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josé tolentino de mendonça / maio 2011
(transcrição por nc)
queria evocar uma imagem que penso que todos conhecem, da série "pinturas negras", do pintor francisco goya - aquela imagem, sem título, de um cão que numa colina, do outro lado, apenas tem o focinho de fora, levantado e as imagens do cão e da colina são relativamente baixas no conjunto da pintura e de repente temos uma imensidão de céu, de vazio, de silêncio e a imagem é extraordinariamente enigmática porque não se sabe porque é que o cão está ali, é como se o cão estivesse a farejar, a pressentir, a adivinhar, a rezar o próprio silêncio, o silêncio de deus, o silêncio do mundo, numa atitude de absoluto espanto é um cão metafísico que não deixa de entusiasmar e tocar aqueles que contactam com essa imagem
queria ir buscar essa imagem do cão de goya para pensarmos que, ao contrário dos animais (o cão de goya será uma excepção) aquela imagem marca-nos tanto porque nos projectamos naquela imagética - os animais são capazes de fazer fronteira no território, são capazes de demarcar o seu espaço, de lutar por ele, pacificamente, cordialmente ou, até, com alguma violência ou com grande violência. mas os seres humanos são os únicos animais, as únicas criaturas que dão um sentido diferente à palavra fronteira
"fronteira", etimologicamente, quer dizer "ter diante", "ter defronte", ter um "em frente" e os seres humanos não apenas marcam o território, não apenas estabelecem muros para dizerem "isto é meu!", "isto pertence-me!", não apenas erguemos paredes, e quintais, e sebes, mas nós somos capazes de viver tendo um "defronte" tendo um "diante de nós", tendo algo, ou alguém, que nos olha olhos nos olhos, tendo um tempo que nos transcende e nos interpela, nos interroga, somos aqueles que são capazes, mais profundamente, da expectativa e da espera
em outubro passado, estas conferências foram abertas por frei josé augusto mourão, numa conferência extraordinária que entretanto as irmãs publicaram intitulada "a estética na fronteira da experiência de deus". não sabíamos que no final destas conferências ele já não estaria connosco, ou estaria de outra forma... sabemos, no entanto, que ele continua diante de nós, como "fronteira", como "defronte", como "diante", como desafio e, nesta meditação de encerramento, eu queria pegar no seu testemunho e queria começar onde ele acabou. lendo a conferência do frei josé augusto mourão - "a estética na fronteira da experiência de deus" - constatamos que, no final, ele nos deixa três palavras, que ele não nomeia mas na leitura entendemos que ele está a declinar três nomes, e é em relação a esses três nomes que eu queria articular a minha reflexão de hoje convosco. os nomes são: vigiar, negociar e passar. no fundo em torno a estes três nomes eu queria que pensássemos a questão da fronteira - linha do fim ou linha do começo?
a primeira palavra: a palavra vigiar. diz josé augusto mourão: habitar, permanecer, construir, são apenas estações a meio da viagem. a arte, para pascal, só tem sentido se faz de nós "vigilantes". então, a grande arte não é a habitação, não é a morada, não é termos construído, no aqui e no agora, um espaço nosso, um ponto fixo, um lugar de observação, a verdadeira arte é perceber que a beleza espiritual não se identifica completamente com nenhuma oração, mas alimenta-se dela e conduz-nos a ela. que o olhar do orante não se fixa completamente num ponto do visível mas, pelo contrário, ele aceita que a própria peregrinação é que é o sacramento do invisível. ele não pretende fixar-se numa experiência de deleite mas procura continuamente viver na abertura. e a vigilância é que nos torna nómadas, é que nos torna peregrinos. a primeira atitude é, por isso, a da vigilância - "vigiai!" - os padres do deserto diziam "o maior dos pecados é a distracção", ou então o que dizia abba poemen, "o início de todos os nossos males é não escutarmos!"
a escuta, a vigilância, a atenção, como o início, eu diria, como a fronteira da viagem espiritual autêntica, da viagem humana fecunda, nós somos chamados a uma vigilância, a uma atenção. e essa vigilância é uma forma de resistência. nós vivemos num mundo que nos atropela continuamente pela quantidade e pela velocidade. as imagens que vemos são também imagens que nos devoram, que nos obsidiam, que nos tornam obsessivos delas próprias. e na sobreposição dos próprios discursos, das palavras, dos gestos, tantas vezes não somos capazes de contrariar a banalização. quantos dos nossos gestos são lugares de invenção, quanta da nossa gestualidade dá a ver o inédito, dá a ver aquilo diante do que estamos e não simplesmente o aprendido, e não simplesmente aquilo que já transportamos, aquilo que já visitamos?
num mundo marcado pelo excesso de signos, nós vivemos numa pobreza simbólica. e vivemos numa pobreza simbólica porque perdemos a capacidade de ver. de ver! aquilo que, por exemplo, em alberto caeiro se torna a pedagogia da própria vida. o verbo mais importante é o verbo ver. e para ver não basta olhar, não basta transpor os nossos olhos, a nossa observação, para o outro lado da janela. avisa fernando pessoa: "é preciso não ter filosofia nenhuma", isto é, é preciso uma arte do desaprender, é preciso um desnudamento, é preciso que as nossas armaduras caiam, é preciso o desprendimento daquilo que é o nosso saber, daquilo que é o nosso ver rotineiro, para autenticamente vigiar. só o pobre vigia. só o peregrino vê. só o olhar que não tem defesa é capaz de colher, no instante, a verdadeira presença. porque senão nós andamos nos nosso circuitos sonâmbulos e não temos capacidade de vigiar.
voltar à vigilância, voltar à atenção, voltar àquilo que o automatismo da própria existência como que nos impede, isto é, voltar à vocação do gesto, à vocação da palavra, à vocação do silêncio. e sentir que a vocação do nosso gesto, do nosso silêncio e da nossa palavra é impregnar o mundo de sentido, é entreabrir o mundo. há uma atitude de resistência a uma tomada de decisão que é fundamental no acto de vigiar. vigiar é colocar-se nesta disponibilidade para a surpresa, para aquilo que vem, tendo consciência de que o fundamental da vida não é o que nós adquirimos, não é o que nós fazemos, não é o que nós sabemos, mas é o acto de escuta.
toda a música que nós ouvimos nos preparou, no fundo, para o acto da escuta. toda a poesia que nós lemos, todos os textos que nós estudámos nos prepararam para o acto da leitura. toda a ternura que nós partilhámos, toda a relação em que investimos, todo o amor com que amámos, prepara-nos para o acto de amar, para o acto de acolher.
a vigilância é isso: não o apego ao mapa, mas o amor pela viagem. não temos que estar prisioneiros dos mapas que temos mas temos que nos tornar viajantes, enamorados, vigilantes, amantes, sentinelas. sentinelas! - aquilo a que somos chamados não é a habitar no conforto de uma morada, porque as nossas moradas são relativas e as casas tornam-se prisões, se não temos capacidade de fazer delas pontos de partida e pontos de chegada. as casas e aquilo que elas simbolizam, podem sequestrar-nos, isto é, os pontos imóveis num percurso como o da nossa vida que é, necessariamente, imóvel. por isso, mais do que a morada, nós temos que amar a própria viagem, a própria vigilância, a própria disponibilidade para subir ao nosso telhado, para subirmos aos nossos muros, e aí sermos uma espécie de grandes sensores da história, de novos captadores do real, de alguém que vive numa escuta que não é apenas a escuta do ruído e daquilo que é mais fácil de ouvir em redor de nós mas sermos capazes de uma escuta que atravesse o tempo, que atravesse os séculos, que atravesse a própria paisagem e sintonize com aquilo que verdadeiramente nós temos diante de nós - qual é a nossa fronteira, o que é que nos olha de frente, o que é que temos diante de nós? - e a capacidade de vivermos como sentinelas.
a bíblia, através dos profetas, sobretudo no profeta isaías usa muito a imagem do "sentinela da aurora" - é uma belíssima imagem para descrever a função crente - a função das mulheres e dos homens crentes é serem sentinelas da aurora, isto é, sinalizarem a emergência da luz, o processo de construção, de gestação da própria luz no interior da história
e àquela pergunta que os homens nos fazem: "a que ponto estamos da noite?" - nós temos que ser capazes de ousar uma resposta. a que ponto estou da noite? - no fundo, a grande pergunta que os homens fazem aos crentes é esta - o que é que eu posso esperar? o que é que eu posso esperar? - isto é, a que ponto estou da noite? o que é que vem a seguir? qual é a fronteira? ilumina-me a fronteira!
as mulheres e os homens crentes têm que ser capazes de iluminar a fronteira. e isto só acontece de se de facto ficarmos como sensores, radares, detectores, daquilo que vem. de facto se aceitarmos aquela palavra tão exacta que josé augusto mourão diz: "o mundo não é feito de formas estáveis mas apenas de linhas da frente". o mundo é feito de linhas da frente, numa história de combate e de amor. numa história de resistência e de dádiva. numa história de combate e de dança, e de entrega, e de oferta. mas a vida são linhas da frente e, de facto, se nós pensássemos assim o nosso quotidiano, as nossas vivências, a nossa vida, não enchíamos tanto as horas de pesadelos, de temores, de receios, de medos, de indiferenças, não tínhamos necessidade de nos vestirmos tanto de armaduras, porque percebíamos que a vida é isso: a vida são essas linhas da frente e nós somos os sentinelas. somos as sentinelas!
um dos textos que josé augusto mourão traduziu para português foi a pequena antologia do místico angelus silesius "a rosa é sem porquê". e esse apotegma de angelus silesius que sabemos quase de memória, diz " a rosa é sem porquê, floresce porque floresce, não cuida de si própria, não pergunta se a vemos".
na introdução, frei josé augusto mourão tenta reflectir no significado desta expressão - "a rosa é sem porquê". e ele toma para meditar o genitivo "de", na fórmula "a rosa é de..." " a rosa é de ninguém". dizer "a rosa é sem porquê" é dizer "a rosa é de ninguém". mas se nós aceitamos isto, "a rosa é sem porquê", " a rosa é de ninguém". então temos que perguntar, honestamente, "então de que é que vale o genitivo?" de que é que vale este "de", a preposição que assinala o possessivo, que assinala a pertença?
ele diz: aqui, o "de" passa a sinalizar uma cultura nova, que já não é aquela que parece quase obrigatória, que liga o predador e a presa. isto é, quando dizemos: "a rosa é sem porquê" ou "a rosa é de ninguém", investimos num modo de construir o real que já não passa por sermos predadores e o real ser uma presa que eu vou dominar. há um outro espaço que se abre, há um outro espaço que se abre. um espaço talvez indefinível, talvez do não dito ou talvez mesmo do indizível, do invisível. mas é esse espaço outro, esse espaço já não de predadores e de presas que nós, na vigilância, somos chamados a pensar, ver, contemplar - rasgar o olhar, viver do assombro, alimentar-se da visão
quando, continuamente, os textos bíblicos nos desafiam às visões, não é para nos tornarmos visionários, termos uma visão disto ou uma visão daquilo, é para nos alimentarmos da visão, isto é, do acto de ver, do acto de observar a espantosa realidade das coisas, como o alberto caeiro dizia. por isso, o primeiro verbo é o vigiar, e percebemos como o vigiar nos obriga a uma conversão, nos obriga a uma transformação da nossa atitude, do nosso estar, daquilo que queremos para a vida, daquilo que buscamos.
o segundo verbo é o verbo negociar. negociar! e no final da sua conferência frei josé augusto mourão afirmava uma coisa muito interessante, um desafio, quase um apotegma, como tantas vezes ele usava, quase um enigma, quando dizia: "o que os biólogos marinhos, a indústria de peixe e os contadores de mitos partilham é realmente isto: ninguém sabe realmente o que é um peixe!" e quer através da ciência, quer através da técnica, quer através da poesia, quer através do amor e nós podemos dizer "quer através da fé", todos chegamos a esta conclusão: ninguém sabe realmente o que é um peixe!
ninguém sabe realmente o que é uma mulher, o que é um homem, o que é um crente, o que é uma árvore, o que é uma palavra, o que é um silêncio, ninguém sabe, realmente. e se nós aceitamos que não sabemos, então temos que tirar daí uma ilação: e a ilação é a capacidade, ou o risco, de trocar o conhecimento pela negociação. em vez de acharmos que já conhecemos, dizermos: "não, eu não conheço, eu não sei o que é um peixe!". então como é que eu me posso avizinhar de um peixe? - negociando! - isto é, querendo aprender, ouvindo, tentando estabelecer um pacto, um acordo, uma aliança, não a partir das minhas etiquetas, do meu saber, da minha teoria, mas sim a partir da epifania da própria realidade, a partir daquilo que é novo a cada instante.
e há também, sobre peixes, aquele conto extraordinário de herberto hélder que diz que um pintor está a pintar um peixe no aquário, e o peixe é encarnado. ele começa a pintar um peixe encarnado. e enquanto pinta, ele percebe que o peixe se tornou verde. apaga o encarnado e substitui-o por verde. mas quando ele está quase a acabar o verde, percebe que o peixe se tornou azul. ele então começou a meditar nisto e sem olhar para o peixe pintou-o de amarelo.
isto é a negociação - partir não apenas do que eu vejo neste momento, porque o que eu vejo neste momento é apenas uma etapa, é uma estação, é um momento, é um instante. eu tenho é de antecipar, a negociação é também uma antecipação do próprio ciclo, do próprio fluxo, do mistério do próprio tempo. isso é negociar, porque isso é ouvir aquilo que é novo a cada momento.
porque, não tenhamos dúvidas, nós estamos rodeados de perguntas, porque nós somos uma pergunta. aquilo que santo agostinho dizia: "magna questio factus sun mi" - tornei-me para mim mesmo uma grande pergunta. nós somos o "homo absconditus" não há apenas o deus absconditus, o deus escondido, nós somos o homo absconditus, a mulher e o homem escondidos, enigmáticos, o enigma faz parte da nossa própria vida. e não é o enigma a desventura, e não é o enigma o limite - o enigma é a possibilidade, como a fronteira, aquilo que está diante de mim, é a possibilidade. por isso, nós sabemos que nas nossas vidas o enigma não pode ser abolido, o enigma não se desfaz.
nós somos um segredo que, mesmo dito, continua a ser um segredo
o enigma não se desfaz. e não se desfaz pela racionalidade como por vezes se pensa. basta lembrar aquilo que dizia pascal, "o coração tem razões que a razão desconhece", isto é, há dimensões da existência que não são explicáveis, que não são da ordem da razão, cujo sentido não se consegue compreender através de um silogismo ou da matemática. há muito mundo que a ciência não consegue explicar, em cujo interior não tem ferramentas para mergulhar.
mas nem pela afectividade muitas vezes nós conseguimos desfazer o enigma. há que contrariar o mito da fusionalidade. os grandes mitos do amor, (é impressionante meditarmos nele) são mitos de procura de amor, de desejo de amor, não são histórias de fusão, porque não há a fusão, há a ilusão, há o desejo de uma fusão, isto é, de uma perfeição, de uma equivalência, de uma reciprocidade sem ângulos, sem fissuras, sem agastes, isso não existe, não existe.
a afectividade torna-se fecunda quando abraça o enigma, quando abraça a pergunta. se a afectividade tenta desfazer a pergunta, embate contra, digamos, a impossibilidade, acaba por se desfazer. na afectividade é preciso não temer o silêncio e amar o próprio silêncio, abraçar o próprio silêncio, porque o mito fusional é um mito impossível. basta pensar no mito de orfeu e eurídice, é impossível. o amor é feito de procura, o amor é feito de atenção. e por vezes há coincidências, por vezes há essa fusão, mas essa fusão não é uma coisa em si mesma, são pontos para intensificar a própria demanda, a própria abertura de coração.
como também a acção não desfaz o enigma, a ilusão das ideologias que nós vivemos no século XX mostrou-nos claramente que há muito para perceber acerca da pessoa humana, acerca daquilo que pode ser a nossa vida comum, e as ideologias, no fundo, acabam por ser todas redutoras, por isso mostraram toda a sua falência, todos os seus equívocos.
o mesmo se pode dizer da técnica. a técnica, também, só por si, não desfaz o enigma. veja-se o desespero do consumismo, o comprar, o adquirir, o último modelo, o último aparelho - o triunfo da própria técnica cria uma ilusão de felicidade que não passa disso, não passa de uma bolha. porque o enigma, a procura, continuam.
e o mesmo se pode dizer da própria fé. a fé não abole o enigma, a fé não resolve, a fé não é uma resposta. como nos diz claramente o livro do êxodo, (êxodo 33/21) "deus habita na nuvem", "deus habita na coluna de sombra", isto é, deus não habita a transparência mas deus habita aquilo que eu não vejo. e, por isso, é no interior da experiência da fé que eu sou chamado a viver a transcendência como uma forma de pobreza, em relação ao meu desejo, às minhas representações. no fundo, eu tenho que não desejar ser salvo, aceitar perder-me, só quem aceita perder-se é que vai encontrar, e este aceitar perder-se, no fundo, é aceitar perder o próprio deus.
aquele passo de angelus silesius que o frei josé augusto mourão traduziu: "onde é a minha morada? - onde eu e tu não estamos!" "onde é o fim último para o qual devo tender? - onde nenhum fim se encontra!" "onde devo ir então? - tenho de ir para além de deus, para um deserto"
o crente sabe que tem de ir para além de deus. nem deus é a última fronteira - nós precisamos de transcender o conhecimento de deus porque o conhecimento de deus ainda não é deus. o conhecimento de deus muitas vezes é um obstáculo ao encontro com o próprio deus. eu tenho que transcender o meu próprio conhecimento, aquilo que sei, para tocar o próprio deus
vem nesse sentido, aquele texto medieval tão importante na espiritualidade cristã, "a nuvem do não saber" - a espiritualidade cristã nasce do não saber
que ilacões podemos então tirar? - se eu não sei, se é o não saber que me é dado viver, eu tenho de negociar. e o que é negociar? negociar, eu diria, é aceitar duas coisas:
- primeiro, aceitar uma espiritualidade do provisório e cito o irmão roger, que escreveu tão liminarmente, de forma tão lapidar, sobre a teologia do provisório - "o provisório é aceitar ir de começo em começo" - aceitar a peregrinação, a desinstalação, isto é, aceitar que eu não vou construir aqui uma casa de pedra, que eu não vou construir aqui uma coisa para sempre.
aceitar o provisório é aceitar que o que eu vivo é uma parábola, que eu não vou viver uma história que vai ser contada e que vai ter uma validade universal, mas que eu posso contar uma parábola, que eu posso viver criando uma metáfora, criando uma imagem, criando um "como se", aceitando o provisório, aceitando a pobreza do provisório, aceitando não partir da certeza sempre mas muitas vezes partir da incerteza, não partir quando tenho já todas as coisas garantidas mas partir na confiança, dar valor aos pequenos passos, dar valor àquilo que tenho realmente. essa é uma espiritualidade do provisório.
- um outro ponto é um percurso de reconhecimento - negociar é fazer um percurso de reconhecimento. e aqui, cito aquilo que diz paul ricoeur, que entreabre o sentido da palavra "reconhecimento" - que, também no francês, tal como no português, tem dois significados - o que é reconhecer? reconhecer é identificar. e, numa negociação, eu tenho que identificar, isto é, tenho que saber quem é o outro, realmente. tenho de ouvir, tenho de ver, tenho de escutar, não o que eu ouvi dizer mas o que eu escuto, não o que eu conheci mas o que eu conheço, o que eu vejo. há um processo, uma dinâmica de identificação, de descoberta da identidade.
mas o reconhecimento, para nós, é, também, a gratidão, isto é, é também "colocar-me numa economia do dom" como dizia paul ricoeur - perceber que o outro é um dom, perceber que há uma dinâmica de dádiva que me liga ao outro. e, no fundo, o percurso do reconhecimento culmina no momento da gratidão, no momento em que eu digo obrigado por este, obrigado por esta, obrigado por isto. esse é o grande momento da negociação, quando eu da identidade passo ao dom e à economia do dom.
isto é negociar e nós precisamos de colocar o negociar no centro da nossa vida, do nosso agir, das nossas construções, da pulsão do nosso quotidiano
penso que nestas três palavras, "vigiar", "negociar" "passar", nós temos muito da herança de josé augusto mourão e da oferta de si que ele nos faz.
passo então ao último dos termos, que é este "passar" - diz ainda, na sua conferência, frei josé augusto: "todas as fixações teológicas de deus fazem-nos ajoelhar diante do altares, diante dos templos e diante dos livros" - e ele diz isto não como uma coisa boa, diz isto como uma insuficiência, isto é, se eu estou apenas ajoelhado diante do altar ou diante do livro ou diante do templo, eu ainda não estou diante de deus, não estou diante do defronte, "diante do diante", diante da verdadeira fronteira que me olha.
então de que é que eu preciso? eu preciso de viver o "entre" - o "entre" é o que faz viver. e o "entre", acontece na passagem .
escreve ele: "há transformações silenciosas que fazem o seu caminho em nós, que se infiltram, se ramificam e deixam levemente no corpo as marcas da sua passagem - esta é a passagem de deus por nós.
toda a linguagem é inadequada, são apenas traços, seja a súplica, seja a cognição, seja a adoração. o verdadeiro modo da experiência de deus é a passagem
esta é de facto uma das grandes intuições de josé augusto mourão, dizer deus na passagem, colher deus e colhermo-nos a nós próprios, na passagem
há um poema de alberto caeiro que eu gostava de trazer aqui esta tarde, que diz assim: "antes o voo da ave que passa e não deixa rasto que a passagem do animal que fica lembrada no chão. a ave passa e esquece, e assim deve ser. o animal, onde já não está - e por isso de nada serve - mostra que já esteve - o que não serve para nada. a recordação é uma traição à natureza, porque a natureza de ontem não é a natureza, o que foi não é nada e lembrar é não ver"
depois, o poema termina com uma oração:
"passa ave, passa, e ensina-me a passar"
alberto caeiro cria uma espécie de dialéctica entre a ave e o animal que avança sobre a terra. o deixar rastro é deixar uma marca apenas lembrada no chão, uma imagem fixa, imóvel, que já não serve porque lembra o que foi, porque lembra o que esteve, porque, como ele diz, a recordação é uma traição. se nos prende, se nos sequestra num determinado momento do passado e não percebemos que a verdadeira recordação é a passagem, a verdadeira homenagem é a dinâmica da ponte, é o fluir permanente, é não interromper, é acreditar, é esperançar, esperançar no fluir, naquilo que é a própria vida entre margens, de margem para margem, aquilo que é a própria vida no "entre", que o entre seja o nosso pacto, seja o lugar do nosso compromisso, seja o lugar onde banhamos o nosso gesto, onde purificamos o nosso olhar
o escritor italo calvino, nas seis propostas para o próximo milénio, um conjunto de conferências que funcionam, certamente, como o seu testamento, cultural e espiritual, diz que o primeiro valor que nós temos que descobrir no próximo milénio, que é este que estamos a viver, é o valor da leveza. e o que é a leveza, para ele? ele explica: cada vez que o reino humano me parece condenado ao peso digo para mim mesmo que eu devia voar para outro espaço. não se trata de fuga, para o sonho ou para o irracional, mas quero, sim, dizer que preciso de mudar de ponto de observação, preciso de considerar o mundo sob uma outra óptica, outra lógica, outros meios de conhecimento e de controlo. então o que é a leveza? - a leveza é a possibilidade de deslocar-se, de buscar outro ponto de observação, de considerar o mundo sob outra óptica, buscando outros meios de conhecimento
esta deslocação, para nós, é a condição de peregrinos, é a condição de buscadores, é a condição de mulheres e de homens que aceitam o desconhecido. mas podia ser de outra maneira?... como dizia rené char, "como viver sem ter diante de si o desconhecido?"
é este desconhecido que acolhemos, num viver que é, ele próprio, passagem. mas, calvino cita paul valéry num verso que traz muita luz - ele diz: "esta passagem, esta leveza, é ser leve como um pássaro mas não leve como uma pluma" - nós somos chamados a ser leves como pássaros mas não leves como uma pluma, isto é, não se trata de uma ligeireza, de uma superficialidade. este "viver entre" não é um descompromisso, não é um "truque" ou um modo para, no fundo, não estar em parte nenhuma, não ser de nenhum lado, não se comprometer, não se envolver com nenhum grupo, com nenhum aspecto da realidade. ser leve não é ser pluma. ser leve é ser como o pássaro, isto é, que vive na passagem, que vive o esforço e a fadiga de ser no próprio acto de passar
e para nós, este poema de alberto caeiro, "passa ave, passa e ensina-me a passar" é a melhor metáfora pascal - a páscoa, que etimologicamente significa passagem, outra coisa não é que o desafio a vivermos aí, nesse "entre", entre morte e vida, escolher, conseguir, lutar por encontrar o estilo do nosso olhar, o bater do nosso coração