23/06/2012

no começo do alto, alto vôo



                                    




triste sorte


ando na vida à procura
de uma noite menos escura
que traga luar do céu
de uma noite menos fria
em que não sinta a agonia
de um dia a mais que morreu


vou cantando amargurado
vou de um fado a outro fado
que fale de um fado meu
meu destino assim cantado
jamais pode ser mudado
porque do fado sou eu


ser fadista é triste sorte
que nos faz pensar na morte
e em tudo o que em nós morreu
é andar na vida à procura
de uma noite menos escura
que traga luar do céu


joão ferreira rosa

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a partir daí começa o alto, alto vôo

obdulia g.c.

oração





elis regina no teatro villaret (1978)


romaria


é de sonho e de pó
o destino de um só
feito eu, perdido em pensamentos
sobre o meu cavalo

é de laço e de nó
de gibeira o giló
dessa vida, cumprida
a sol

sou caipira pirapora nossa
senhora de aparecida
ilumina a mina escura e funda
o trem da minha vida

o meu pai foi peão
minha mãe solidão
meus irmãos perderam-se na vida
a custa de aventuras

descasei, joguei
investi, desisti
se há sorte, eu não sei
nunca vi

sou caipira pirapora nossa
senhora de aparecida
ilumina a mina escura e funda
o trem da minha vida

me disseram, porém
que eu viesse aqui
pra pedir de romaria e prece
paz nos desaventos

como eu não sei rezar
só queria mostrar
meu olhar, meu olhar
meu olhar

sou caipira pirapora nossa
senhora de aparecida
ilumina a mina escura e funda
o trem da minha vida


renato teixeira

contemplação




os olhos com que vejo deus são os mesmos olhos pelos quais deus me vê

meister eckhart

invocação





evoquemos o espaço vazio no nosso próprio corpo, em todas as direcções, simultaneamente

aí, para a mente livre da dualidade, tudo se torna espaço vazio: assente no espaço intermédio da respiração situada entre os caminhos da expiração e da inspiração ela funde-se com a sua fonte original

a posição estável que nesse ponto se revela é a verdadeira postura, no momento em que entregamos em oferenda ao fogo sacrificial esse receptáculo do grande vazio, o nosso próprio corpo: elementos, órgãos, objectos, a própria mente comprendida entre eles, eis a verdadeira oblação, na qual a consciência desempenha o papel de taça sacrificial

vijnana bhairava tantra

exortação

ítaca

quando partires de regresso a ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
ciclopes, lestrogónios, e mais monstros,
um poseidon irado - não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
ciclopes, lestrogónios, e outros monstros,
poseidon em fúria - nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

deves orar por uma viagem longa.
que sejam muitas as manhãs de verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas.
e vai ver as cidades do egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.

terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
mas não te apresses nunca na viagem.
é melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que ítaca te dê riquezas.

ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
sem ítaca, não terias partido.
mas ítaca não tem mais nada para dar-te.

por pobre que a descubras, ítaca não te traiu.
sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de ítaca.


constantin cavafy

(trad. jorge de sena)

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estamos todos a regressar

corão

sugestão

entrega sempre a tua beleza
sem cálculos, sem palavras,
calas-te.
e ela diz por ti: eu sou
e, com mil sentidos, chega,
chega finalmente a cada um


r.m.rilke

asserção

a via do amor não é
a das palavras rebuscadas

a porta para ele
é a devastação

os pássaros descrevem no céu
grandes círculos que celebram
a sua liberdade

como é que eles a aprendem?
caindo! - e, ao cairem,
ganham asas


jalal al-din rumi