16/07/2013

silogismos


loucura significa fugir à banalidade, ver mais longe, sentir mais intensamente

nós temos pena dos homens-robot quando eles têm pena de nós, homens-loucos

mas se somos nós os que vemos mais longe e sentimos mais intensamente

somos nós os que temos verdadeira consciência do porquê da nossa pena


t p

08/06/2013

focusing on water



água de histórias

uma história é como água
que aquecêssemos para um banho

transporta mensagens
entre o fogo e a nossa pele,
fá-los encontrarem-se e lava-nos!

poucos são os que conseguem
sentar-se no meio do próprio fogo
como uma salamandra ou abraão
- precisamos de intermediários

sensações de plenitude espreitam
mas faz-nos falta algum pão
para as trazermos

a beleza cerca-nos
e ainda assim, por vezes, é-nos necessário
passear num jardim para nos apercebermos dela

o próprio corpo em si é uma tela
que guarda, e em parte revela,
a luz que internamente fulge
por trás da nossa presença

água, histórias, corpo,
tudo o que fazemos, são mediadores
que ora escondem ora mostram
o que está oculto

estudemo-los,
disfrutando da limpeza que ocorre
por via deste segredo
que por vezes entendemos
e outras vezes não

jalalu'l-din rumi (trad. nc)

foto: tiago cunha

06/06/2013

this is the time and this is the record of the time



  




from the air

good evening, this is your captain
we are about to attempt a crash landing
please extinguish all cigarettes
place your tray tables in their
upright, locked position
your captain says: put your head on your knees
your captain says: put your head on your hands
captain says: put your hands on your head
put your hands on your hips, heh heh
this is your captain - and we are going down
we are all going down, together
and I said: uh oh, this is gonna be some day
standby
this is the time
and this is the record of the time
this is the time
and this is the record of the time

uh-this is your captain again
you know, i've got a funny feeling i've seen this all before
why? 'cause i'm a caveman
why? 'cause I've got eyes in the back of my head
Why? it's the heat
standby
this is the time
and this is the record of the time
this is the time
and this is the record of the time

put your hands over your eyes
jump out of the plane
there is no pilot
you are not alone
standby
this is the time
and this is the record of the time
this is the time
and this is the record of the time


laurie anderson
big science, 1982







o superman (for massenet)

o superman
o judge
o mom and dad
mom and dad

o superman
o judge
o mom and dad
mom and dad

hi! i'm not home right now, but if you want to leave a
message, just start talking at the sound of the tone

hello? this is your mother
are you there? are you coming home?

hello? is anybody home?
well, you don't know me, but I know you
and I've got a message to give to you

here come the planes
so you better get ready, ready to go
you can come as you are, but pay as you go
pay as you go

and i said: ok, who is this really?
and the voice said:
this is the hand, the hand that takes
this is the hand, the hand that takes
this is the hand, the hand that takes

here come the planes
they're american planes
made in america
smoking or non-smoking?

and the voice said: neither snow nor rain nor gloom
of night shall stay these couriers from the swift
completion of their appointed rounds.

'cause when love is gone, there's always justice
and when justice is gone, there's always force
and when force is gone, there's always mom - hi mom!

so hold me, mom, in your long arms
so hold me, mom, in your long arms
in your automatic arms
your electronic arms
in your arms
so hold me, mom, in your long arms
your petrochemical arms
your military arms
in your electronic arms


laurie anderson
big science, 1982








born, never asked


it was a large room
full of people
all kinds
and they had all arrived at the same building
at more or less the same time
and they were all free
and they were all asking themselves
the same question:
what is beyond that curtain?

you were born
and so you're free
so happy birthday



laurie anderson
big science, 1982

21/05/2013

satya 2




herzog: marc anthony, do you see a whole universe in this one single drop of water?

marc: i cannot hear what you say for the thunder of what you are


werner herzog - short dialoge from the documentary "the white diamond"

12/05/2013

marguerite yourcenar - sadhana 3



excertos do caderno de notas: "meditações num jardim"

(surgem na forma de exortação - o "outro", a quem se dirigem, assume o lugar de "alter-ego" da autora)
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aconselho-te a orar todas as manhãs ao despertares, e à tua maneira

dessa forma, sairás mais facilmente do sonho, se te for necessário

as minhas orações variam

acontece-me por vezes repetir a frase admirável do salmo: "este dia é um dia que o senhor fez"

pode também ser bom orar pelas criaturas que morreram ou sofreram enquanto dormias

quanto às "boas intenções", desconfia desses pavimentos escorregadios

coloca-te, antes, num estado em que não te sejam necessárias boas intenções
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fora destas ("boas intenções") considerar a simples reafirmação de propósitos, a recitação, por exemplo, dum sutra budista que tenhas adaptado à tua medida e para teu uso: "por muitas que sejam as minhas más inclinações vou combatê-las; por muito difícil que seja o estudo vou dedicar-me a ele; por muito inacessível que seja a sabedoria vou tentar atingi-la; por inumeráveis que sejam as criaturas no universo vou trabalhar para as salvar"

repete por vezes, ao longo do dia, separadamente, quando a ocasião surgir, uma ou outra destas afirmações

mas não recites nada mecanicamente, de pernas cruzadas no teu tapete

nem sempre és digna de formular tais afirmações, não ganhas nada em fazê-lo caso elas provenham da fadiga, da distracção ou apenas da superfície dos lábios

que elas se encontrem sempre, porém, impressas em ti
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disciplina do despertar

é belo sair do sono tal como saímos dum banho e realizarmos desde logo exercícios de maleabilização

que estes não degenerem, porém, numa exibição de rígida disciplina ou numa rigorosa domesticação de ti própria: se estiveres demasiado cansada para te pores de cabeça para baixo, renuncia à ideia - o teu corpo sabe melhor que tu o que lhe convém

em caso de doença ou fadiga extrema, algumas escolas recomendam a execução mental de exercícios físicos, com resultados notáveis

não julgues, porém, que estes exercícios mentais sejam isentos de esforço
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as pretensões dos yogins são extravagantes

mesmo que não o fossem, não te diriam respeito, de qualquer das formas: não te cabe esperar que "siddhis" sejam alcançados por via dos teus modestos esforços de principiante

não obstante, eles têm razão quando afirmam que qualquer indivíduo que se submeta, ainda que brevemente e com frágeis resultados, àqueles métodos físicos e mentais, será profundamente transformado por eles, pela descoberta da possibilidade de um equilíbrio mais seguro, pela tomada de consciência de forças para lá de si próprio

se se revela suficiente para chegar a este nível tão modesto, mas definitivamente adquirido, dedicar todas as manhãs alguns minutos à prática de exercícios psíquicos durante alguns anos, onde não poderá chegar aquele que lhes consagre uma boa parte da sua vida?

o yoga assemelha-se ao piano, onde não fazes mais que ir descodificando timidamente uma página de bach e, mesmo essa, numa versão simplificada, o que é já, aliás, uma grande conquista

sem tão pouco pretender com isto negar a existência de virtuosos
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no teu caso, e contrariando opiniões mais autorizadas, sugerir-te-ía que desconfiasses dos gurus

primeiro porque existem poucos e aqueles que se encontram acessíveis são, de nove em dez, charlatões ou medíocres

com excepção de que o acaso da vida te proporcione encontrar um mestre admirável, trabalha só

fazes as tuas orações sozinha, donde, podes também exercitar-te a sós

nestas práticas que ultrapassam a inteligência, tal como a inteligência é vulgarmente entendida, ela própria permanece, porém, o teu agente de controlo

não esqueças que um professor é também um espectador e que facilmente um desejo de performance e elementos de vaidade entram em jogo

mantém presente igualmente a noção do antagonismo quase inevitável entre mestre e discípulo

caso o teu mestre seja um oriental, pensa também na possibilidade de mal entendidos raciais e culturais, por muito boa vontade que adivinhemos, de parte a parte, no sentido de os contornar

na leitura dos textos e no estudo, a própria reflexão tem poder de afastar estes equívocos, os quais, frequentemente, no contacto directo, facilmente te podem trazer distracções irritantes

evita também a fácil - ainda que ligeira - ponta de exotismo que se pode insinuar em tudo isto

poupa-te, por fim, à desilusão face à prática ou ao estudo que te pode derivar do facto de ouvires um swami da moda que não está mais próximo de patanjali que um qualquer capucho estaria de francisco de assis, a tentar explicar de forma rudimentar os textos em causa, reduzindo-os a receitas infalíveis e obtusas, ou a debitar alguns lugares comuns que supõe adaptados à tua mentalidade "europeia" e "moderna"

à falta de melhor, cultiva-te a sós, tal como, na falta de um bom jardineiro, podes cuidar a sós do teu jardim
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praticar não significa imitar, dia após dia, flexão a flexão, posições sagradas que não tenham sentido para ti, nem recitar mantras impronunciáveis sem ressonância no mais profundo de ti próprio

tentar, no entanto, por uma vez praticá-los, por uma vez dizê-los, revelou-te músculos que não tinhas consciência de possuir, abriu-te portas
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qualquer exercício executado de forma puramente mecânica é destrutivo, mesmo que, inicialmente, os resultados possam parecer brilhantes
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sadhana constante, escuta perene

no jardim, as clematites, frágeis em petite plaisance, crescem vigorosamente pelo muro de pedra

saindo pela pequena porta junto ao portão da lua, saúdo o buda de bronze que ali se encontra

este toca a terra com uma das mãos e repousa a outra no seu manto monacal

desde que vim morar aqui fui mudando a minha forma ritual de lidar com ele: inicialmente colocava-lhe na mão uma pequena moeda de cobre, um pouco como a miúda que vi uma vez atirar uma moeda à fonte, e como eu própria fiz, em águas puras, em roma, inglaterra ou thingvellir na islândia

depois, por desagrado com a ideia da moeda, comecei a colocar uma flor ou uma folha, não colhida por mim (igual relutância em fazê-lo) mas apanhada de entre as que encontrava caídas na terra

hoje não havia nenhuma

não esquecer porém que somos simultaneamente aquele que oferece, a oferenda e aquele a quem tudo é oferecido

- e porque não mencionar aqui, tendo-me embrenhado um pouco mais profundamente no bosque, a satisfação de urinar? - o meu corpo sábio liberta-me deste líquido supérfluo, que escorre, tépido, por cima das agulhas de pinheiro, espécie de oferenda à terra à qual pertencerei um dia

... noção do quanto estes jardins tão belos, estas estátuas sentadas ou erguidas sob enormes árvores, saem dos poços de petróleo da família rockefeller, são o fruto duma concorrência selvagem; o quanto esta paz é produto do delírio de locomoção que contamina a terra

porém este canto de riqueza espiritualizou-se em parte, como a dos médicis ou a dos farnèse, convertida em mármore e manuscritos antigos

há que saber aceitar este pouco de bem que nasce do mal

seja como for, tentei descrever aqui esta manhã sem sombra

nirvana é samsara
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epílogo

esta tarde, sentada na varanda onde se tinha deitado sobre uma chaise-longue, quase escondida debaixo de um cobertor e tremendo de febre ouvi-a murmurar distintamente a palavra: "epílogo"

porquê epílogo? - perguntei, no tom mais brando e confluente possível com o dela

não sei. há a palavra prólogo. há a palavra epílogo

e foi tudo - voltou a caír no mesmo estado de semi-sonolência



trad. e adap. - nc

30/04/2013

marguerite yourcenar - sadhana 2



selecção de excertos e comentários (em itálico) de marguerite yourcenar sobre o tantrismo a partir de "l'yoga della potenza" de julius evola

para quem tenha acompanhado (ou queira consultar) os fragmentos sobre o pensamento de eric baret neste blog, esta resenha de comentários de yourcenar "polariza-os" igualmente, em alguns momentos, convidando a uma reflexão crítica sobre as asserções daquele

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carácter absoluto e orgânico da aspiração...

um discípulo pergunta ao seu mestre espiritual, junto de quem se banhava, quando chegaria, enfim, à realização (do "sadhana")

o mestre, como única resposta, mergulha-lhe a cabeça sob a água e mantém-lha ali até que ele, sentindo-se sufocar, se liberta e sai

aí, o mestre diz-lhe: "quando em ti a realização espiritual for uma necessidade tão profunda como aquela que te impulsionou há pouco na reafirmação da tua existência material, aí, e só aí, obterás resultados fecundos"
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fazer do controlo de si próprio uma disposição interior por forma a excluir, de forma fulminante, fluxos de ideias que possam engendrar, de alguma maneira, estados de dúvida ou de esperança...

a aceitar apenas neste contexto de prática heróica, visto haver momentos em que, pelo contrário, se torna indispensável acolher e estimular em si mesmo a dúvida, bem como, útil e são favorecer a esperança
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retardar as reacções

alguém dizia, com razão: "meço a energia de um ser pelo grau em que ele consegue suspender e temporizar uma reacção"

parece que no pitagorismo se aconselhava respirar três vezes profundamente antes de dar livre curso a uma reacção impulsiva que tenderia a manifestar-se de forma mais imediata

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constitui-se como disciplina no yoga budista a acção de captar primeiro como desagradável o agradável, depois como agradável o desagradável e, num terceiro tempo, conservar um ânimo igual perante o agradável e o desagradável
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não fazeres o que gostas mas o que te custa. tomar sempre, por princípio, a linha de maior resistência

(chamada de atenção relativa à substituição da felicidade que deriva da satisfação do desejo pela felicidade heróica)

psicologicamente, e deixando à parte a questão da orientação moral que igualmente se pode colocar, a grande dificuldade, em casos mais graves, está em saber onde se situa, para cada ser, a linha de maior resistência. o problema é mais complexo do que se poderia pensar, num primeiro momento

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exercitarmo-nos na ruptura com os nossos próprios hábitos, por forma a emanciparmo-nos do vínculo que constitui o seu automatismo

haverá, naturalmente, que fazer a distinção entre o hábito que representa mestria, aquisição, habilidade (como no pianista, no esquiador, etc) e aquele que denota uma qualidade densa e inerte, onde a vontade (sobre)vive dependente da acção passada. romper...

admiravelmente dito e muito útil

evola quase se equivoca ao colocar à parte os supostos bons hábitos do pianista e outros - o artista maior sabe romper com as habilidades adquiridas

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deveríamos ter por regra: permitirmo-nos tudo aquilo que sentimos que poderíamos igualmente deixar, a que saberíamos renunciar

(para que nos demos conta de a que ponto os modernos são homens apenas de nome, pensemos apenas no que representa para muitos deles o tabaco)
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não nos arrependermos de nada

simultaneamente verdadeiro e falso - na prática, tremendamente verdadeiro no sentido em que arrepender-se, para a maior parte das pessoas, é ainda uma forma masoquista de asserção de si próprio, uma ruminação mórbida sobre aquilo que foi

o arrependimento puro ocorre pela via duma completa mudança de direcção

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enuncia-se, em seguida, um princípio delicado e perigoso que estabelece que tal como a caridade pode ser uma disciplina a crueldade pode ser outra, particularmente para seres qualificados na busca da potência e do desenvolvimento mentais

é verdade que aqui apenas uma fronteira subtil e perigosa separa a verdadeira transcendência (das fraquezas humanas, da ordem moral habitual) daquilo que se revela como uma disposição inferior, inerte e instintiva
um mesmo acto pode provir de um eu endurecido, quase bestial, tal como pode revelar uma força e uma natureza libertas...

esta ressalva é insuficiente, antes de mais porque quase ninguém é capaz de avaliar de forma sã e lúcida as motivações dos seus próprios actos

numa acepção última, o risco de crueldade desvanecer-se-ía na medida em que um ser quase perfeito como um buda qualquer seria incapaz de ceder, ou, mesmo, de se colocar sequer a possibilidade de ceder a estes impulsos irreflectidos que podemos adequadamente qualificar como o "mal", e cuja crueza será, talvez, a pior
na imensa maioria dos casos, porém, o perigo torna-se, pelo contrário, mortalmente grave

a vertente malsã da asserção de evola parece associar-se sobretudo ao facto de que, duma forma muito evidente, a crueza se constitui nele como um pendor, uma inclinação, e ele aproveita todas as ocasiões para a afirmar doutrinalmente

o completo desprezo dos valores morais favorece este desregramento, porém, a ética tradicional tão pouco pode funcionar aqui como guarda ou protecção: foi evidentemente por razões supostamente morais que hitler ou conrad de marburg (inquisidor do século XIII) puderam acreditar que era legítimo exterminar os adversários da sua fé ou do seu grupo

há nos hermetistas do tipo de evola uma tendência, análoga à dos homens de ciência, que consiste em desenvolver a eficácia do instrumento (no que lhe respeita, neste caso, a ferramenta mental) com pouca inquietude relativamente à utilização possivelmente monstruosa que dele possa ser feita

(dito isto, a nota de evola conserva, ainda assim, o seu valor: basta pensar na aparente crueza do médico na cauterização duma chaga - e ainda assim, mesmo para o médico, subsiste o risco de que a crueldade se insinue sob a máscara do serviço...)

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como correctivo do endurecimento que possa derivar de tais disciplinas poderá ser útil habituarmo-nos a compreender o ensinamento oculto em tudo o que (adversidade, dor, sofrimento) nos pode atingir por razões contingentes... é um princípio basilar nos textos orientais que no plano duma qualquer disciplina específica nada disto seja evitado, antes entendido como suporte na "via", como um "guru" sui generis...

princípio importante, porém, contrariamente à intenção de evola, este exercício poderá acarretar um endurecimento ainda maior

a lacuna fundamental nestes elementos de evola são os princípios de humildade e amor cristãos, de simpatia e compaixão budistas, passíveis de impedir, autenticamente, eles sim, qualquer endurecimento, servindo simultaneamente, talvez de forma ainda mais eficaz do que o treino ascético, a transcender o plano meramente personalizado do indivíduo

evola prossegue, aqui, numa justeza admirável:


o objectivo é, precisamente, o oposto (do endurecimento estóico)

a lição do sofrimento e da adversidade deve sintetizar-se numa flexibilização, numa maleabilidade, na capacidade de estarmos presentes e activos mesmo quando uma força superior se impõe

capacidade de aceitar impessoalmente e compreender uma possibilidade ou direcção tanto quanto outra qualquer
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a impassibilidade fisionómica (akara maura): suprema mestria dos músculos faciais

se autenticamente espiritual, parece-me da ordem das coisas obtidas, não conquistadas, ainda que, no plano espiritual tudo seja simultaneamente (ou sucessivamente) obtido e conquistado, feito de disciplina e de graça

a aparência exterior de impassibilidade é já uma vitória da quietude

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renúncia: é absurdo pensarmos que nos seja possível dominar ou possuir alguma coisa, se nos colocarmos - pelo desejo que dela temos - num estado de passividade e de dependência

pelo contrário: é pela renúncia que a relação se altera, porque acedemos a um estado de auto-suficiência que inverte a polaridade do processo

a quem não pede será concedido
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purificar-se de: piedade

expressão de baixos instintos da parte de evola, naturalmente pouco inclinado para a piedade

tem, pelo menos, razão - e mesmo aí nem sempre - quando afirma:

"o primeiro ser face ao qual devemos ignorar a piedade é o eu próprio"

digamos antes que a infinita piedade deve ser controlada para ser eficaz e algo mais que apenas uma emoção, ou, no sentido básico da palavra, uma paixão - piedade controlada do médico

mas, ainda aqui, nunca serão demais as precauções no sentido de evitar que esta piedade fria se torne desumanidade: o grande inquisidor que condena os seus hereges imagina que os manda queimar por caridade
a piedade controlada na pessoa de um fanático conduz à atrocidade, pura e simples

não somos suficientemente piedosos face a um ser enquanto não velamos pelo seu bem-estar físico tanto quanto pelo seu bem-estar moral



trad. e adap. - nc