tudo o que aqui foi exposto é facilmente refutável se for ouvido numa perspectiva categorizante e utilitária
do que aqui se passa poderá resultar, naturalmente, a abertura de espaços de ressonância não conceptuais em que a própria expressão que os desvelou se dissolve
ficar nesses espaços intermédios de ressonância
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do ponto de vista último, nunca ninguém nos atacou e nunca alguém nos atacará. o vizinho que se nos dirige, irado, fala para si próprio
nunca ninguém nos falou, é impossível. cada um dirige-se à imagem que tem dos outros e que muda constantemente - darmo-nos conta de que cada um de nós apenas "soliloca"
quando nos apercebemos verdadeiramente de que nunca alguém nos falou, realizamos igualmente que nunca alguém nos amou, nem, portanto, agrediu. as pessoas projectam sobre nós o amor, ou o ódio, mas não fazendo mais que comunicar consigo próprias. neste estádio de consciência, deixamos de nos sentir afectados pelos monólogos que vão tendo lugar à nossa volta
profundamente, a agressão não existe. o outro não ataca. quando alguém está apaixonado por nós, não dizemos que essa pessoa nos ataca. quando alguém nos odeia, é como se estivesse, igualmente, apaixonado: essa pessoa olha-nos, sente-nos, escuta-nos, o que lhe dinamiza a vontade de nos acariciar ou de nos bater. os dois impulsos provêm do mesmo estado afectivo. a uns estimulamos o amor, a outros o ódio. passa-se o mesmo face aos animais...
ser afectado por um insulto é uma forma de infantilidade, torna-se impossível, com a maturidade. quando nos sentimos atacados há que agradecermos ao (suposto) atacante porque ele nos revela os nossos limites - se ainda nos é possível sentirmo-nos agredidos, fiquemos gratos à situação: ela demonstra-nos que persiste em nós uma fracção de não liberdade
geralmente não podemos, no entanto, passar de um hábito de reacção a uma disponibilidade não reactiva - falando aqui, naturalmente, de uma não reactividade psicológica: esta pode incluir um golpe de cotovelo, um soco, um insulto ou outro gesto qualquer, mas agimos por razões práticas, não porque fomos agredidos. a acção não provém, forçosamente, de uma reacção, ela pode ser um acto funcional
não somos postos em causa por um aluno que tenta perturbar a nossa aula, enquanto professores: podemos compreendê-lo perfeitamente nas suas razões, sem que isso nos obrigue a uma passividade. sentirmo-nos postos em causa por um aluno ou por uma chamada de atenção é uma fantasia que a certa altura se dissolve
inversamente, quando permanecemos formalmente neutros não há que pensar que nos tornamos passivos: trata-se do contrário! - a passividade está na reactividade, em que repetimos constantemente o mesmo esquema
esta visão não impede o movimento, a acção, mas eles deixam de ocorrer com base em resíduos psicológicos. passo a compreender, num simples instante, que o cão que me quer morder não é um cão mau. ele não tem escolha e eu também não. mas eu posso ver. em seguida, vou oferecer essa visão ao cão
cabe a mim libertar-me, o outro não tem nada com isso. se eu viver de facto essa libertação, até certo ponto vou ajudar o outro, não porque queira fazê-lo ou mo proponha como objectivo mas porque há uma ressonância que se faz, é o dinamismo da própria vida em curso. pensar que o outro deve mudar, que o cão não me deve morder, que o vizinho deve compreender que eu tenho razão, é entrar no imaginário
passo a minha vida a saber e a divulgar como é que os outros me devem ver e como é que eles devem ser. o outro vê-me e é consigo próprio segundo o seu ponto de vista e tem razão!
quando paramos de arrumar o mundo, deixamos os vizinhos tranquilos, ocupamo-nos de nós próprios porque constatamos que "nós próprios" não existe. os vizinhos e o mundo desaparecem enquanto problemas - eis os trabalhos de casa!
sobre os medos:
aquilo que eu passei anos a julgar como sendo o pior que me poderia acontecer é exactamente aquilo de que eu necessitava para me aperceber de que, afinal, vai tudo bem
doença, velhice, pobreza, abandono, solidão: aquilo que eu suponho ser o mais difícil, aquilo com que penso jamais poder confrontar-me, é justamente aquilo a que há que fazer face: é a minha saúde
enquanto não o vivo, transporto-o em mim. e esse medo impede-me de viver. enquanto reprimo a velhice, a doença, a pobreza, o abandono, eles perseguem-me constantemente. essa angústia fica presente, em filigrana, em todas as minhas actividades. assim que ela desperta um pouco mais, atiro-me de imediato numa nova actividade, para esquecer que ela me persegue. chega uma altura em que nos cansamos de fugir daquilo que nos parece terrível e aí abrimo-nos a todas as possibilidades
cada situação que se me apresenta é uma oportunidade de maturação, é a minha plenitude em direcção a si própria
tudo o que tentamos evitar, havemos de encontrar. para algumas pessoas isto é difícil de conceber, mas é garantido: tudo aquilo que tememos, na sua essência, vai acontecer... pelo que, chega um momento em que deixamos de ficar à espera, enfrentamos agora
(as crianças sabem-no bem, pela própria ressonância que nelas fazem as lendas, contos de fadas, dragões e monstros: são inevitáveis, não há escolha, vamos desviar-nos do caminho pelo nosso próprio pé e encontrar o lobo mau, mais cedo ou mais tarde. elas sabem também que o sapo afinal é príncipe, quando há coragem de beijá-lo - n. de t.)
trata-se de um pressentimento. temer alguma coisa significa que o pressentimos. é importante tomarmos consciência daquilo que nos amedronta visto tratar-se do melhor tratamento para nos apercebermos, igualmente, de que o medo não existe e de que somos livres. o nosso imaginário poderá representá-lo de maneira extremamente poética ou dramática mas, em todos os casos, aquilo que nos apavora é aquilo que temos necessidade de encontrar
tal não significa que o pensamento provoque as situações, não entremos nesses delírios e quimeras! - a única fantasia é o medo de qualquer coisa. quando estamos disponíveis tornamo-nos mais concretos: não nos projectamos num futuro, ficamos presentes à nossa ficção... e o imaginário não sobrevive, nunca sobrevive ao presente
claro que quando falamos de fazer face aos acontecimentos isto não quer dizer que se um bulldozer nos atingir não sejamos, de facto, atropelados. há situações que, sem dúvida, põem em causa a nossa integridade física, psíquica, financeira. aqui abordamos apenas o plano psicológico. qualquer que seja o nosso estado corporal ou mental, temos sempre a possibilidade de pressentir o silêncio, podemos estar presentes
a integridade física não é garantida pela tranquilidade nem esta existe para servir aquela
certos acontecimentos ultrapassam a nossa capacidade de integração. se um bulldozer nos atropelar, acabou-se! expostos a um ruído superior às nossa capacidades auditivas, os nossos tímpanos rebentam, uma explosão luminosa situada acima do nosso limiar de tolerância provoca-nos a cegueira. mesmo o assistir a um tipo de drama afectivo com o qual nos identifiquemos demasiado pode igualmente causar sequelas definitivas nesse plano. podemos ficar deprimidos uma vida inteira se, em certas circunstâncias, nos tomarmos por cidadãos de uma nacionalidade: depois de waterloo, alguns viveram décadas entristecidos sem conseguirem contornar esse sentimento. todas as identificações arrastam o seu rol de dramas
mas é agora que transportamos o conselho do tio ou da avó que sentimos ainda influir sobre a nossa forma de reagir a uma situação e é também agora que podemos deixá-lo caír. o passado não é passado
quando olhamos para um amigo, ele transporta na face a sua infância terna, difícil ou violenta, é perceptível nos seus olhos, na sua testa, nas maçãs do rosto. tudo o que habitualmente chamamos passado, vemo-lo no instante / agora. o médico experiente e competente quando olha para um corpo vê instantaneamente todo o seu passado, porém, será que ele vê "no passado"? - não, ele vê o presente. o passado é presente. a intensidade do presente contém todo o passado e todo o futuro
não há que temer a emoção. a tristeza, o ciúme, o desejo, fazem parte da vida. a partir do momento em que não somos destruídos pelas nossas emoções, também não nos sentimos obrigados a satisfazer os nossos desejos. eles podem surgir mas tornam-se uma forma de beleza, de ressonância, de conivência. quer a vida lhes responda ou não, sentimo-nos livres. não nos colocam qualquer problema. dormimos bem na mesma! deixamos de fabricar o que quer que seja para realizarmos os nossos desejos, pelo contrário, experimentamos um grande prazer no nada fazer
nada esperar torna o nosso desejo verdadeiramente poderoso, mágico. é difícil de formular mentalmente: é um desejo não pessoal, um desejo "cósmico". não é um desejo, é uma evidência. qualquer coisa está presente, deixamos que prossiga, "saímos da frente" (n. de t.) a vida vai concretizar as coisas
"aquele que conhece deus sabe que aquele que conhece é outro que não ele próprio"
abd el kader: le livre des haltes
as palavras "deus", "vida", etc, distanciam-nos da disponibilidade, remetam-nos para o exterior
daí que a tradição islâmica tenha recusado a formulação de tudo o que pudesse ser associado a deus. no sentido islâmico, deus é não associado, essa é a sua primeira (não) qualidade. o que quer que lhe associemos, nome, forma, não é ele, ele é a não associação. para os muçulmanos, todos os que tenham criado uma forma de deus são idólatras
mal compreendida, como na estupidez das religiões monoteístas, esta visão vai tender a impôr-se de forma exterior formal. na índia, essa atitude foi responsável pela destruição de inúmeras e maravilhosas formas de expressão, por parte do islão conquistador, desde as primeiras invasões muçulmanas até à decadência do período moghol: exemplo da religião em acção
a linguagem é pobre. como descrever o prazer que sentimos ao acariciar um cão, uma árvore ou um joelho? como contar a alguém a subtileza de um vinho, quando ele vibra no nosso palato, sobre a língua? um fogo de artifício, a vida, a beleza, estão para lá de toda a verbalização. a linguagem é demasiado vulgar para poder expressar o infinitamente rico, ela não é mais que uma imagem que indica uma direcção. a certa altura ela elimina-se - o pressentimento torna-se de tal forma poderoso que deixamos de poder nomear o que quer que seja
quando nos sentamos com um amigo, o que dizemos não é mais que pretexto, o que se passa é como uma dança. por vezes falamos, tocamos, mas não se trata mais que do aspecto mundano da situação, a verdadeira relação situa-se noutro plano, onde a palavra tem pouco lugar. se, a um nível intuitivo, algumas expressões surgem, porque não? - mas são como frases poéticas que transbordam do cérebro... nenhum livro nos pode dizer o que é o amor, a dança, a música, a pintura, o vinho...
excepcionalmente, alguns poetas souberam formular aquilo que ultrapassa a expressão. só é possível aceder a esse "lugar" em momentos de verdadeira tranquilidade. essa disponibilidade abre regiões do cérebro habitualmente inacessíveis - de onde brota a inspiração poética
quando ficámos sem comer durante dias a fio e alguém nos oferece comida esse momento não é de todo o ideal para distinguir a subtileza dos sabores: temos demasiada fome para tanto. para degustar um vinho, para apreciar alimentos, há que não ter sede nem fome
para apreciar plenamente uma situação ou saborear o aroma de o que quer que seja, há que estar livre face a eles
enquanto estivermos expectantes ou em cobrança, não podemos verdadeiramente tocar um corpo: pensamos tocar o outro mas não tocamos senão em nós próprios, encontramos a nossa própria problemática. quando deixamos de ter necessidade de tocar ou de ser tocados, acariciamos de outra forma, passa-se outra coisa
isto verifica-se a todos os níveis. enquanto continuamos a ter necessidade de qualquer coisa, essa coisa limita-nos. há que agir livremente, sem necessidade
sobre a dúvida:
a dúvida é a porta. tudo o que não é dúvida é história. não há mais nada senão dúvida. ao princípio, essa dúvida vai projectar-se sobre o mundo objectivo, "duvidamos de qualquer coisa". depois, a dúvida vai engolir o próprio objecto ao qual se referenciava. vai ficar apenas uma dúvida sem direcção, que é uma escuta
é importante ir deixando caír a objectivação da dúvida. a dúvida é a porta, é o não-saber. não é uma dúvida que projecta no futuro a obtenção de uma não-dúvida mas uma dúvida que se aniquila em mais dúvida. a dúvida deve ser uma verdadeira dúvida, que deixando de incidir sobre objectos duvida de si própria. quando perde a sua qualidade de dúvida resta uma disponibilidade
a dúvida é, já, energia que está a deixar de se dirigir excentricamente, que perde dinamismo para ir para fora. embora ela se oriente ainda para qualquer coisa, duvidamos mas vamos negligenciando aquilo de que duvidamos; vamos ficando apenas com a dúvida; qualquer coisa vai explodir... há que continuar a questionar tudo aquilo de que podemos duvidar, é legítimo. duvidamos do mundo objectivo: há que fazê-lo! a certa altura, surge-nos aquilo de que já não podemos duvidar. viver isso!
o que vai acontecendo não nos merece atenção. só o que não acontece, o que não depende de nenhuma causa, nos interessa. aquilo que não acontece não pode ser nomeado, não tem passado e não pode fazer parte da memória. tudo o que começa e termina, o que se refere a uma data, à história, não nos diz respeito: é decorativo. saber se uma experiência ocorreu ou não no tempo pertence à história. o que me ocorre tem lugar no "não-acontecimento"
é, por isso, fundamental, não atribuir o pressentimento à situação. seja ela qual for, devemos voltar sempre ao pressentimento original, a situação é sempre um pretexto: para uns é uma folha que cai, para outros uma paulada, ou um movimento vazio, uma palavra, um texto... não há nada na palavra, no texto, na paulada: tudo isso é anedota poética que aponta para aquilo que, em nós, é essencial
regressar, constantemente, a esta ressonância profunda. é o que há de mais elevado em nós. não depende de nada. se dependesse de o que quer que fosse, não nos interessaria. se nos fosse transmitida por quem quer que fosse, não a quereríamos. aquilo que nos pode ser dado não nos diz respeito. apenas nos interessa aquilo que não nos pode ser dado nem retirado, o resto é imaginário. daí que não haja ensinamento nem transmissão possíveis. apenas podemos transmitir conceitos
na nossa ressonância íntima, já não há deus, nem religião nem espiritualidade. não há conflito possível. fico disponível ao que recebo. disponível, mesmo, a certos momentos em que me sinto separado: há que aceitá-los também. a separação é uma expressão da não separação. esse sentimento de separação é-me dado como ressonância, devo encontrar aí o essencial. o silêncio encontra-se tanto na presença quanto na ausência, tanto na agitação como no silêncio. não preciso de estar em silêncio para estar em silêncio. corto pela raíz todo o dinamismo, toda a possibilidade de apropriação, de religiosidade
é uma religião sem codificação em que o instante é essencial - eis o âmago do yoga tântrico cachemiriano
sobre a responsabilidade:
na justa medida em que nos assumimos como uma entidade pessoal, há uma forma de responsabilidade. inversamente, quando realizamos a nossa total inexistência, não há responsabilidade possível
a responsabilidade não acontece no plano moral. mas o pensamento é energia: pensar que a nossa felicidade depende duma próxima mulher que nos vai aparecer, a um certo nível engendra um dinamismo. este dinamismo não fica encerrado no nosso corpo. somos co-criadores das diferentes vertentes da sociedade em que vivemos
o pensamento é criativo. então, a partir do momento em que pensamos, tornamo-nos responsáveis porque esse facto acarreta consequências. não se trata de uma responsabilidade moral mas energética. quando pisamos uma formiga, somos responsáveis, não significando isto que devêssemos não a pisar. se empurrarmos alguém na rua e, pelo facto, essa pessoa morrer, somos responsáveis
quando assumimos a nossa vida, gera-se uma forma de responsabilidade - não moral, mas funcional. daí que possa ser perfeitamente plausível que a sociedade nos ponha na prisão ou num pedestal
quando somos felizes, somos responsáveis pela felicidade que se propaga à nossa volta. quando somos infelizes, o mesmo. não significando que pudéssemos deixar de ser uma coisa ou a outra quando as vivemos ou que alguma qualidade moral caracterize a expressão de qualquer delas. mas de facto, quando, por exemplo, a tristeza nos invade, somos responsáveis pela difusão desse veneno à nossa volta
enquanto existe um ego a sentir-se responsável nós não somos, de todo, responsáveis, a responsabilidade que nos atribuimos é imaginária. é justamente quando nos apercebemos de que somos totalmente irresponsáveis que a responsabilidade emerge verdadeiramente. aí, assumimos a nossa responsabilidade, submetendo-nos às condições legais e civis da sociedade. e, aí, não há injustiça
não há injustiça possível, mesmo se deparamos com uma injustiça. o sentimento de injustiça resulta de uma visão fragmentária: o meu vizinho degola a vizinha e acusam-me de o ter feito; eu digo que a situação é injusta porque foi ele, não eu, quem cometeu esse acto. mas, a certa altura, dou-me conta de que não se trata de uma injustiça, os laços da vida são muito mais complexos que esse raciocínio simples
enquanto me imagino responsável, continuo irresponsável. é uma forma de pretensão. só quando consigo discernir a minha total irresponsabilidade é que me torno responsável, sem crítica, sem amargura, face à sociedade. é na completa ausência de qualquer forma de ética que a ética se torna possível. enquanto quero desenvolver um funcionamento ético, mantenho-me no imaginário: será sempre a minha ética e ela estará sempre em conflito com outras éticas
a verdadeira ética é sem conflito. sem nada a defender
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há que não procurar, nestes encontros, receitas de vida, esquemas de interpretação do mundo, estratégias de atingimento de estados imaginários de segurança, pela captação daquilo que é falado por uma via intelectual
tudo o que aqui foi exposto é facilmente refutável se for ouvido numa perspectiva categorizante e utilitária
do que aqui se passa poderá resultar, naturalmente, a abertura de espaços de ressonância não conceptuais em que a própria expressão que os desvelou se dissolve
ficar nesses espaços intermédios de ressonância
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